O TOURO EM ERUPÇÃO
Um touro vendado se bate contra as extremidades do túnel, tentando
encontrar o caminho que leva à arena. É um touro preto. Ao redor, os homens
fustigam-no, batem-lhe com a mão no traseiro. “Eia, novilho doido, eia!” Viver
é encontrar uma trilha, mesmo que de pedras, por onde a gente possa caminhar.
Algumas pessoas encontram sua própria trilha, aquela que lhes é - e só a elas -
destinada, quando mal aprenderam a andar, quando ainda engatinham; outras
pessoas passam a vida toda batendo a cabeça, procurando uma vereda onde possam
ser, onde seus pés encontrem o sentido de existir. “Dê-me um cantinho de mundo
onde eu caiba e eu serei serenidade” – diz o touro por meio de sua alma taurina.
Acossado, no entanto, o touro é abismal, fere quem estiver por perto; não
distingue sequer a mão que o alimenta. Eia, novilho, eia natureza, eia! Há uma
menina branca, sempre há. A fragilidade é sua força. Ela acaricia o touro
enquanto os outros cravam bandeirolas nas costas da fera. Três filhos, três
filhas; o pai cego fumando cachimbo. Caminho onde a gente possa ser. Uma
beiradinha de mundo e de língua onde caiba um touro, onde um touro encontre
morada e frescor. A carne é para os vergões e o chicote. A carne é para a
fúria! Alimento, amizade, alma, amor, amanhã. Todas as pistas começam com A,
mas a solidão é cheia de curvas... E gritos. Havia para a menina toda uma vida
de vitórias: quadros revolucionários em estado de transparência, esculturas
inovadoras - sempre de touros - ocultas na pedra e no bronze; vocação para a
Arte é isso, mas ela se esqueceu de nascer e a neblina cobriu o caminho que lhe
era destinado. O outro do mundo habita o silêncio... O caminho não existe sem
aquele que caminha e o touro é toda a violência que o couro e a carne podem
conter. A vida habita a solidez; o mais é hipótese, possibilidade, cavalos
marinhos no sertão; todo um mundo que poderia ser, mas não é: aborto... A casa
abortada.
MAS VOU CONTAR
ESTA HISTÓRIA PARA PROVAR QUE SOU SUBLIME.
A menina diz:
- Quando eu me
despir de todas as cascas serei amor.
O touro não é só
o touro, o touro é o touro mais a menina e mais a casa. Nada é isolado. Tudo o
que é, é dentro de um mundo. Tudo o que é mundifica. Eva era Eva, mais a maçã,
mais a serpente.
O touro escapa, o
touro entra em erupção. O touro – negro - contempla a casa. O touro é a casa. A
menina morta monta nua o touro: uma maçã, uma rosa vermelha nos cabelos; gozo...
E morangos silvestres. O touro amanhece um menino. Ele se chama Kan, é o filho
do meio; ela se chama Tui é a filha mais nova.
O OUTRO EM ERUPÇÃO
Era uma casa grande: oito portas e uma dúzia de janelas. Era uma casa
antiga, para mais de duzentos anos, sustentada por colunas e vigas de madeira
maciça lá do século XVIII ou XIX. A casa atravessa o tempo com a família
dentro. No porão, encravadas nas pedras, ainda estavam as grossas correntes
para prender escravo. Dizem que o bisavô era severo com negro fujão; gostava de
aplicar os castigos nas dependências da casa e a casa se fortalecia com isso,
ganhava sua alma, seu poder também daí. Não é só com sorrisos e fotografias que
se constrói uma família. Aquilo que dói, aquilo que esfola, é transmitido entre
as gerações; torna-se a memória de um clã. Ancestralidade é um dos nomes do
carma. Havia, na casa, uma sala com doze cadeiras espalhadas, encostadas às
paredes; sobre cada uma dessas cadeiras vazias, o retrato amarelado de um
parente morto. Ancestralidade também é carma. Havia ainda outra sala, com uma
mesa longa, rústica, de madeira preta. Os quartos eram quatro. No menor deles
dormiam o pai e a mãe. Os três rapazes, cujas idades variavam entre vinte e um
e quinze anos, dormiam no mesmo quarto. As meninas, também eram três, dividiam
o outro quarto. Havia ainda um quarto de hóspedes que estava sempre desocupado;
uma vez que, havia muitos anos, ninguém visitava a casa. Uma cozinha enorme
onde, desde manhã cedo, o fogo crepitava completava a casa.
