Cada um cria os filhos do modo como consegue e acha melhor. Aqui em casa é na base da liberdade. Nunca mandei o João ou a Sofia lerem um livro, mas tenho muitos livros e eles me viam lendo muito um tempo atrás. Com a música é do mesmo jeito. A gente divide. Com o Lennon, por exemplo, numa parte da viagem, o rádio é dele; na outra, é meu. Gosto muito de ouvir uns funks, no flow etc e tals... A gíria é a língua em devir; língua menor, máquina de guerra, you know, toda essa baboseira conceitual. Mas, durante o meu comando, eu é que comando, uai; ainda que a Arte chegue sem precisar de mando. Outro dia, tocou Morro Velho, do Bituca, e, quando terminou, o Lennon - João - estava trêmulo, tocado por aquele enredo tão triste e aquela música mineira de carro de boi; som que viajou trezentos anos só pra chegar aos nossos ouvidos. É assim: um dia videogame, outro dia Cervantes, ou. Sem pressa e sem pressão. Funcionou muito bem com a Sofia. Ela se tornou um mulherão. Maior orgulho do papai aí. Mas eu queria mesmo voltar ao som do carro. Hoje, tocou Cartola, O mundo é um moinho, e eu expliquei a história da canção, dando uma enfeitada pra aumentar o drama. Vi o João em silêncio, sorvendo cada palavra, cada acorde. O milagre também é estético. Quer coisa mais bonita que um milagre assim, segunda-feira de manhã? Enfim, deixei o João na escola e voltei pensando no Cartola e no milagre que ele é. Não acho Bilac ruim, não; mas creio que sua obra maior foi mesmo o Cartola. Um acadêmico e um favelado. Coisas do Brasil. Como é que pode um homem sem qualquer instrução formal ser um gênio da língua feito Agenor? A forma como usa a segunda pessoa do singular, o tu, faz o amor ganhar um patamar transcendental: "devias vir para ver os meus olhos tristonhos". Fala de um amor que atravessou o mundo em caravelas, navios negreiros e foi aportar em meio aos barracos da favela. Os vivos do tempo presente somos a boca e a voz de todos os mortos. Quando digo olá, até Camões diz comigo. O grande barato de ser brasileiro, e que nada tem a ver com odiar, é ser liquidificador. O ponto exato onde o batuque de origem mama-África encontra o barroco-católico-português e o culto à mata do guerreiro-índio-menino. Foi uma boa aula pra mim e meu filho. Fomos visitados.
Boa dia e boa semana, amigos.
domingo, 25 de agosto de 2019
luminação
luminação - iluminada é a onda que, além de sua condição momentânea de onda, descobre-se sempre mar.
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
O COTIDIANO COMO HORIZONTE DO ESPLENDOROSO
Outro dia, escrevi que a felicidade é questão de atenção e não de realização. Fomos educados sob a narrativa do heroísmo; seria, pois, preciso fazer algo grande para que a vida ganhasse sentido. A razão da vida, em tal vértice, está sempre no futuro, sob a imagem da façanha. Eu sonhei ser Dostoiévski😲. Tudo bobagem! O sentido da vida está no cotidiano, no corriqueiro, em tudo aquilo que fazemos sem atenção e, muitas vezes, praguejando. Quando conseguimos trazer o espírito de volta à casa do corpo e estar presente no nosso próprio agora, que é a vida mesma acontecendo, tudo se torna sagrado, esplendoroso: oração. Aí, você leva os filhos à escola e percebe que eles estão ali ao lado, crescendo, e que toca no rádio uma canção e isso tudo é o milagre do amor e você não se dava conta, pois queria escrever seu Os Irmãos Karamazov, mas você nem gosta de frio. Você rega as plantas e percebe que, mais que água, vai junto o cuidado, o concernimento, o carinho: amor, porra! E as plantas sabem e, quando você fica triste, elas gritam por você lá do jardim, pedem até desculpas sem saber o que aconteceu, sentem-se culpadas, coitadinhas: “volta, amigo! Prometemos ser comportadas”. Você alimenta os cachorros e eles balançam o rabo e te beijam e não cabem em si de alegria, porque eles estão derramando amor pela língua. Você tira o cocô deles, lava o quintal, cumprimenta o vizinho, tudo isso é milagre e, quando você consegue fazer com amor e atenção, percebe que é um privilegiado. Você está tendo a oportunidade de amar, de se doar, de cuidar e servir. Então por que você não ama? Preocupa-se em ter um carro melhor que o do vizinho! Em escrever uma tese melhor que a do colega! Em ser promovido! Puxa vida! Como é bom tomar o café que a gente mesmo fez numa manhã fria! E quando você dedica atenção e amor assim a tudo o que faz, você fica grato. Você não reclama porque não tem salmão, mas agradece de coração a sardinha. Você não olha a Scarlett Johanson com cobiça, mas percebe o valor e a força da sua própria companheira. Vivendo assim, você nem precisa mais rezar porque tudo o que você faz é uma oração e tudo é abençoado. Quando o dia chega ao fim, você se senta com a família e o violão e todos cantam juntos uma canção qualquer. Ou então você se senta sozinho, pega uma caneta e honra a vida não vivida; escreve, com todo o coração, um conto sobre aquela mulher que não pôde amar porque ambos tinham compromissos. E, depois de escovar os dentes, feliz por ter pasta, escova e dentes, você se deita e percebe que teve um dia feliz. E você consegue o milagre dos milagres: você fecha os olhos e dorme.
DE SOFRÊNCIAS E ASTERISCOS
Há pessoas que se acham sofisticadas demais para serem felizes. No fim das contas, o mal-estar nada tem a ver com profundidade; ele é fruto do eu-egóico. A camada mais externa do ser. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. As pessoas ficam tristes não por serem inteligentes, mas por não terem sua inteligência reconhecida pelos demais. O eu-egóico é o inferno e o Diabo, não há outro. E o homem ocidental achou que, para ser profundo, e o mais profundo é a pele, seria preciso cavar até o inferno: milhares de páginas da literatura ocidental são sobre esse mal-estar chique; mas Li Bai cantava apenas a natureza, a mulher e o vinho: é Chinês, mas é meio mineiro também: Beto Guedes, uai. E tem mais, é só no Ser, naquilo que Mestre Eckhart chamava de fundo da alma, que se pode amar. O resto é doença do ego: narcisismo, egoísmo, posse: o Diabo. O amor é como o sol, doa-se à roseira e à erva danadinha. O mais, barganha do egoísmo; o carrasco com autopiedade; o torturador cobrando gratidão do torturado. Hoje, aceito a escrita que me dilacera, mas dou valor também à que me deixa leve. Aprendi muito com as bolhas de sabão, os beija-flores e as borboletas. Tanto quanto aprendi com as toupeiras e insetos de Kafka e Dostoiévski. Então, não confunda melancolia profunda com melancia na bunda. Não sou filósofo, não aponto caminhos para a humanidade; encontrar um canto de língua e de mundo para que eu mesmo pudesse (r)existir deu um trabalho danado. Aquilo que me salva pode ser a perdição do outro. E cada um deve ser livre e responsável para construir seu próprio caminho. Se anoto nesses diários as clareiras que meus pés roçaram na mata, é porque cedo adquiri o hábito da escritura. Sartre, que era toupeira, escreveu que o inferno são os outros. Não existem outros. O mundo só vai melhorar quando destruirmos a noção de um eu separado; que não é o mesmo que destruir a singularidade de cada um, pelo contrário. Até lá, entretanto, estarei me ocupando de limpar a casa, plantar flores e acender incensos. Bom dia!
* Uma amiga mineira me disse certa vez que a simplicidade é o último grau de sofisticação.
* Uma amiga mineira me disse certa vez que a simplicidade é o último grau de sofisticação.
