sexta-feira, 12 de junho de 2020

GEORGE FLOYD

Há assuntos sobre os quais prefiro calar; esperando para ler e ouvir os que têm muito mais propriedade do que eu. Se me manifesto agora sobre o assassinato de George Floyd, não é com a intenção de falar em nome do povo negro. Em qualquer sarau, aqui da periferia, há pessoas muito mais qualificadas que eu neste aspecto. Não consigo, no entanto, calar diante da barbárie. Não pretendo falar por; apenas junto, em solidariedade, expressando como dói no meu próprio coração.
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻

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