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domingo, 27 de janeiro de 2019

MÉNAGE À TROIS - TRECHO CAP. 22


As duas línguas se revezavam sobre minha pica; às vezes as bocas se beijavam sobre a cabeça. Paraíso, que paraíso? De repente, virou putaria, elas nem riam mais. Tiraram as roupas. Eu coloquei as duas no sofá com as pernas abertas e fiquei louco, que nem cachorro novo, pulando de uma xana para a outra. Não conseguia me concentrar numa só. Fartura, teu nome é amor! O quepe estava torto na minha cabeça; os óculos escuros, dependurados na orelha. Arranquei o uniforme e me deitei no sofá. Então uma delas se sentou no caralho, enquanto a outra sentou com a boceta na minha boca. Brincamos assim por um bom tempo, depois as meninas trocaram de lugar. No meio da foda, eu tinha de pensar em outra coisa. Se ficasse concentrado, gozava na mesma hora. Tinha de me distrair um pouco e depois voltava. Então as minhas companheiras se encaixaram num meia nove, a Anabela por cima. Empurrei o pau e ele escorregou gostoso. De vez em quando, tirava da boceta da Anabela e colocava na boca da Duda. Aí fiquei maldoso. Tirei o pau e lambi com força o cu da Anabela. A menina gemeu. Cuspi. Passei o dedo. “Vou tentar!” Pensei. Se ela reclamasse, eu parava. Para minha surpresa, quando enfiei a cabeça, ela gemeu. Empurrei mais um pouco – é preciso carinho quando se está comendo um cuzinho; se forçar, machuca, ainda mais um rabinho apertado como aquele – ela relaxou, aceitou a pica. Passando a cabeça, o resto escorrega. A própria Anabela arrebitou a bundinha dura e empurrou para trás. Enquanto isso, a Duda, garota esperta, chupava o clitóris. Quando estava tudo dentro, a coisa ficou fácil. Segurei a danada pelo cabelo e soquei até o talo. Ela rosnou, gemeu, pulou. Mandei brasa. Não foi preciso muito. Em pouco tempo, Anabela gozava.
 - Quero que você encha a cabeça da minha pica de merda, safada – falei.
 E aí ela recebeu com força.
 - Vou encher seu cuzinho de porra. Aperta o rabinho no meu pau!
 - Vai, vai, vai.
 - Vou, vou sim, gostosa.
 Ela gritou, tremeu, suspirou. Eu também gozei e, depois, deixei o pau descansando... Porra de amor escorrendo pela bunda dela, descendo pelas pernas... E Anabela chorou. Teve uma crise de choro. Caiu de lado e colocou o travesseiro no rosto... Coitada da Duda, só ela não tinha gozado. Eu, porém, sou um homem honrado. Não deixaria a menina na mão. No amor há uma única regra: não se pode ter prazer sem dar prazer! De modo que caí de boca, mesmo esgotado. Um bom oficial não foge ao seu dever. Não precisei chupar muito para a Duda gozar também. Ela estava excitada. Quando gozou, não tirei a boca, continuei mamando até ela não aguentar mais, apertando os bicos dos seios com as mãos...
 - Pode gozar, safada, goza que eu quero engolir todo seu gozo... Enche minha boca... – sussurrei.
Gozou e, ao contrário da Anabela, teve uma crise de riso. Como é leve o semblante de alguém que acabou de gozar! Uma ria e a outra chorava. Depois inverteram os papéis, chorando e rindo, e se abraçaram. Eu fui ao banheiro tomar um banho. Estava todo melado. Nada como a criatividade na hora do amor.