IRA E TEMPO
São tempos de ódio. Não há como não odiar o que estes que estão no poder fazem. Por outro lado, das emoções humanas, o ódio é a mais perigosa. Claro, a ira move a história, todas as revoluções tiveram como combustível o sentimento de ira. Deve ser por isso que, triunfantes, todas elas se corromperam: Rússia, Cuba e China perseguiram artistas, homossexuais, religiosos; enfim, a sensibilidade. A China estuprou o Tibete. É que a ira cega, dinamite, termina por voltar-se contra si mesma. Entre os guerreiros gregos, a thymós era cultuada. Eles, no entanto, sabiam do risco e incorporavam a volúpia guerreira com cautela, sob as rédeas do logos. Sobre isto, entre os modernos, Nietzsche foi quem melhor escreveu. Voltando ao nosso aqui e agora, eu não consigo mais ler as notícias que aparecem no meu feed. Há muito ódio entre nós. E, pior, um ódio preguiçoso, que só reclama com a bunda na cadeira. Bem isso não faz; produz o fogo do fígado e só nos adoece enquanto a canalha dá risada. Tomamos o veneno e esperamos que o outro morra. Num nível inconsciente, todos estamos produzindo a escuridão. Quando era pequeno, e ainda hoje, gostava era do Bruce Lee. Por isto, admiro demais o Taoismo. O guerreiro pronto é aquele que não se deixa influenciar por nada que o inimigo faça. E não é a razão quem o conduz no combate, é o Tao. O rio revolto destrói as margens por onde passa; mas, quando a água observa a água, permanece impassível. Deixo nos comentários um conto de Chuang Tzu - aquele mesmo da barbuleta que Raulzito cantou. Morning.
A NOITE EM QUE ELA DESPENCOU NAS PEDRAS
Apesar da pouca idade, a senhora sabe que vi coisas que até Deus. Eles eram assim que nem abelha em volta da colmeia, marimbondo no casulo, criança atrás de doce em dia de Cosme e Damião. Raros eram os que não voltavam. Experimentou, voltou, já era; capeta abraça. A maioria, no entanto, consegue conciliar, espaçado, e tocar da vida. Mas tem aqueles que. Eu percebia no olhar. Homem, moça, menino, ladrão, sapa, veado. Eles têm olho triste. Igual olho de cavalo. Olhão que fala de falta e dói, assim, na veia artéria da gente. Aorta? Que seja. A senhora já reparou que cavalo fala com o olho? Eu conhecia de longe os que tinham aquele olho. Antes de se achegar, já tava tudo condenado. Os outros não. Na verdade, quase ninguém sabe, mas eu. Ninguém sonha crescer e ser noia na vida. Tô errado? A gente imagina ser médico, cantor, bombeiro, trapezista, porteiro, jogador de futebol. E aí acontece aquele machucado que nenhum mertiolate sara. Moça me contou que, anos antes, menina ainda, o moleque que ela gostava cumprimentou ela na escola. Ela ficou contente. Sorriu. Daí, escutou outro menino gritando. “Ficou maluco? Cumprimentando a gorda-crente assim na fila do lanche”. E riu. Bastou. Às vezes dá pra consertar; quase nunca, no. O que eu podia fazer depois de ouvir uma história dessa? Eu vendia. Dois por dez, vai. Ajudava a anestesiar. Tipo um médico, um anjo. Anestesista? Que seja. E, a senhora não crê? Na lata? Sim, na lata também e tinha de muito. Conto causo: teve um veado que a família internou. Ele parou. Só que, parado, pagava os menino pra bater nele e roubar todo o dinheiro. Ele dizia: “o dinheiro é de vocês, mas vão ter de tomar!” Ficou bravo comigo: “Quero você, mineirinho!” Faço isso nada. A senhora acredita? Pagava pra levar chute na cara. E depois ainda pedia desculpa. Mas usar não usou mais. E teve menina novinha que rodou banca. E, quanto mais a malandragem judiava, mais ela pedia. Queria até que cuspissem na cara. Quando a pessoa desgosta assim desse jeito, fico morrendo de dó. Penso em levar pra casa e cuidar; mas, qual casa? Dia frio assim, a senhora sabe, não gosto. Fico triste. Sem jeito de esperança. Lá em Minas era raro dia assim. Sol ano todo. São Paulo tem desses; aos magote. Diz que já foi pior. Foi num dia frio assim que a moça apareceu. Bonitona. Sobrancelha feita, unha igual. Cabelo tratado. A gente via. Mas tinha aquele olho de cavalo! Vi conversando com os menino. Queria pó. Pó não dura, mais que fosse. A turma cheira tudo. Pro patrão? Mesmo que ter caixa eletrônico. Pó não tem, só pedra. Que seja – olho pretim de cavalo triste – você me ensina a fumar? O outro menino: Isso é fácil. E pronto. Já foi. Eu tava lá na noite que ela despencou nas pedra. Sim, essa moça triste artista que deu no jornal. Foi. Quase que desobede, ramelava, eu, e apanhava depois, só paulada, ou morria. Pensei dizer: “moça, faz isso não. Você é das que fica”. Eu posso dar dessas? Sou dono não, aviãozinho e só. Que será que disseram ou fizeram pra ela vez na vida? Senti piedade. Se pudesse, garrava todas pena do mundo e me explodia com elas no meio dum buraco fundo. Quem sabe se, morrendo, não curava o mundo. E, senhora crê, era eu lá, vendendo, na noite em que ela despencou nas pedras.
CARAVELAS
Volvi e vim falar de vô. Curiosa a senhora. Senta aí e escuta. Tem problema não. Si silencia é que entende, sem posse. Vô dizia de meu coração que era de potro, transplantado. Não aceito voz de mando. No carinho, me ganha. Na espora, me perde. Passei calado. Vida inteira. Tudo é incompreensão. Uno diz coisa e o outro entende às avessas. Em mim, sempre assim. Como se eu falasse língua estrangeira que ninguém mais. Babel de mim. Os outros têm só duas caixas, mas eu parlo é no aberto do sentimento. E medo mesmo só de trovão. Que se foda o mais. Sim, vô. Vô é Minas, uai: montanha-triângulo. No real, tem sempre reta que gente não vê. Guardo chapéu de herança. De nome era Marcíonilio; de conhecido só por Sinhô. Cavaleiro e domadô. Eu menino, contava estória. Nem precisava, eu sabia. De longe, vinha montado, mas era leve no cavalo. Atravessava fronteira, varava neblina. Até hoje, falecí, vem; tu crê? Eu emprestava meu olho ao céu e via de cima, esquecido de nascer naquele tempo. Até pra amansar morto, antes de crente, sabia tudo o que era reza, vô. Eu: o aborto; vindo de outra raça, branca, surrupiado. Me perco na palavra e a senhora não diz. Se deixar, vou, feito rio. Volto. Vô e o cavalo eram uma coisa só. É o dois que se faz um e torna dividir em três. Montar eu não montava – bem. Ele entristecia. Morando aqui, adquiri moto boa, senhora sabe, né? Em frente ao candeeiro, vô falava e meu coração se abria feito flor, sem conteste, só pra chupar o bonito do narrado:
- Nem sempre fui ansim desse modo, Dan – dizia – carinhoso no trato com bicho. Menino novo, era na espora. Ou o bicho obedê, ou morria. Força com força. Queda de braço. Quem pode mais que o homem na natureza? Matei teimoso no punhal. De raiva.
- E o quê, vô?
- Uma égua; que era meio mulher. Trabalho grande. Milhar de cabeça. De Januária até Nanuque, na Bahia. De noite, acampamos e eu fui atrás de colo. Sei vivê sem colo não, Dan. Tu é igual que vejo. Por outra, a gente tinha de atravessar uma pinguela. Mas Caravela, que era égua pretinha-brilhante sem um pelo branco, empacou. Serrei espora, à vera! Com força. Nada. Desamontei. Dificulidade de escuro. No meio da ponte, madeira cedeu e eu caí. Não fosse estar seguro pela rédea, tinha morrido. Caravela sabia - salvou. Avisou antes. E eu, no cio, desobedê. Todo bicho é bem profeta. Guarda isso, fi. Todo bicho é bem profeta. A gente precisa aprendê a lê.
Eu nascido, nunca vi vô destratar alimária, senhora sabe? Era no carinho e na conversa e tudo que era bicho, de onça a joão-de-barro, obedê.
Assunte aonde cheguei: é do mato que o homem precisa pra aprender o que esqueceu de ser.
É dito.
Outro dia.
- Nem sempre fui ansim desse modo, Dan – dizia – carinhoso no trato com bicho. Menino novo, era na espora. Ou o bicho obedê, ou morria. Força com força. Queda de braço. Quem pode mais que o homem na natureza? Matei teimoso no punhal. De raiva.
- E o quê, vô?
- Uma égua; que era meio mulher. Trabalho grande. Milhar de cabeça. De Januária até Nanuque, na Bahia. De noite, acampamos e eu fui atrás de colo. Sei vivê sem colo não, Dan. Tu é igual que vejo. Por outra, a gente tinha de atravessar uma pinguela. Mas Caravela, que era égua pretinha-brilhante sem um pelo branco, empacou. Serrei espora, à vera! Com força. Nada. Desamontei. Dificulidade de escuro. No meio da ponte, madeira cedeu e eu caí. Não fosse estar seguro pela rédea, tinha morrido. Caravela sabia - salvou. Avisou antes. E eu, no cio, desobedê. Todo bicho é bem profeta. Guarda isso, fi. Todo bicho é bem profeta. A gente precisa aprendê a lê.
