sábado, 19 de agosto de 2017

I-1

I, que já tinha sido de tudo, desde mosquito até leão, tinha desistido da forma quando desceu à cidade e encontrou Guaccaluz, o homem-aranha.
- Joguei com a vida, a aposta mais alta que se pode fazer. Não perdi, mas a vitória não me fez melhor. Vivo em bifurcações e qualquer caminho que escolho desemboca no desastre.
Guaccaluz arrastou-se para fora da sombra de I:
- Você é capaz de desistir de seus objetivos? É capaz de viver sem metas e ainda assim não se sentir orgulhoso ou num patamar que te dê direito de julgar aqueles que as têm?
I tornou-se um Emoji pensativo.
- Aquele que persegue, perde. A força que você mobiliza para alcançar um objetivo, gera uma contraforça na mesma proporção para afastar o objetivo de você. Perca-se! Seja espontâneo. Siga o caminho sem porquê, obedeça a naturalidade. Observe a aranha, ela fabrica a teia com toda a atenção, cuida de tudo sem pensar e lança os fios no exato espaço do vazio. De nada ela corre atrás; de nada reclama; faz apenas o seu trabalho e confia. Como que hipnotizada, a presa corre ao seu destino. Seja como a aranha, não corra atrás de amor, amizade ou pão; tampouco se orgulhe disso. Não é por orgulho que não se persegue, mas por gratidão e despojamento.
- Já fui aranha – disse I, lembrando de uma de suas últimas mutações.
- Mas esqueceu rápido a lição da teia: aquilo que lhe é destinado, vem até você. Faça seu trabalho e confia. E, lembre-se: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades!” Ainda está disposto? Ou não almeja o trabalho como fim, mas como meio para a fama? Ao tratar seu trabalho, sua teia, apenas como meio, você enfraquece sua teia, enfraquece seu trabalho...
- É que Fulano faz o mesmo e...
- E nunca se compare com os outros. Se puder, nem sequer compare-se consigo. Esteja presente. Instale-se no agora.
Então o sol se quebrou em dez mil pedaços e a escuridão afugentou a luz. Durante doze gerações, sem qualquer vida ou geração, a forma recolheu-se ao vazio e o som, ao silêncio.

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