sábado, 19 de agosto de 2017

I-1

I, que já tinha sido de tudo, desde mosquito até leão, tinha desistido da forma quando desceu à cidade e encontrou Guaccaluz, o homem-aranha.
- Joguei com a vida, a aposta mais alta que se pode fazer. Não perdi, mas a vitória não me fez melhor. Vivo em bifurcações e qualquer caminho que escolho desemboca no desastre.
Guaccaluz arrastou-se para fora da sombra de I:
- Você é capaz de desistir de seus objetivos? É capaz de viver sem metas e ainda assim não se sentir orgulhoso ou num patamar que te dê direito de julgar aqueles que as têm?
I tornou-se um Emoji pensativo.
- Aquele que persegue, perde. A força que você mobiliza para alcançar um objetivo, gera uma contraforça na mesma proporção para afastar o objetivo de você. Perca-se! Seja espontâneo. Siga o caminho sem porquê, obedeça a naturalidade. Observe a aranha, ela fabrica a teia com toda a atenção, cuida de tudo sem pensar e lança os fios no exato espaço do vazio. De nada ela corre atrás; de nada reclama; faz apenas o seu trabalho e confia. Como que hipnotizada, a presa corre ao seu destino. Seja como a aranha, não corra atrás de amor, amizade ou pão; tampouco se orgulhe disso. Não é por orgulho que não se persegue, mas por gratidão e despojamento.
- Já fui aranha – disse I, lembrando de uma de suas últimas mutações.
- Mas esqueceu rápido a lição da teia: aquilo que lhe é destinado, vem até você. Faça seu trabalho e confia. E, lembre-se: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades!” Ainda está disposto? Ou não almeja o trabalho como fim, mas como meio para a fama? Ao tratar seu trabalho, sua teia, apenas como meio, você enfraquece sua teia, enfraquece seu trabalho...
- É que Fulano faz o mesmo e...
- E nunca se compare com os outros. Se puder, nem sequer compare-se consigo. Esteja presente. Instale-se no agora.
Então o sol se quebrou em dez mil pedaços e a escuridão afugentou a luz. Durante doze gerações, sem qualquer vida ou geração, a forma recolheu-se ao vazio e o som, ao silêncio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

FRUTA - capítulo II


Clara

   O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo? Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos, todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam, havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito. E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina? Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para um baile junto às esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas, vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar. Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom, sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
   Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela, em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida? Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando ininterruptamente lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
   - Vamos pro quarto?
   - Você pode me adiantar o dinheiro?
   - Quanto é?
   - Duzentos reais.
   - Tá aqui.

   Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco. Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz, provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido. Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.

LANÇAMENTO 26/10

terça-feira, 22 de outubro de 2013

FRUTA - Capítulo I


Matheus

   Então ela não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
   - E aí?
   - E aí o quê?
   - O que você vai querer, ué?
   - Tire a roupa.
   O vestido vermelho escorregou fácil e se deitou no chão feito um prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais que a ausência de cor.
   Deitaram-se nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados momentos, chegava a perder o fôlego.
   - Chiiiu – ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida, a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, mas o coração continua.
   - Não é verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
   - Ainda assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
   - Você se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
   - E por que é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
   - O espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo, está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras, explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
   - É um espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
   - Sim triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar qual era a fala. O bebê não se envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre, como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos, na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida. Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se pelo sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria transformar a própria forma em bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
            - Puxa, como você fala... Sem chance, cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a mínima.
   - É, eu sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais, viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios. Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas, no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de água, voltava e jogava a água dentro de outro balde um pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um lamaçal danado em volta. O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as ondas vinham quebrar.
   - E os seus pais?         
   - Como disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos. Hoje moram em Ourinhos.
   - Ourinhos?
   - É.     
   - Já passei por Ourinhos.
   - Faz tempo que eu não os visito.
   Pause
   - Posso te pedir uma coisa?
   - Falaí?
   - Me fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
   Ele, porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto, as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
   - Fodeu, acho que vou ficar louca por você - ela pensou baixinho pra ele não ouvir, enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
   Do outro lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom. Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions league, um golaço de bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.