Eu nascido, nunca vi vô destratar alimária, senhora sabe? Era no carinho e na conversa e tudo que era bicho, de onça a joão-de-barro, obedê.
Assunte aonde cheguei: é do mato que o homem precisa pra aprender o que esqueceu de ser.
É dito.
Outro dia.
domingo, 18 de agosto de 2019
A HUMILHAÇÃO
Certa vez, ouvi uma frase da Clarice Lispector: “só é humilhado quem não é humilde”. Pensei bem: é isso mesmo. Certos monges do deserto, inclusive, procuravam a auto-humilhação como forma de restringir o ego. Não é outro o sentido de esmolar arroz, por exemplo. Como Gautama, procuro sempre o caminho do meio. Acho que os extremos são armadilhas e só seguindo a serenidade da natureza – o olho de água ao romper a linha de terra – é que começaremos a vibrar de acordo com. Há uma grande mestra escondida sob o manto da Humilhação e sua lição primeva é a seguinte: sejam pequenos! O ego quer nos dizer o tempo inteiro que somos especiais – e somos mesmo, mas só na medida que tudo o que é, é também-, que fomos escolhidos para algo grande, mesmo que não saibamos bem o que é. No meu caso, a depressão foi essencial; porque, pra mim, a depressão foi uma doença do ego humilhado. Eu achei que tinha de ser grande pra ser amado. Bobagem. Sofri. Graças a Deus, o Universo não me deu o que pedi. Fui humilhado até o fim. Mesmo a escrita, que sempre julguei meu chamado e destino, me pareceu horrorosa quando reli. A minha dor era puro egoísmo frustrado. Eu queria receber o tapete vermelho e não estendê-lo para o meu irmão passar. O raio me fulminou, partiu-me ao meio, amassou-me; tornei-me só uma placenta jogada na calçada; no entanto, exatamente daí, surgiu o que há de Deus em mim: o amor de doação; em verdade, em verdade vos digo: o único possível. Mas quero voltar à Humilhação. Às vezes, Deus nos humilha para que retomemos nosso lugar de parte. Esta é a lição. Você olha o mar e se sente pequeno. Você escala uma montanha no sul de Minas, contempla a imensidão, e pensa: “Meu Deus, sou nada”. Tal constatação, entretanto, não nos causa tristeza, mas júbilo, êxtase, A-a-m-m-o-r! Deus se mostra conforme a pessoa: pode ter um rosto humano, se o indivíduo só consegue enxergar assim, pode ter barbas longas e cabelos brancos. E pode também ser invisível. No alto daquela montanha, percebi que tudo está sendo amorosamente cuidado. Os passarinhos sabem disso e, portanto, cantam sem se preocupar com o pão do amanhã. Tudo está sendo amorosamente cuidado por uma Consciência em desapego. O fio de água desce o morro e doa vida a tudo em seu entorno até chegar ao mar. A vespa se enlaça amorosamente à orquídea e fecunda o mundo de orquídeas novas. O sol abre os olhos e nos dá bom dia no desenho da criança. Parece uma canção, uma valsa, uma orquestração do Wagner Tiso. E eu só quero ser o jardineiro, o guardador, o menino da promessa. Se houver um caco de vidro no chão, que eu perceba e tire para que ninguém corte o pé. Almejo a grana necessária para dividir com quem vier me procurar precisando. Ando solto de tudo, sem qualquer objetivo, sorrindo, HUMILHADO de tanto amor. O destino que se cumpriu, de sentir Seu calor, Senhor, e ser inteiro mesmo enquanto parte. “E o grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é. Ser esse destino de pessoa que sonhou.”
Hoje é um bom dia pra perdoar, amar e fazer o bem. 🌻
Hoje é um bom dia pra perdoar, amar e fazer o bem. 🌻
OS RESSENTIMENTOS MORREM NO AGORA
As pessoas mudam, disseram-me, então por que você insiste em julgá-las pelo que elas fizeram há anos? Não se pode entrar no mesmo rio. Vou contar uma estorinha. Um homem agressivo cuspiu na cara do Buda em frente aos seus discípulos. Os discípulos ficaram brabos feito os cabras de Lampião e queriam dar uma pisa. O Buda respirou e impediu. Acho que conseguiu até abraçar o agressor. Dia seguinte, o cabra voltou arrependido e pediu desculpas. O buda disse: "Não há de que se desculpar. Você me fez descobrir quanto ódio pode haver em mim. Ademais, este homem que hoje me pede desculpas já não é o mesmo que agrediu. Eu também já não sou o mesmo. Então, nem há do que pedir desculpas. Agora deixe disso e vamos comer arroz". Se fosse no Nordeste, teriam partilhado o jabá😉. É o seguinte, re-sentir é deixar o passado envenenar o hoje. Você fica preso num momento - ou em alguns - que aconteceu há tempos e não consegue mais viver. De certo modo, morreu naquele momento. Quando voltamos a atenção ao presente, essa dor do passado se dissolve, porque ela só existe enquanto memória, enquanto virtualidade, não tem substância. Ó o Bergson aí de novo, uai. Primeiro pensamento, melhor pensamento: hoje é um bom dia para jogar os ressentimentos no lixo e perceber que a pessoa que tenta se desculpar já não é a mesma que agrediu. Ou mudou, ou está mudando. Aprendi isso num filme chamado Capitão Fantástico. Buenos días. E sextou, por onde a gente passa é show.🌻
Áquila
Ele vai. Ela vem. A gente planta sonho. Enquanto outros plantam despertadores. Sol e lua estão conosco. Um dia, deixaremos sementes boas.
A persuasão do cristal azul
Hoje, minha alma me chamou pra prosear: "Todos os problemas estão no futuro" - ela disse. "No instante-ja os problemas se dissolvem. Enquanto a mente se perde entre a ansiedade e o remorso, futuro e passado, o corpo sempre nos fala do presente. O corpo é o presente. É preciso trazer o espírito de volta 'a casa do corpo. Acabar com a cisão. Tornar presente. Fazer o espírito, tal qual o corpo, habitar o agora. Não deixe tanto trabalho para o momento da morte. Consegue-se consagrar a célula por meio do toque, da meditação, do sexo... Passe apenas a mão devagar sobre si mesmo, sentindo cada detalhe profundo da pele. O que nos rouba a brisa não são os problemas, mas a preocupação. Bom dia.
LIBERALISMO, TEMPO, ESPÍRITO E REVOLUÇÃO
Um burro tem uma espiga de milho pendurada por uma anzol em frente ao focinho. O homem que segura o anzol está montado. Quanto mais o burro o persegue, mais o milho se afasta. Essa imagem é o ser humano no livre mercado. O capital joga antes de tudo com o desejo; caras díspares como Marx, Deleuze e Guattari perceberam isso. É necessário sempre nutrir a falta, aumentar o desejo, colocar a felicidade no futuro: “quando conseguir tal coisa, serei tão feliz!” Chama-se a isso de sonho. As pessoas sonham com bens materiais; e vão à Igreja pedi-los a um Deus-dourado, que diabo é isso? De pico a pico, o caminho mais rápido é o salto. Seguinte: não se pode impor uma Revolução a quem quer que seja, quem acha que pode ser assim não passa de um Hitler-anão-frustrado. Graças a Deus! A Revolução, se é que há, deve brotar antes no interior de cada indivíduo e ela está intimamente ligada à percepção que temos do tempo. Enquanto o futuro for do desejo e não da fé, não há esperança. Foi isso que fui aprender na China Anciente. No presente, nada nos falta e, portanto, o giro da roda do consumo trava. Apenas seja grato pelo que você tem: a roseira, o gato, o girassol, o prato de arroz com feijão, a cartela de ovos a dez reais; e você não terá necessidade de consumo, o futuro não será uma espiga, horizonte de ansiedade, mas o melhor destino possível. O caminho não é distribuir Casas Bahia, liberar o acesso a mais e mais consumo: isso só gera lixo e entulho! O caminho, ao menos para mim, é procurar a Natureza. Sem dizer palavra, o mato nos diz que tudo o que precisarmos teremos. A Revolução é simples, trata de mudar nossa percepção de tempo. A felicidade não está no que serei, mas no que sou. Eu sou o ser. Todos somos perfeitos quando não há paradigmas; não temos necessidade de chegar a algum-lugar-algum. Onde quer que eu esteja, cheguei. Porque a vida não é destino, mas viagem: travessia de um Mistério a outro. E vou logo avisando que não sou teórico, mas poético. A luz do sol está ao seu lado agora: pegue-a. E não queira conduzir ninguém, se você mesmo não tem a menor ideia de para onde está indo. Cuida antes do teu caminho e os outros te seguirão. Ninguém convence ninguém a não ser pelo semblante. Bom dia!🌻
SHOULD I TAKE YOU HOME?
