Há no Amor uma espistemologia, a mais poderosa de
todas, aquela que destrói os limites entre sujeito e objeto. É no amor e não no
intelecto que entendemos as coisas, porque o Amor mais une que separa e, unido
ao outro; percebendo que, por mais diversos que sejamos, a luz que ilumina
nossos olhos vem da mesma fogueira, como poderemos ser ainda egoístas, como
poderemos ainda esfaquear a mulher? Atirar no vizinho? Maldade é ignorância,
amar e mudar as coisas me interessa mais. Onde penetra a luz do sol, as trevas
fogem. Onde chega o conhecimento, afugentam-se os sentimentos sombrios: a
inveja, o medo, o ciúme, a depressão; mas o conhecimento nunca é o conhecimento
do intelecto, e sim o do coração. Disse a raposa ao principezinho: “A gente só
conhece bem as coisas que cativou”. Amar um cão, um gato, uma rosa, uma árvore.
Amar a vida e o mundo como Deus amou, dando seu filho unigênito. Não importa se
a gente crê ou não nessa história. Também se aprende muito com a ficção. São
Paulo de novo:
“O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão
aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte
será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino,
discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas
de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos
face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou
conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes
três, mas o maior destes é o amor”.
Somos ainda como meninos, com nosso amor
deficiente, ainda meio apegado, vendo a imagem invertida da verdade,
imaginando-nos separados. Mas haverá o tempo, que chega talvez com a morte
sábia, em que compreenderemos tudo com o Amor transbordante de cuidado, com o Amor
que é Deus. E assim como esse Amor nos conhece no mais profundo do nosso ser,
nós o conheceremos. Os puros de coração verão a Deus, face a face. Nossa alma será uma com Deus, mas sem deixar
ainda de ser a nossa alma; como uma gota que se perdesse no Oceano, mas sem deixar
de ser gota. Deus se dá inteiro em todas as coisas. Se pudéssemos ver a face de
um elétron, essa seria a face de Deus. Se pudéssemos ver o Universo inteiro,
veríamos a face de Deus. Se víssemos o Vazio, ainda assim lá Deus estaria. O
excremento aduba e mesmo no cadáver nasce o verme. A gente pode quebrar uma
rocha em milhares de pedaços, mas a essência da rocha nunca se desintegra,
sempre se recolhe inteira em pedras menores. Quando amamos a ponto de esquecer
nossos interesses, é Deus quem ama em nós.