sexta-feira, 26 de outubro de 2018

NEON VERMELHO

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente.” Gênesis 2:7

O recém-nascido cria o que encontra
Antes mesmo de criar o seio
O bebê precisa criar o ar
E se o leite jorra porque a mãe coloca o seio num lugar onde a criança o possa inventar
Quem maneja o fole e disponibiliza o sopro
Que
Alimenta as ventas,
Movimenta a laringe,
Ilumina os pulmões?
De onde vem a habilidade criativa da vida para cuidar de si mesma?

Todas as coisas fluem em harmonia, meus manos.
Na maioria das vezes, o esforço é a medida do erro.

domingo, 21 de outubro de 2018

O trem de São Miguel


E quando eles bullyinam,
Dizendo que você nasceu para ser o segundo colocado,
Você retruca que nunca viu a vida como corrida, mas como magia.
E da cartola puxa um buquê de alegria.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Aquilo que Pelé disse


Há no Amor uma espistemologia, a mais poderosa de todas, aquela que destrói os limites entre sujeito e objeto. É no amor e não no intelecto que entendemos as coisas, porque o Amor mais une que separa e, unido ao outro; percebendo que, por mais diversos que sejamos, a luz que ilumina nossos olhos vem da mesma fogueira, como poderemos ser ainda egoístas, como poderemos ainda esfaquear a mulher? Atirar no vizinho? Maldade é ignorância, amar e mudar as coisas me interessa mais. Onde penetra a luz do sol, as trevas fogem. Onde chega o conhecimento, afugentam-se os sentimentos sombrios: a inveja, o medo, o ciúme, a depressão; mas o conhecimento nunca é o conhecimento do intelecto, e sim o do coração. Disse a raposa ao principezinho: “A gente só conhece bem as coisas que cativou”. Amar um cão, um gato, uma rosa, uma árvore. Amar a vida e o mundo como Deus amou, dando seu filho unigênito. Não importa se a gente crê ou não nessa história. Também se aprende muito com a ficção. São Paulo de novo:
“O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”.
Somos ainda como meninos, com nosso amor deficiente, ainda meio apegado, vendo a imagem invertida da verdade, imaginando-nos separados. Mas haverá o tempo, que chega talvez com a morte sábia, em que compreenderemos tudo com o Amor transbordante de cuidado, com o Amor que é Deus. E assim como esse Amor nos conhece no mais profundo do nosso ser, nós o conheceremos. Os puros de coração verão a Deus, face a face.  Nossa alma será uma com Deus, mas sem deixar ainda de ser a nossa alma; como uma gota que se perdesse no Oceano, mas sem deixar de ser gota. Deus se dá inteiro em todas as coisas. Se pudéssemos ver a face de um elétron, essa seria a face de Deus. Se pudéssemos ver o Universo inteiro, veríamos a face de Deus. Se víssemos o Vazio, ainda assim lá Deus estaria. O excremento aduba e mesmo no cadáver nasce o verme. A gente pode quebrar uma rocha em milhares de pedaços, mas a essência da rocha nunca se desintegra, sempre se recolhe inteira em pedras menores. Quando amamos a ponto de esquecer nossos interesses, é Deus quem ama em nós. 



terça-feira, 2 de outubro de 2018

O DIABO PODE SER UM BOM PADEIRO


No fim das contas, o Diabo pode ser um bom padeiro; ainda que seu pão seja duro, amargo, difícil de engolir. Comer o pão que o Diabo amassou é sofrer e ninguém passa por essa vida sem se despedaçar de vez em quando. O sofrimento nos torna verticais, nos dá profundidade; alma. Não que eu faça apologia do sofrimento. Não é o caso de sair cometendo autoflagelo, mas de aceitar a alegria quando ela vier e aproveitar o que a dor ensina quando ela chegar. A alma, é preciso merecê-la e tudo depende do que fazemos com nossas dores, machucados, frustrações. Aquilo que arde pode se tornar um jardim ou um assassinato. É a alquimia, o destino que damos ao que nos acontece que diz quem somos... Será que podemos transformar a dor de ser deixado numa canção de despedida? Ou permitiremos que tal dor nos torne desconfiados, ciumentos, possessivos? Numa entrevista, Gilberto Gil disse que não gostava do que ele era na época do tropicalismo; que não gostava de ser polêmico, combativo. Hoje, depois das separações, de perder um filho, ele se considera um indivíduo muito mais íntegro. Quando atravessamos um grande sofrimento, deixamos de perder tempo com ninharias, intriguinhas etc e tals... Aprendemos a lição de que a vida é algo muito maior. Perder um filho! Há no mundo sofrimento maior? E o que é um chefe rabugento diante de alguém que perdeu o filho? Uma bobagem, não é mesmo? No filme Árvore da vida, Terrence Malick aborda de forma magistral o processo do luto, da fé como caldeirão no processo de sublimação desse sentimento confuso e doloroso. Depois de perder o filho, a mulher reza, ora, pede, busca entender, destinar sua dor. Deus não age com palavras, mas com sopros. Ele fica silencioso, até que um dia acontece a graça, ela entrega, o vento alivia a chaga, transforma sua ferida em mais carinho. No fim das contas, é o frágil quem é forte. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Para os sábios chineses, a vida era um revezamento de Yin e Yang e a sabedoria consistiria em não ficarmos eufóricos nos tempos de bonança, nem deprimidos no tempo de escassez. A alquimia não trata de transformar o bronze em ouro; mas de transformar a raiva, a dor, a angústia, em amor, o mais puro amor. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria.”