Você pode me fazer de vaso sanitário; pode vomitar isso tudo na minha cara. Pode se justificar. Pode passar o resto da vida dizendo que a culpa foi toda minha. E de dentro de um orgulho de pedra jamais dizer uma única vez: eu também errei, um tiquinho. Pode me tratar como se eu fosse o fim do mundo, um trapo, um sapo, ou um psicopata; como se nunca tivesse sentido uma emoção humana. Você pode me chamar de galinha, traidor, fingido, canalha, metido, superficial. Pode me acusar de escrever só para paquerar as mocinhas incautas. Pode me aprisionar nesse olhar que me transforma num pedaço de merda na sola do sapato.
Você só não pode é imaginar que essa merda toda vai passar por mim sem me dilacerar.
Você só não pode é imaginar que essa merda toda vai passar por mim sem me dilacerar.
VERDADE E NUDEZ
Criei muitas máscaras e, tal qual Álvaro de Campos, chegou um momento em que eu não sabia mais o que era o rosto. Perdi-me dentro de mim; comigo me desavim. Então, larguei fora as máscaras e contemplei no espelho o horror de ser buraco. Diante do oco, jurei: “nunca mais coloco uma máscara, seja para ser aceito, para me sentir mais bonito, ou para me proteger”. E saí nu para a rua, empunhando a fissura, porque a verdade é uma forma de nudez e afirmação. Faço strip tease diariamente na vida e nas redes sociais e, ainda que me importe, não cedo ao julgamento alheio, porque ser o que nasci para é questão de vida ou morte. Mesmo aquele vestido que costurava, arranquei e atirei à plateia. Dizer a verdade não é só não mentir é ter a coragem de ficar nu diante de si mesmo e de Deus. Há quem diga que não mente aos outros, mas enuncia isso a partir da mentira fundamental: o não-ser-si-mesmo. E isso acontece, na maioria das vezes, sem intenção; é que a pessoa não sabe que não se conhece; está toda desmantelada, procurando no meio das muitas máscaras alguma que tenha resquício do rosto. Eu lhes permito o mundo, deixem-me ao menos minha nudez. Garanto que nada há de pornográfica nela. É artística.
QUANDO CAMINHO NA ESTRADA
QUANDO CAMINHO NA ESTRADA, meus pés acariciam o caminho
Quando não estou, a estrada continua
& não sabe se peguei outra trilha ou se morri
Às vezes, um amigo caminha alguns quilômetros comigo
Outras vezes, uma mulher oferece seu colo para os momentos de descanso
No geral, entretanto, é uma estrada muito, muito, muito, muito solitária
E, no final, ela se abre, as margens se expandem,
E a estrada se eleva até tocar o céu
AZUL, sobrenaturalmente azul
e violeta
Outro caminhante ocupa agora o meu lugar:
E morrer não é acabar, mas se expandir
E o eu é um não-eu, o pato fora da garrafa🌻
Quando não estou, a estrada continua
& não sabe se peguei outra trilha ou se morri
Às vezes, um amigo caminha alguns quilômetros comigo
Outras vezes, uma mulher oferece seu colo para os momentos de descanso
No geral, entretanto, é uma estrada muito, muito, muito, muito solitária
E, no final, ela se abre, as margens se expandem,
E a estrada se eleva até tocar o céu
AZUL, sobrenaturalmente azul
e violeta
Outro caminhante ocupa agora o meu lugar:
E morrer não é acabar, mas se expandir
E o eu é um não-eu, o pato fora da garrafa🌻
CHAPÉU
E cuidado com os autoproclamados tristonhos. Tanta autopiedade não deixa espaço para compaixão.
DESEJO, SOFRIMENTO PSÍQUICO E MEDICAÇÃO
Tomo remédios controlados que me mantêm de pé e funcional. Sem tais remédios, não funciono. De noite não durmo e, quando amanhece, o dia me esmaga e não consigo levantar da cama e, quanto mais fico na cama, mais sofro. Fico sem saída. Como aqueles caras dos filmes de ação que ficam presos numa máquina de comprimir carros... paredes de ferro se fechando... portas trancadas... desespero... sem fuga possível. Minha mente e meu coração dizem que estou encurralado e todo esforço resultou vão: Bolsonaro é presidente! E oito em cada dez seres humanos são irremediáveis filhos da puta: destros ou canhotos. Não é o fim do mundo, tem gente com câncer terminal por aí. Por outro lado, se esses remédios que tomo estabilizam minha rotina, também bagunçam meus hormônios. Se não me escondo embaixo da cama, também não tenho vontade de ir a um show de rock. Fico qualquer nota e o desejo sexual se torna estranho, o ato parece um arroz sem qualquer tempero; alimenta, mas não tem sabor. Não sinto o pênis, é como se tivesse usando uma dúzia de preservativos. E aí, quando quero me entregar a alguém de verdade, tenho de escolher entre funcionar ou amar; mas, quando amo sem a medicação, embora consiga incendiar a cama, fico perdido na vida e sofro e faço o outro sofrer e o amor germina, só que não floresce, morre antes de abrir a primeira flor. Acabo vesgo, minha cabeça entende tudo errado.
Eu só queria duas coisas: amar plenamente e funcionar no cotidiano, mas parece que é almejar muito. Tenho de escolher. De qualquer modo, não é o fim do mundo. Entre cair e levantar, vou seguindo a travessia. Como disse, tem gente com cruzes bem mais pesadas. Não tá fácil pra ninguém mesmo. Bom dia! Hoje é um bom dia pra seguir adiante.🌻
Eu só queria duas coisas: amar plenamente e funcionar no cotidiano, mas parece que é almejar muito. Tenho de escolher. De qualquer modo, não é o fim do mundo. Entre cair e levantar, vou seguindo a travessia. Como disse, tem gente com cruzes bem mais pesadas. Não tá fácil pra ninguém mesmo. Bom dia! Hoje é um bom dia pra seguir adiante.🌻
Bodhisattva
Toda palavra tem uma face obscura. Uma zona de sentido aberta ao entre. A ti estendo, irmã, minha face clara de alegria; esperando que percebas a necessidade que tenho de zelo e perdão. Quero cuidar do mundo como quem sustenta o recém-nascido que ainda não chorou. Quero cantar sobre os telhados um hino de amor aos excluídos. Quero tocar tua vulva como aquele louco que fugiu do hospício apenas para acompanhar a procissão sagrada das manhãs. Dá-me voz e silêncio, maninha. Acolhe minha sombra sem juiz. Se delicada enquanto crisálida de nós dois. Noite passada, descobri que sou um anjo; mas, mais que asa, quero ser caminho: amor. E possibilidade de ascensão aos que tudo perderam.
Tudo.
A natureza vive em sacra orgia.
Tudo.
A natureza vive em sacra orgia.
EU (enquanto Alma se deita)
“Lembra daquelas festas de vinte anos atrás, quando morávamos todos juntos e terminávamos bêbados na piscina e ninguém, ninguém, nunca era chato, ou se preocupava com os andrajos da velhice?” – Alma pergunta: – “Tudo parecia sonho, mas algum demônio já plantava ali despertadores; pois, mesmo lá, houve abortos e um irmão cometeu suicídio; esfregando, por supuesto, a morte em nossa cara”.
