sexta-feira, 18 de agosto de 2017
ANTES O SILÊNCIO QUE A VERDADE
Todo mundo sabe que a verdade é melhor que a mentira; o que ninguém diz é que o silêncio é melhor que a verdade. Todo conflito, atrito, guerra, confusão que há no mundo é fruto da verdade, não do silêncio ou da mentira. Se têm a verdade, guardem-na para si. Não há verdade baseada num falso eu. E, nessa confusão de celulares, trânsito e tablets, quem é que sabe onde o eu verdadeiro, a criança em estado de gentileza foi parar? Brincar de viver é vagabundagem. Você afirma que fala a verdade, mas sua verdade é pura sociologia; não se trata necessariamente do verdadeiro, mas daquilo que fizeram você acreditar que era o verdadeiro. SUA verdade é uma verdade judaica, budista, muçulmana, ou cristã; católica ou protestante; norte-americana, europeia, africana, ou brasileira; gaúcha mineira ou paulista; branca ou negra; feminina ou masculina, de direita ou de esquerda... Sua opinião não é sua, foi incutida em você; então por que essa ânsia de divulgá-la e defendê-la? Tire essas cangalhas. Esqueça sua identidade, seu número de RG, suas crenças e credenciais. Esqueça o seu pensamento, o que você chama de pensamento, na maioria das vezes, não passa de barulho, ruído, culpa, preocupação. A grande lição de Bergson é o uso da intuição como método; mas quem pode ouvir a intuição em meio a tanta microfonia? A maioria das verdades que ouvimos das pessoas por aí, são verdades baseadas no ego, naquilo que Winnicott chamou de Falso Self, no eu de fora que nos esmaga; e, então, queremos descontar em cima de alguém o peso da verdade que foram empurrando, jogando, sobre os nossos ombros. Ombros que suportam o mundo; mas o mundo sem essas construções todas não pesa mais que a mão de uma criança. A gente só dá aquilo que tem e se sentimos o mal-estar, a herança que deixamos é mais mal-estar. Este eterno mal-estar na cultura que Freud foi bom em diagnosticar, mas não em curar: morreu abraçado ao monstro que combatia. Não há pessoa mais insuportável que aquela que afirma: “sou sincera, digo a verdade, não vou mudar, quem quiser que me aceite assim!” Que sinceridade é essa baseada num eu de mentirinha? Num eu formatado? Se o silêncio é mais importante que a verdade, a gentileza é mais importante que a sinceridade. Então, antes de gritar verdades em praça pública, esqueça. Esqueça sua opinião, o que você acha que é, esqueça seu trabalho, seu partido, sua religião... Esqueça todo esse ruído que não é pensamento, mas repetição sem diferença. Esqueça inclusive este texto; entregue-se aos sentidos, entre no mar, sinta o cheiro da comida, a brisa, a voz do amigo. Isto é ser, e só emerge quando você sente sem julgar. Julgou, fodeu. É o egão, o Falso Self, querendo dar as cartas, aquilo que, na maioria dos meus textos, chamo de Monstro. Ele é medroso, melindroso, orgulhoso, perigoso; leva à trilha do assassinato ou do suicídio. Lembre da lição de Amélie Poulain, que sentia prazer em ser, em enfiar a mão num fardo de feijão. Pura estética, do grego do grego aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade. Quando a estética em arte se torna um construto da razão, cagando regras na correnteza, então não há esperança para a Arte. Arte é liberdade, mas isso já é outro assunto.
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