LANÇAMENTO DIA 26/10.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Fruta - 3º capítulo


Jude

   Dois meninos. Dez, no máximo doze anos. O moreno claro, de cabelo liso, é Jude. Tem esse nome por causa da música dos Beatles mesmo. Não gosta muito do nome. Na escola, nos primeiros dias de aula, alguém sempre diz: A Jude está? E isso aí é motivo de piada. De cara, ninguém acha que Jude é um menino. Natural. O outro é Evilásio Santos Neto, mas toda a molecada o chama de Caroço. Só quem é da sala dele na escola sabe que o nome é Evilásio. Estavam, ainda há pouco, jogando bola nos campinhos do cemitério. Quem é que, nessa idade, na periferia, não sonha ser jogador hein? É a única maneira de ser herói. E quem é que nesse mundo não sonha em ser herói, hein? A gente ganha, do nada, um nome, um par de pernas e um rosto que ninguém mais tem. É preciso defender isso de algum jeito. Quem joga, tem de ter gana. Não aceitar ser só mais um.
   - Aí Caroço... Se ligou no rolinho que eu dei no Pelé? Vup. Foi só um, ligeiro até umas hora, veio que nem uma vaca louca, vap, só encostei, passou.
   - E aquele golaço que eu fiz hein? Pou... Uma bomba, no ângulo, ainda triscou na trave.
   - Golaço mesmo.
   - Aí, vamos dar a volta lá pelo riozinho?
   - Que nada, mó rolê, tio. Bora cortá por dentro do cemitério mesmo.
   - Firmeza então.
   Atravessaram o portão principal do cemitério. Quarta-feira. Poucos enterros.
   - Compra uma pipoca aí, Jude?
   Há um velho com uma carroça de doces ao lado do portão principal.
   - Duas pipocas aí, tio, e o troco de bala.
   Cada um pega um saquinho de pipoca. Enchem os bolsos de bala. Jude passa a mão na bunda do outro.
   - Ô veado, deixa de putaria.
   - Só queria ver como é que tá o meu gadinho.
    - Por que não pega aqui? – diz o Caroço apalpando a parte da frente.
   Sentam-se sobre um dos túmulos para chupar umas balas.
   - Bala da hora, essa de leite, nénão?
   - Que nada, essa de coco aqui é a melhor.
   E descasca mais uma balinha. E outra de coco e leite, mistura com a de hortelã, um pouco de pipoca por cima de tudo. Mistura que mistura e nhac... nhac...
   - Ei, Caroço.
   - Falaí.
   - Alguma vez você já parou pra pensar que um dia a gente vai trocar de lado?
   - Como assim?
   - Um dia a gente vai tá do lado de baixo, truta, tudo escuro e silêncio. Olha esse maluquinho aqui. – Aponta para a foto preta e branca de um garoto em uma das lápides. – Um dia ele foi que nem a gente. Comeu, bebeu, jogou bola... Agora não deve ter mais nem o osso.
   - Que conversa mais besta, Jude. Eu é que não penso essas bobage. Se a gente morrê, ainda vai demora pra caramba.
   - Vou te falar um barato, Caroço, sabe que tu é meu camarada. Tem noite que eu nem durmo pensando nessas coisa, perco o sono. Soco uma, soco duas e nada de sono. Aí fico me sentindo mal porque, afinal de contas, Deus pode tá lá no alto vendo minhas sacanage, será que existe mesmo Deus? E se não tivé Deus nenhum?
   - Tu só pensa bobage hein truta. Claro que Deus existe, se não o que é tudo as coisa que tem no Mundo? De onde é que vem as árvore? A terra? Os rio? Nóis respira só porque Deus deixa.
   - Sei não. Sei não mesmo. Tu não entende.
    - Ainda tem bala de chocolate com leite?
   - Deixa eu vê – revira o saco de papel com as balas – tem sim, segura aí.
   Joga a bala para o outro.
  – Será que um dia a gente vai consegui? - pergunta.
   - Consegui o quê, Jude?
   - Jogá bola de verdade. Num time grande e tudo.
   - Claro que vai. Não conheço ninguém que joga bola melhor que tu e eu.
   - É, mas não sei não.
   - Tu só sabe pensá que vai dar tudo errado. Pensa que vai dá certo de vez em quando.
   - Verdade, vai dar tudo certo sim. - responde Jude, como se pudesse se enganar e continua: - Vamboraí. As bala já era.
   - Vamo aí.
   Saem caminhando em direção ao portão dos fundos do cemitério.
   - Ei Jude, quando é que tua mãe vem te ver?
   - Só na outra segunda.
   - E aquele negócio lá de te mudá de escola, ela desistiu?
   - Bati o pé, falei que não ia praquela escola de veado não. Só tem emo e colorido lá. Tô fora.
   Na rua, encontram uma garrafa pet de refrigerante vazia. Um chuta pro outro que devolve pro um.
   - Ei, Jude, sua tia pediu pra você levar uma couve-flor. Já separei aqui. - diz o dono da quitanda enquanto coloca uma couve-flor na sacola.
   - Só isso mesmo que é pra levar, seu Manuel?
   - Quando ligou, ela só pediu isso.
   O menino apanha a sacola e chuta mais uma vez a garrafa para o outro.
   - Vai jogá bola mais tarde?
   - Sei não, cola aí depois, ou liga.
   - Beleza, falou.
   - Falou.
   Jude entra em casa. Mora com a tia-avó. Só os dois. A mãe aparece uma ou duas vezes por mês. Sabe que ela, a mãe, gosta dele, mas esperava mais. Ele cuida da tia e a tia cuida dele. Ah!, se um dia conseguisse jogar num time grande...
   - Bença, tia Fátima. - diz ao mesmo tempo em que coloca a couve-flor sobre a mesa e oferece a mão à tia, que vira, calculando, centímetro por centímetro o perímetro de sua cozinha, dá alguns passos à frente, apalpando com a mão esquerda a borda da mesa, enquanto com a mão direita segura a mão do menino e responde:
   - Deus te abençoe.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fruta - 2º capítulo