Alma se deita. Coração-cabaré; sacrifica-se por chocolate, doce de abóbora em forma de coração, nesga de rapadura. No fundo, quer salvar os homens. Abre os braços ao executivo poderoso que comanda mil homens, mas não vislumbra franja de carinho da esposa, por mais que presenteie com joias caras. Abre as pernas ao estudante que perdeu o amor da vida para o melhor amigo. Abre o coração ao homem impotente que se justifica todas as vezes – “deve ter sido as tripas fritas do almoço” - e nunca pede mais que um cafuné. Alma ama e seu amor transborda pelo vilarejo: acaricia os bichos, acalanta as crianças, fala a língua sensual das flores. Alma ama porque tem uma ferida de mil faces e todas as outras feridas do mundo encontram aí Eco e ressonância. E vem o político poderoso que lhe esbofeteia a face, e vem o jardineiro que traz buquê de noturnos girassóis. Alma leva o coração escondido na boceta e nele cabem o bispo e o mendigo, o rei e o carrasco, Esaú e Jacó, a mãe do morto – todos os anjos são andróginos - e o assassino... Alma está doente: tem diabete, para compensar o corpo exposto a tanta amargura; usa óculos, tal e qual Miguilim, que não queria ver o amor entre mãe e tio; às vezes ocorrem-lhe erupções cutâneas - um modo de afastar os outros para respirar. Alma ama. Puta? Puta sim, mas também Kuan Yin ou Avalokita, ou Maria de Madgala. Quer incendiar os corações para que os homens despertem e possam se salvar. Eles plantam despertadores; mas, ainda assim, caminham pelo mundo feito sonâmbulos, zumbis.
Com aqueles de coração puro, Alma não se deita, mas lava-lhes os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. “Fazei que eu procure mais amar que ser amada. Compreender que ser compreendida” – diz de si para si, enquanto recebe na pele pingos de vela vermelha.
Alma é frágil, azul, tem a consistência de uma brisa, mas em seu coração cabem tanto Jair Palhaço, quanto Eduardo Suplicy. Seu sexo é misericórdia e oração. Enquanto se transforma em regato ou tempestade, pede a Deus que tenha piedade de todos os seus homens. No fundo, são só crianças abandonadas em busca de figura paterna; querendo, de um jeito tosco, a atenção do pai ausente.
"Misericórida, Senhor, eles não sabem o que fazem".🌻
Alma se deita. Coração-cabaré; sacrifica-se por chocolate, doce de abóbora em forma de coração, nesga de rapadura. No fundo, quer salvar os homens. Abre os braços ao executivo poderoso que comanda mil homens, mas não vislumbra franja de carinho da esposa, por mais que presenteie com joias caras. Abre as pernas ao estudante que perdeu o amor da vida para o melhor amigo. Abre o coração ao homem impotente que se justifica todas as vezes – “deve ter sido as tripas fritas do almoço” - e nunca pede mais que um cafuné. Alma ama e seu amor transborda pelo vilarejo: acaricia os bichos, acalanta as crianças, fala a língua sensual das flores. Alma ama porque tem uma ferida de mil faces e todas as outras feridas do mundo encontram aí Eco e ressonância. E vem o político poderoso que lhe esbofeteia a face, e vem o jardineiro que traz buquê de noturnos girassóis. Alma leva o coração escondido na boceta e nele cabem o bispo e o mendigo, o rei e o carrasco, Esaú e Jacó, a mãe do morto – todos os anjos são andróginos - e o assassino... Alma está doente: tem diabete, para compensar o corpo exposto a tanta amargura; usa óculos, tal e qual Miguilim, que não queria ver o amor entre mãe e tio; às vezes ocorrem-lhe erupções cutâneas - um modo de afastar os outros para respirar. Alma ama. Puta? Puta sim, mas também Kuan Yin ou Avalokita, ou Maria de Madgala. Quer incendiar os corações para que os homens despertem e possam se salvar. Eles plantam despertadores; mas, ainda assim, caminham pelo mundo feito sonâmbulos, zumbis.
Com aqueles de coração puro, Alma não se deita, mas lava-lhes os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. “Fazei que eu procure mais amar que ser amada. Compreender que ser compreendida” – diz de si para si, enquanto recebe na pele pingos de vela vermelha.
Alma é frágil, azul, tem a consistência de uma brisa, mas em seu coração cabem tanto Jair Palhaço, quanto Eduardo Suplicy. Seu sexo é misericórdia e oração. Enquanto se transforma em regato ou tempestade, pede a Deus que tenha piedade de todos os seus homens. No fundo, são só crianças abandonadas em busca de figura paterna; querendo, de um jeito tosco, a atenção do pai ausente.
"Misericórida, Senhor, eles não sabem o que fazem".🌻
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
HONRAR DARONDO - carta do morango
A rosa não deixa de ser rosa se ninguém lhe diz: “você é um rosa!”. De todo modo, ela há de continuar vermelha, misteriosa, sensual, perigosa em seus espinhos. Quando, por outro lado, uno acaricia suas pétalas e diz: “É uma rosa!”, a flor fica feliz porque foi compreendida; e toda a criação se esforça por se expressar e fazer-se entender. Alguém diz: “Você é uma rosa e é linda. Nunca vou exigir que seja um girassol.” E a rosa não cabe em si d...e felicidade, porque além de compreendida foi aceita. A rosa não tem ego, o que na rosa se alegra é o ser, o próprio ser que se expressa ali de modo encarnado. Penso também na alegria da criança quando dizemos que o tênis com luzinhas piscantes no pé é bonitão. O artista tem muito da criança e da rosa e sofre como a rosa – se acaso quisessem transformá-la num girassol - quando lhe perguntam por que ele não esquece isso e arranja um emprego de verdade? Penso em Darondo. Nos dois discaços que gravou e no ostracismo, na dor. Sei que entre um pico e outro deve ter pensado: “tenho tanta beleza em mim, mas o mundo não quer minha beleza, só vê minha pele preta, minha boca banguela, o mal que me faço, então é melhor nem dizer. Vou guardar minha beleza até que ela mofe, apodreça, desapareça, deixe de doer tanto dentro”. E num dia de grau maior – não é o ego é o ser – ele diz na biqueira: “Sou Darondo, aquele que cantou Didn´t I, quero mais um pico”. Mas, no gueto, nas quebradas, quem está preocupado com a delicadeza de certos corações que só querem uma pausa da dor? “Darondo é o caralho” – dizem e o espancam e os dentes machucados do malandro despencam da boca: marfim que sangra na madrugada. Ai. Pra mim, acabou. Mas tem também o dia bom, uai! Quando um jovem Dee jay o procura na rua e diz aos outros mendigos aquilo mesmo que ele disse a vida inteira e ninguém acreditou: “Este homem poderia ter sido um gênio, mas cortaram suas asas!” E ele se enche de alegria. Agora pode até morrer. Acabou o inferno. A temporada na agonia impensável. A rosa volta a ser rosa. É menino outra vez e tenta cantar com a voz triturada de tanta nicotina, mas o suingue, a malandragem de mel e o jeito-jó ainda estão lá. Em artistas como Darondo, Deus se faz preto. Adorno não entendeu isso: o negro-elétrico! Eu sim entendi, compadre. Do fundo de minha solidão, estive contigo na noite do chute e do frio. Sei que o seu violão só diz uma coisa: “Se estiver atravessando uma tempestade, malandro, continue caminhando. E mesmo quando já não te amarem, continue a ser amor no vendaval”.
Está chegando o dia dos pais e eu acabei com minha família.
Já não sou eu quem vive, nesses dias, é esse artista preto quem vive em mim. Caminho dentro de um sonho.
Quero honrar Darondo.
Está chegando o dia dos pais e eu acabei com minha família.
Já não sou eu quem vive, nesses dias, é esse artista preto quem vive em mim. Caminho dentro de um sonho.