Em tempos
remotos, mais de duzentas pessoas trabalhavam na fazenda, subindo e descendo os
morros, cuidando do cafezal. Agora os pés de café tinham desaparecido dos
morros. Quando setembro chegava, o cheiro de café perfumava o ar, mas a
plantação estava perdida no meio da mata. A casa, a família e o touro estavam
apartados do mundo. Assim que o dia amanhecia, o pai, mesmo sem enxergar,
chamava os rapazes e seguiam juntos para a roça. Plantavam o que sustentava a
existência. Não havia luxo. Aos domingos, o pai e a menina mais nova, Tui, iam
à feira vender o excedente, quando excedente havia. Em determinadas épocas do
ano a comida precisava ser racionada, quase passavam necessidade, mas havia a
farinha de mandioca, a rapadura, o fubá.
Uma noite, o
filho do meio dormiu e sonhou com um abismo, estava calor, mas ele tremia e
batia os dentes como se estivesse com febre. O sagrado vem em forma de frio. De
dentro do abismo, saía uma luz proveniente de um tesouro: um touro em tamanho
natural todo feito de ouro. No sonho, Kan viu com riqueza de detalhes o lugar
onde o tesouro estava enterrado. Já tinha passado por aquele lugar. Ficava a
três ou quatro dias de viagem rumo ao sul. O pai, porque era cego, intuiu o
sonho do filho. Ele, o pai, tinha ciência de tudo; sempre. O frio era uma
corrente que ligava ao filho o pai.
Chamou o filho do
meio e a filha mais nova, sua menina preferida.
- Soube que vocês
vão em busca do tesouro.
- Ainda não é
certo.
- O tesouro só
pode ser encontrado na noite de sexta-feira da paixão. E só pode ser manuseado
por alguém puro de coração. Se aquele que tocar o tesouro tiver um único
pensamento egoísta, um único pensamento impuro neste momento sublime, será
dissolvido imediatamente. O tesouro está desde sempre no mesmo lugar, mas só poderá
ser encontrado na noite da agonia de nosso senhor. Nessa noite ele emitirá
aquela mesma luz que você viu em seu sonho.
- Mas, pai, foi
só um sonho. Não sei se isso tem algum valor...
- Lembre-se: aquele
que quiser reter, perderá; mas quem partilhar terá tudo em dobro. É preciso ser
maleável, meu filho, as árvores mais altas envergam-se, mas não se quebram com
o vento. Se o mundo ao seu redor desmoronar, mantenha-se na vala.
Em seguida o pai
tirou suas vestes e entregou-as ao filho que, imediatamente, despiu-se e vestiu
a túnica do pai e colocou na cabeça o chapéu do pai.
ONDE ESTÁ O TEU TESOURO
AÍ ESTARÁ TAMBÉM TEU CORAÇÃO
Kan tinha a
capacidade de amar em silêncio. Tinha medo de ferir tocando, porque conhecia em
si o touro. Tui sabia o amor do irmão, mas era toda pureza, como um riacho raso
de águas cristalinas, peixes coloridas no fundo e pedras arredondadas. Tui não
sabia tramar, era toda generosidade. Ela morreria de sede para dar água a
alguém que também estivesse sedento. Kan sabia a generosidade, mas era homem,
também água, mas abismal e o abismo tanto podia engoli-lo, quanto engolir tudo
ao seu redor. Tudo é um: Kan era Kan mais Tui, mais seus outros irmãos, mais
seus pais, sua cidade e mais toda a raça humana. O significado da vida é o
caminho e o tesouro, mas cada pessoa só tem uma trilha que leva ao seu tesouro.