Clara

   O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo? Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos, todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam, havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito. E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina? Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para um baile ao lado das esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas, vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar. Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom, sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
   Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela, em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida? Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando interruptamente lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
   - Vamos pro quarto?
   - Você pode me adiantar o dinheiro?
   - Quanto é?
   - Duzentos reais.
   - Tá aqui.
   Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco. Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz, provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido. Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fruta - 1º capítulo



Matheus

   Então ela não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
   - E aí?
   - E aí o quê?
   - O que você vai querer, ué?
   - Tire a roupa.
   O vestido vermelho escorregou fácil e se deitou preguiçoso no chão, feito um prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais que a ausência de cor.
   Deitaram-se nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados momentos, chegava a perder o fôlego.
   - Chiiiu – Ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida, a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, mas o coração continua.
   - Não é verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
   - Ainda assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
   - Você se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
   - E por que é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
   - O espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo, está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras, explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
   - É um espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
   - Sim triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar qual era a fala. O bebê não se envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre, como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos, na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida. Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se pelo Sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria transformar a própria forma em bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
            - Puxa como você fala... Sem chance, cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a mínima.
   - É, eu sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais, viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios. Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas, no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de água, voltava e jogava a água do baldinho amarelo, dentro de outro balde um pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um lamaçal danado em volta. O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as ondas vinham quebrar.
   - E os seus pais?         
   - Como disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos. Hoje moram em Ourinhos.
   - Ourinhos?
   - É.     
   - Já passei por Ourinhos.
   - Faz tempo que eu não os visito.
   Pause
   - Posso te pedir uma coisa?
   - Falaí?
   - Me fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
   Ele, porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto, as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
   - Fodeu, acho que vou ficar louca por você. Ela pensou baixinho pra ele não ouvir, enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
   Do outro lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom. Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions League, um golaço de bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.