Quero honrar Darondo.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
TUDO O QUE NÃO FOR ERGUIDO SOBRE AS BASES DO AMOR SERÁ DESTRUÍDO
TUDO O QUE NÃO FOR ERGUIDO SOBRE AS BASES DO AMOR SERÁ DESTRUÍDO; mas o Amor, que fique claro, é libertação, ausência de egoísmo, doação pura sem espera de. O AMOR NÃO IMPÕE CONDIÇÕES – diria Diadorim -; é algo que a gente tem ou não tem; não depende do outro. Primeiro é preciso soprar essa chama quase apagada, fazê-la reviver, dançar, ganhar força em nosso próprio coração; daí em diante, será só transbordamento. Um coração cheio de amor está vazio de exigências. E, mesmo os bichos, as flores, os bebês sentirão nosso amor; mesmo a terra, mesmo os objetos inanimados como um chapéu, um tênis velho na capa de um disco, uma vitrola quebrada. A Divindade é a mesma, mas não é igual, o númeno, ao se tornar fenômeno, adquire as tintas do que é temporal, cultural, telúrico; daí as tantas religiões dizendo sempre o mesmo, mas nunca o igual. O amor é como a Divindade, é o outro nome Dela, ele é o mesmo amor, mas a mãe mima um filho e corrige o outro, porque o amor dá aquilo que o indivíduo precisa e não o que quer. O meu amor para alguns dá dinheiro; para outros, colo; para terceiros, choque - desfibrilação - com intuito de que despertem. Às vezes, dá mais de uma coisa à mesma pessoa dependendo do momento. O amor tanto anda de mãos dadas quanto transa forte e o sexo é talvez a forma mais sublime de transfusão do amor. Mas que merda nós fizemos do sexo, não é mesmo? Às vezes, somos amigos da pessoa por dez anos e sempre doamos, o tempo todo; mas basta a gente dormir com a pessoa para começar a cobrar, querer possuir, o sexo foi sequestrado pelo Espírito de Posse e o amor morre em gaiolas. É triste olhar o passarinho morto dentro da gaiola e ainda espernear, brigar, exigir que ele cante. Outro dia falo mais sobre o sexo. Hoje digo: nunca fizemos um sexo tão ruim. Nosso sexo é um subproduto do materialismo, o outro é mercadoria para o meu prazer e ainda chamo isso de liberdade. E reclamo por não ter prazer. No fim das contas, os machões e as radfems são o mesmo: na China sempre souberam que os opostos se engendram: “Transo com quem eu quero e viso o meu prazer”. Isso não é amor, é egoísmo, masturbação, capitalismo, mercantilização do outro: o horror, o horror! Outro dia. Volto ao amor para encerrar. Quando passei mais de mês no Manicômio, era inverno no pé da Serra em Itapecerica. Fazia frio à vera e eu não tinha cobertores. Veio um menino do Rio, traficante, que nunca tinha me visto, e me deu um par de meias e me emprestou uma de suas cobertas, ele só tinha duas. Dias depois, minha mala chegou e a primeira coisa que vi, quando abri, foi o cobertor do Ben 10 do meu filho para que eu sarasse da cabeça e me abrigasse do frio. Naquele momento, o amor se fez esse cobertor. Bom dia!
MARIA, MARIA
Em Proust, foi uma madeleine que trouxe à tona todo um mundo latente. No instante, todo o passado está condensado. Lá, é como se o presente fosse só a parte mais dilatada desse passado enorme que só faz crescer. É Bergson, uai. E eu nunca comi uma madeleine. Ou comi e não sei. Só que outro dia fui ver ao filme Azul é a cor mais quente e, ao ver Emma, a menina de cabelos azuis, foi como se eu tivesse capturado um passado; pescado peixe grande com isca pequena. É que a Emma é igualzinha a uma amiga que eu fiz quando morei no interior: a Maria Aparecida. Ela, a Maria Aparecida, era um menino lindo e, embora seus cabelos não fossem azuis, ela era magra e os fios eram lisos e curtos iguais aos da menina do filme. Foi amizade à primeira vista. A gente se entendeu de cara; e falávamos de meninas, de carros, de futebol, de livros, filmes, sons; de videogame. E a gente jogava bilhar e saía pra beber e paquerar. Fazíamos as mesmas matérias na faculdade, mas ela era alguns anos mais velha e terminaria antes de mim. Quando eu estava no segundo ano, a Maria começou a namorar uma menina linda e meio maluca e a gente acabou se afastando. Sei que foi um relacionamento pra lá de conturbado; com tudo o que é tipo de violência. E aí aconteceu uma coisa punk! Essa menina que a Maria namorava e largava, largava e namorava, cometeu suicídio. Foda de fato. Vi minha amiga dançando na beira do abismo, perto da casca de banana e doida pra escorregar. Colei nela porque gostava, e ela colou em mim porque eu existia. Tinha dias que pareciam normais. A gente conversava. Fazia café. Fumava. Tentava meditar junto e tudo. Mas tinha dias que a Maria só chorava. E eu ficava perto, pra ela saber que não iria sozinha fosse pra onde fosse. E aí, numa sexta-feira, aconteceu o que queria confessar. Fazia um frio lascado. A gente tava embaixo das cobertas. Ela com a cabeça no meu colo, porque eu gosto de fazer cafuné. Assistíamos ao filme Lua de fel, ainda me lembro. E a Maria me tocou. Começou a alisar os pelos das minhas pernas. Não sei o que foi aquilo e nem de onde veio. Sei que ela passou a mão pela minha barriga, a língua quente nos meus mamilos e nos beijamos sem entender.
- Porra, Maria, tô me sentindo gay.
- E eu tô me sentindo hétero. Dois traidores, mas afeto não tem nome, só travessia – e riu.
- Isso é igual a incesto, Cidão.
- Ainda nem lemos Freud - éramos alunos da Psico.
E nós só seguimos o fluxo, sem pensar, como se uma força maior estivesse se movimentando entre nós dois. E estava mesmo.
- Você é delicado, Dan. Se quiser, pode me penetrar.
- E você é forte, Maria, pode fazer de mim o que quiser.
E nos amamos como se estivéssemos no útero do amor.
E, depois disso, nos tornamos invisíveis. Eu virei um afeto dentro dela; e ela, um calor dentro de mim.
P.S. Do filme, não gostei.
- Porra, Maria, tô me sentindo gay.
- E eu tô me sentindo hétero. Dois traidores, mas afeto não tem nome, só travessia – e riu.
- Isso é igual a incesto, Cidão.
- Ainda nem lemos Freud - éramos alunos da Psico.
E nós só seguimos o fluxo, sem pensar, como se uma força maior estivesse se movimentando entre nós dois. E estava mesmo.
- Você é delicado, Dan. Se quiser, pode me penetrar.
- E você é forte, Maria, pode fazer de mim o que quiser.
E nos amamos como se estivéssemos no útero do amor.
E, depois disso, nos tornamos invisíveis. Eu virei um afeto dentro dela; e ela, um calor dentro de mim.
P.S. Do filme, não gostei.
domingo, 4 de agosto de 2019
AI
Não era bonito, Branquinha, quando a gente se sentava no alto do morro e olhava o mar lá embaixo? As pessoas que nem formigas. Nem naquele tríplex inventado no Guarujá teriam vista assim... E o chá crescendo pelas encostas - feito esperança - perfumando a manhã e o pôr-do-sol! A vida podia ter dado certo. Eu cri. Porra, Branquinha, por que você deixou de ver o menino em mim, hein? Será que não percebeu o quanto lutei pra continuar caminhando e ser apenas um homem, mesmo quando as coisas desandaram? Fiz o melhor que pude com o que fizeram de mim. Lembro sim dos dreads que eu mesmo fiz no seu cabelo liso e do jeito que me olhava, cheia de admiração, quando eu pegava do violão pra cantar e era pra você, só pra você, todas aquelas canções da brisa. Ai... Lembro o brilho bonito na mistura da nossa pele, nossos braços encostados e a luz do sol por cima. Eu fui Adão, sabia? Ou será que não, será que não fui mais que um delírio tímido de mim mesmo e pequei? E coloquei Eva no lugar do Mayor? Será que por isso o castigo e essa vontade de? Faça daí um sinal, cante uma canção, mande uma telepatia, Branquinha! De ser feliz na vida, só tive uma possibilidade e ela tinha teu nome, meu amor. Ai... Não vou dizer que não, tento continuar caminhando, mas os pés de brisa que planto na encosta já não florescem. Qual foi? Eu não fiz o melhor que pude, Branquinha? Eu não enfeitei o barraco? Não lavei a louça, limpei o banheiro, te tratei como rainha? Eu não te dei anel, amor, devaneio, pulseira, sorriso, flor, cachorro e gatinha amarela? Ai... Quem me vê na comunidade diz que ando mal. Perdi seis dentes, cai no bueiro, quebrei três costelas. Da tranca você sabe, nem preciso dizer. Nenhum homem está inteiro sem a mulher que lhe dá forma e caminho, Branquinha. Por que você não volta, bebê? Eu poderia fazer tudo de novo e melhor. Tá doendo demais pra mim. Você é mais que só mulher. É amor que não pertence a esse mundo! Se fiz alguma coisa errada, fala. É Agosto, ai... Por que você me deixou, bebê? Ai... Eu sou só um menino sem casa, nem mãe. Ai... Como é que posso ir pra algum lugar? Ai...