É fácil demais se perder pelo caminho, cometer suicídio, desencaminhar-se.
A viagem que
demoraria três dias, acabou demorando mais de uma semana. Seguiram o rio, mas
choveu muito por aqueles dias e o rio encheu, arrastando tudo às suas margens.
Um tronco levado pelas águas acertou Tui ao meio, quase a levou embora, quase
partiu a menina em uma, mas o irmão, abismal, conseguiu segurá-la e salvou-a e
cuidou dela com os medicamentos que a mata oferecia. Ficaram dois dias
descansando na casa de uma velha, negra, que morava só no meio da mata. Por
sorte, chegaram ao ponto exato onde Kan havia sonhado, o tesouro estaria bem ali
e era a tarde da sexta-feira santa. Cavaram, mas nada havia. Um buraco é
cheio de silêncio. Cavaram em outros lugares. O tesouro salvaria a fazenda, a
vida e a família. Era impossível, a
terra era terra e só. Já cansados do esforço, o irmãos adormeceram abraçados e
desiludidos. Tudo seria ruína e só ruína. Alguns encontram o tesouro que lhes é
destinado e outros não. A vida é isso. Que é justiça universal? O que é Deus?
Durante a noite, a visão de um moço muito branco acordou Tui. Ele vinha com
mais dois outros homens; todos eles profetas. Ele apontou uma cova que os
próprios irmãos já tinham cavado. A cova emitia luzes azuis e vermelhas em
forma circular. Ela, Tui, olhou para o irmão e viu que no peito dele havia também um
círculo vermelho e azul - carne e espírito - feito da mesma energia que
provinha da cova onde o tesouro, o touro todo feito de ouro, descansava. Tui
acordou o irmão. Sabia que seu coração era feito de um pedaço do tesouro e que
só ele podia retirar o tesouro; um touro todo feito de ouro em tamanho natural
pesa muitas toneladas.
- Veja – ela disse
e apontou a luz.
Kan olhou para o
próprio peito e viu que brilhava. Sentiu-se forte e confiante, mas não
compreendeu que para assenhorar-se do tesouro, primeiro era preciso
assenhorar-se de si mesmo. O grande tesouro não está fora, é só consequência.
Kan começou a
puxar o touro de ouro para fora do abismo, mas o touro em erupção fascinou-o -
as igrejas medievais têm gárgulas guardando a entrada – e um pensamento atravessou
o coração semi-puro do irmão do meio. Quem pode lutar contra um pensamento?
Seriam necessários muitos anos de meditação e treinamento para que Kan pudesse
evitar a erupção de um pensamento assim, mas ele não tinha mais que alguns
segundos:
- E se eu ficasse
com o tesouro? – Sussurrou. - Tenho direito; afinal, foi eu quem o encontrou. O
sonho foi todo meu e só meu – era o Mal, as gárgulas que impediam a entrada no
paraíso.
Neste exato momento,
com as mãos ainda nos chifres do metal, Kan, o filho do meio, o menino da água
e do abismo, tornou-se poeira. Tui entristeceu-se. Chorou, mas ainda com
lágrimas nos olhos tentou puxar o tesouro do buraco. Para sua surpresa, o touro
de ouro pesava menos que a mão de uma criança. Ela o carregou de volta à
fazenda com uma facilidade que surpreenderia ao mais forte dos homens.
Em casa, partiu o
touro em touros menores, todos de ouro e o dividiu com os irmãos, com o pai,
com a mãe, com todos os moradores do vilarejo que espalharam pelo mundo seus
pequenos touros dourados. Kan, o irmão que errou, já não existia com limites
definidos, mas se manifestava em cada gesto da irmã, que todas as pessoas
daquele lugar diziam ser uma santa e ela, de fato, era uma santa... Uma santa
que primeiro se chamou Tui, depois Joana, depois Geralda, depois Márcia, depois
Maria, depois Tatiane. Depois, Oração, simplesmente, como um menino frente a Deus.