Eu queria falar desses cachorros que uivam a noite inteira e parecem cantores de blues. Queria falar de limões e espinhos. Queria descansar minha cabeça dura no seu ventre molhado. Queria dormir, escrever, esquecer, esvaziar tudo o que sou num canto escuro. Há algo aqui que pulsa e treme: neon vermelho. Só que eu não sei escrever isso. Não quero organizar, porque organizar, em muito metro, é destruir. Sempre me sento para escrever e confio que o texto virá. Devo ter fé no escritor que sou. É impossível escrever e, contudo, veja quantos livros nas estantes. Ponho-me em marcha e o mar se abre – depois. Mas hoje não. O caos se nega a parir a estrela bailarina. Do que é que falávamos mesmo quando nos desentendemos? Isso tinha mesmo importância, ou era só orgulho? Ou medo de colonização? Ou trauma do homem anterior? Esse mesmo que não sou. Deixo as certezas para as redes sociais. Hoje sou só esse não-saber. Essa perplexidade sem nome. Essa confusão por dentro que me revira as vísceras. Você me bagunça todo, menina, e, quando saio na rua depois, mesmo não bebendo mais que água mineral, toda a gente me olha como se eu estivesse muito louco. Não tem mesmo muita diferença entre estas manhãs e aquelas de ressacas. Seria tão mais fácil dizer de modo simples: foi mal, ou: eu errei. Mas não, construímos uma Fenomenologia do Espírito para justificar um não sei o quê. O que foi que se passou mesmo? Tateio e não encontro coisa. A cartola está vazia. Não há nome para essa loucura. É o Diabo na rua no meio do redemoinho. É uma ânsia de. E tem aí esse presidente... Os filhos... E os índios se fodendo... E esse povo dividido em corpo e alma. Eu sou só energia; solidão atravessada pelas muitas caravanas. "Esperanças!" - você frita como se falasse de Supernovas. "Intensidades!" - você diz. Um Buraco Negro é o devir de toda Supernova. E esperanças existem muitas, aos montes, expostas nas prateleiras dos botecos, mas não para nós. Você me morde e eu te mordo. Quero beijar tua boca, mas minha gengiva sangra. Não sei se isso é sexo ou guerra: essas testas que se batem como metais. Esse egos doidos que não cedem nem ao gozo. E isso tudo aqui é um não-texto, porque o silêncio me toma pelo avesso e eu sufoco se não escrevo, mas não sei o que é. Sinto-me cego, num quarto escuro, à procura de uma porta preta que não está lá. Se tentasse ler os diários de Kafka hoje, cometeria suicídio. Escorpiões, crisântemos, cavalos e cavalos marinhos. Todo amor dilacera – Adelaide Do Julinho escreveu num poema de pedra. Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar.
Isso tudo me cansa, muda a cor da minha energia.
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