BRANQUINHA
Dois presidiários, de noite. O mais novo fala, o outro ouve:
- Meu irrrmão, quando a casa caiu, nem sei o que fiz. Alucinei merrrmo, aí. Tu pode dar um telefonema, disseram. E eu nunca tive advogado porra nenhuma. Fumava tanto nessa época que nem lembrava o número da minha própria casa. Só lembrei o número dela, Profe. E liguei. Falei na lata. Acabei de ser preso, Branquinha. Escutei o berreiro. Era ela chorando do outro lado. Acho que tava com a neném no colo porque ouvi outro choro. Aí, meu irrrmão, o cara pegou do telefone. Escutei ele falando. Dá aqui. E desenrolou: “aí, maluco, não quero mais que tu ligue aqui. Ela tá casada agora. Tá escutando esse choro? É da nossa filha. Se liga, maluco. Faz seu adianto, porra!” Desliguei, né? Dali-depois eu nem queria mais saber o que ia acontecer comigo, Professor, os cara podia me matar, tava pouco me fodendo. Acho que foi a única mulher que amei, se é que existe essa porra de amor. Ela tentou me levar até pra Igreja, o pai é pastor, sabe; mas, qual o quê? Com o tempo, eu já tava levando os crente tudo pro bar. Ah, Profe, só faço merrrda merrrmo, tem jeito não. Nasci pra perder.
- Eu te amo, Paulinho.
- Qualé, Profe, tá me estranhando? O que a malandragem vai pensar?
- É amor de Deus. Não é amor desse mundo não.
- Eu sei.
- Queria que a vida fosse mais generosa contigo, meu mano. Tu tem coração. É um moleque bom, Paulinho.
- Profe!
MALANDRO MACHUCADO
E aí aconteceu essa oficina na cadeia. A rapaziada da ONG trouxe o violão. O menino pegou do instrumento, afinou, ensaiou os primeiros acordes, riu seu sorriso sem dentes. Era um daqueles reggaes roots de Trenchtown. O menino ficou na introdução por uns cinco minutos; mas, quando ia começar a cantar, só saiu uma interjeição; dura, dolorida, chorada, mordida, lascada, rasgada: “AAAAAAAAAIIIIIIIIII!” E, depois disso, o dilúvio.
Eu era o Professor.
BRANQUINHA
Dois presidiários, de noite. O mais novo fala, o outro ouve:
- Meu irrrmão, quando a casa caiu, nem sei o que fiz. Alucinei merrrmo, aí. Tu pode dar um telefonema, disseram. E eu nunca tive advogado porra nenhuma. Fumava tanto nessa época que nem lembrava o número da minha própria casa. Só lembrei o número dela, Profe. E liguei. Falei na lata. Acabei de ser preso, Branquinha. Escutei o berreiro. Era ela chorando do outro lado. Acho que tava com a neném no colo porque ouvi outro choro. Aí, meu irrrmão, o cara pegou do telefone. Escutei ele falando. Dá aqui. E desenrolou: “aí, maluco, não quero mais que tu ligue aqui. Ela tá casada agora. Tá escutando esse choro? É da nossa filha. Se liga, maluco. Faz seu adianto, porra!” Desliguei, né? Dali-depois eu nem queria mais saber o que ia acontecer comigo, Professor, os cara podia me matar, tava pouco me fodendo. Acho que foi a única mulher que amei, se é que existe essa porra de amor. Ela tentou me levar até pra Igreja, o pai é pastor, sabe; mas, qual o quê? Com o tempo, eu já tava levando os crente tudo pro bar. Ah, Profe, só faço merrrda merrrmo, tem jeito não. Nasci pra perder.
- Eu te amo, Paulinho.
- Qualé, Profe, tá me estranhando? O que a malandragem vai pensar?
- É amor de Deus. Não é amor desse mundo não.
- Eu sei.
- Queria que a vida fosse mais generosa contigo, meu mano. Tu tem coração. É um moleque bom, Paulinho.
- Profe!
MALANDRO MACHUCADO
E aí aconteceu essa oficina na cadeia. A rapaziada da ONG trouxe o violão. O menino pegou do instrumento, afinou, ensaiou os primeiros acordes, riu seu sorriso sem dentes. Era um daqueles reggaes roots de Trenchtown. O menino ficou na introdução por uns cinco minutos; mas, quando ia começar a cantar, só saiu uma interjeição; dura, dolorida, chorada, mordida, lascada, rasgada: “AAAAAAAAAIIIIIIIIII!” E, depois disso, o dilúvio.
Eu era o Professor.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
UMBIGOS
É pelo umbigo que os outros me penetram. Então, quando falo com alguém com quem não queria, tento tampar, de modo sorrateiro, por baixo da blusa, o umbigo com a mão esquerda. Tem gente que diz que o umbigo é espelho, marca de nosso narcisismo, a gente só olha o próprio umbigo, né? Aceito que pode ser, mas não só. O umbigo é mais. O umbigo é a marca de nossa ferida ontológica no corpo. A cicatriz de nossa individuação. A prova de que éramos uno com e, um dia, fomos arrancados de Deus. O umbigo é a prova de que o ventre, antes tão largo e acolhedor, tornou-se estreito num dado momento e precisamos saltar para a Terra, esse outro ventre, só um tiquinho maior: umbigo. Umbigo que se apaga quando voltamos pra casa, findada a jornada. E quando digo que minha ferida reconhece a ferida alheia, é porque meu umbigo se abre, feito rosa vermelha, para o umbigo do outro. Ele, meu irmão/irmã, assim como eu, também tem umbigo. Então sei que preciso ser paciente porque vem ferido, vem magoado, todo lascado; vem com a alma cheia de bolhas tal qual ovo na frigideira. Ser humano é ser atravessado pela dor. Mais que a razão, é a capacidade de doer que nos diferencia: mais que animal racional, o humano é o animal que dói. E Adão não tinha umbigo. Assim como os anjos também não. De alguma forma continuavam/continuam íntegros no Uno. Os seres humanos, por outro lado, têm um abismo na barriga. Se mergulharmos nele, encontraremos Deus do outro lado de braços abertos; tal qual pai que pede que o filho pule no seu colo dentro do rio. Pode pular, Ele não vai tirar os braços no instante final.
Tinha mais coisas pra dizer, só que não sei como. Queria terminar isso e também não sei como. Vá lá, entonces: o umbigo é a o portal da empatia; porque, pelo meu umbigo, reconheço o umbigo alheio. Se você permitisse, beijaria seu umbigo todas as manhãs; tal qual um Deus que beija as chagas de seus filhos leprosos.
Queria que o mundo fosse um lugar mais feliz e os umbigos, em vez de marcas de egoísmo, seriam marcas de irmandade como eu vejo.
Agosto chegou tropeçando.
Tinha mais coisas pra dizer, só que não sei como. Queria terminar isso e também não sei como. Vá lá, entonces: o umbigo é a o portal da empatia; porque, pelo meu umbigo, reconheço o umbigo alheio. Se você permitisse, beijaria seu umbigo todas as manhãs; tal qual um Deus que beija as chagas de seus filhos leprosos.
Queria que o mundo fosse um lugar mais feliz e os umbigos, em vez de marcas de egoísmo, seriam marcas de irmandade como eu vejo.
Agosto chegou tropeçando.
A CARTOLA DO MAGO ESTÁ VAZIA
Eu queria falar desses cachorros que uivam a noite inteira e parecem cantores de blues. Queria falar de limões e espinhos. Queria descansar minha cabeça dura no seu ventre molhado. Queria dormir, escrever, esquecer, esvaziar tudo o que sou num canto escuro. Há algo aqui que pulsa e treme: neon vermelho. Só que eu não sei escrever isso. Não quero organizar, porque organizar, em muito metro, é destruir. Sempre me sento para escrever e confio que o texto virá. Devo ter fé no escritor que sou. É impossível escrever e, contudo, veja quantos livros nas estantes. Ponho-me em marcha e o mar se abre – depois. Mas hoje não. O caos se nega a parir a estrela bailarina. Do que é que falávamos mesmo quando nos desentendemos? Isso tinha mesmo importância, ou era só orgulho? Ou medo de colonização? Ou trauma do homem anterior? Esse mesmo que não sou. Deixo as certezas para as redes sociais. Hoje sou só esse não-saber. Essa perplexidade sem nome. Essa confusão por dentro que me revira as vísceras. Você me bagunça todo, menina, e, quando saio na rua depois, mesmo não bebendo mais que água mineral, toda a gente me olha como se eu estivesse muito louco. Não tem mesmo muita diferença entre estas manhãs e aquelas de ressacas. Seria tão mais fácil dizer de modo simples: foi mal, ou: eu errei. Mas não, construímos uma Fenomenologia do Espírito para justificar um não sei o quê. O que foi que se passou mesmo? Tateio e não encontro coisa. A cartola está vazia. Não há nome para essa loucura. É o Diabo na rua no meio do redemoinho. É uma ânsia de. E tem aí esse presidente... Os filhos... E os índios se fodendo... E esse povo dividido em corpo e alma. Eu sou só energia; solidão atravessada pelas muitas caravanas. "Esperanças!" - você frita como se falasse de Supernovas. "Intensidades!" - você diz. Um Buraco Negro é o devir de toda Supernova. E esperanças existem muitas, aos montes, expostas nas prateleiras dos botecos, mas não para nós. Você me morde e eu te mordo. Quero beijar tua boca, mas minha gengiva sangra. Não sei se isso é sexo ou guerra: essas testas que se batem como metais. Esse egos doidos que não cedem nem ao gozo. E isso tudo aqui é um não-texto, porque o silêncio me toma pelo avesso e eu sufoco se não escrevo, mas não sei o que é. Sinto-me cego, num quarto escuro, à procura de uma porta preta que não está lá. Se tentasse ler os diários de Kafka hoje, cometeria suicídio. Escorpiões, crisântemos, cavalos e cavalos marinhos. Todo amor dilacera – Adelaide Do Julinho escreveu num poema de pedra. Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar.
Isso tudo me cansa, muda a cor da minha energia.
Isso tudo me cansa, muda a cor da minha energia.
DINOSSAUROS
Há tardes em que fito o poente e fico pensando: o que será que os dinossauros sentiram quando olharam o céu e tiveram a certeza de que aquela era a última vez? É nessa hora que sinto o couro grosso sobre a carne dura, os dentes todos em presas transformados e percebo garras no lugar das mãos. Sim, alguns tiranossauros choraram ao guardar os filhotes brincando pela última vez.
O meteoro já rasgava o céu.
Como é triste não ser um deus.
O meteoro já rasgava o céu.
Como é triste não ser um deus.
CIGANO
nasci do vão que treme entre duas placas tectônicas. Mamei do magma das fissuras. Então se achegue com cuidado, maninha; pois posso incendiar teu ventre com minha indigência. Mas meu fogo, depois do gozo, é puro carinho e cuidado. Eu queria te levar ao silêncio de onde nascem todos os poemas. E andar com você, mãos dadas, pela quina. Acho que é amor. Ou, no mínimo, dispersão. Não tenha medo. Segura o calor. Essa labareda estendida é só minha mão. Vem, é tempo de ser Sol e ensinar o mundo a tecer manhã.
DE UM CURTIS A OUTRO
Uma das minhas bandas favoritas sempre foi o Joy Division. Por muito tempo, cultivei o lado sombrio e vesti roupas pretas. Há certo fascínio em arrancar as casquinhas das próprias feridas. E eu era menino e ficava de noite arrancando cada casquinha que encontrava até que a ferida voltasse a sangrar. Não sossegava. E, como seria natural, nutria fascínio por Ian Curtis, gênio que deu cabo de si aos vinte e três. Mas, aí, tive filhos, vivi, peguei bicho pra cuidar, plantei flores. Já não visto tanto preto. Mudei de Curtis. Agora, não ouço tanto o Ian, fico mais com o Mayfield. Não precisamos ter vergonha de nossa alegria só para parecermos profundos. Ser negro me dá esse direito e consciência. O mais profundo é a pele; superfície pura. A gente pode optar pela alegria sim; mas, no Ocidente, alegria parece ser sinônimo de alienação. A gente pode ser alegre sem ser alienado. Até porque resistir não é só suportar, mas enfrentar com força, alegria e energia. Samba é resistência e jazz, e blues, e soul. Eu me mantenho em movimento e coloco meu terno cor de laranja pra trabalhar. Alegria, sol e sensualidade; transbordamento e esperança. Nesse som; repetição e diferença, jazzy. O tema é dado e repetido várias vezes, mas nunca do mesmo modo, há mil variações possíveis sem que o horizonte se perca. E há tambores, bateria, ESSES TAIS METAIS! Na metade da canção, o som parece que vai acabar; só que não, há uma pausa e tudo se repete sobre a forma vazia do tempo. Repete-se o ciclo inteiro – que é ele mesmo estruturado sobre repetições diferentes - sob novo eixo... Esse sopro alucinado, orgástico. O tempo fora dos eixos do qual Hamlet falou. Eterno retorno sim, só que da diferença. Isso é tão preto – mas com roupa colorida! - e me dá tanto ânimo pra retornar ao trabalho depois das férias. É um prenúncio do dance, do house, da música eletrônica: essa bateria... Arruma espaço na van e vamos lá trampar! Eletrificados!
move on up.
move on up.
CORAÇÃO-CABARÉ
Se teu coração não for como um cabaré
Se ainda fizeres distinção
Se nele não couber o mundo inteiro,
Ainda não será um coração e a criança não terá nascido.
Teu coração deve ser como uma puta
- APRENDE O AMOR COM AS PUTAS –
E entregar misericórdia até ao canalha
Até ao político canalha
Até ao clã Bolsonaro
Teu Amor deve doar e doar e doar até
Ou não será ainda Amor, mas vaidade
E a vaidade te torna igualzinho àqueles que não cabem no teu próprio coração.
Se ainda fizeres distinção
Se nele não couber o mundo inteiro,
Ainda não será um coração e a criança não terá nascido.
Teu coração deve ser como uma puta
- APRENDE O AMOR COM AS PUTAS –
E entregar misericórdia até ao canalha
Até ao político canalha
Até ao clã Bolsonaro
Teu Amor deve doar e doar e doar até
Ou não será ainda Amor, mas vaidade
E a vaidade te torna igualzinho àqueles que não cabem no teu próprio coração.
COMUNISMO
Nunca li Marx direito porque nasci poeta e meu trabalho é sonhar. A Revolução que vislumbrei acontece depois e nela há lugar para abelhas, borboletas e bolhas de sabão. Vi o que o ser humano poderia ser. Vi que o trabalho poderia ser poesia, quando todos cuidariam do bem do irmão ao lado; quando o homem deixaria de ser um Sísifo-Diário, realizando tarefa sem sentido, para ser o grande agricultor celeste; e a alface que plantei estaria bem ali ao lado, no prato de minha irmã. Quem não levantaria jovial para labutar assim? E a família encontraria seu fim. Não porque ela é em si má, mas porque seria vista como posse, mesquinharia. Haveria uma só família; a humanidade. Um pai, o Céu; uma mãe, a Terra. Já não existiria o meu filho ou o seu filho, só nossas crianças. E a apresentação do meu filho, ou as notas dele, não seriam mais importantes que as do seu. E o amor seria um transbordamento de ser, sem contorno. Ainda que pudesse ser dirigido a um objeto, não existiria esse sentimento de posse e ninguém poderia mais dizer: meu marido, ou minha mulher. Já ninguém seria escravo de ninguém, algemados aos boletos bancários e às muitas dívidas cotidianas. E o sexo já não seria essa masturbação a dois, mas uma doação de amor, um cuidado com o outro, festa, alegria: crianças brincando com os corpos. O pronome eu seria abolido de vez para a construção de um grande nós. E a natureza seria sagrada como a barriga de Deus. E a mulher, esse Deus escravizado, seria adorada num altar, já não mais serva do amor masculino, mas professora do corpo, bailarina do prazer, encarnação do milagre que é trazer vida ao mundo. Todos os corpos seriam belos, porque não haveria comparação, cada corpo já é em si um milagre. E o corpo, agora liberto e feliz, seria a fonte de mil volúpias e gozos; e já nenhum prazer poderia ser chamado pecado, tal palavra perderia significado. O corpo como perfeição. E já ninguém trabalharia doze horas por um prato de arroz com feijão. E ninguém viveria em barraco ou mansão. Cada mulher seria Eva e cada homem, Adão e, mesmo Deus seria desnecessário, pois se manifestaria em carne e osso no meio da rua, na mão estendida, no peito aberto de cada irmão. Não haveria necessidade de louvar um Deus silencioso em templos, porque o maior dos templos seria o corpo de meu semelhante. Vem comigo, me ajuda a construir, eu vi. O além do homem não está em Nietzsche, mas em Maiakóvski. Cuidemos de nós, façamos do nosso cantinho de mundo horta e jardim... Sem ciúme, sem inveja, sem mesquinharia, sem comparações, sem miséria; só amor; o muito-muito amor, esse outro nome da palavra comunismo, anarquismo, cristianismo... Ressuscita-me, enquanto toco esse noturno louco na flauta dos esgotos.
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