domingo, 25 de agosto de 2019

O COTIDIANO COMO HORIZONTE DO ESPLENDOROSO

Outro dia, escrevi que a felicidade é questão de atenção e não de realização. Fomos educados sob a narrativa do heroísmo; seria, pois, preciso fazer algo grande para que a vida ganhasse sentido. A razão da vida, em tal vértice, está sempre no futuro, sob a imagem da façanha. Eu sonhei ser Dostoiévski😲. Tudo bobagem! O sentido da vida está no cotidiano, no corriqueiro, em tudo aquilo que fazemos sem atenção e, muitas vezes, praguejando. Quando conseguimos trazer o espírito de volta à casa do corpo e estar presente no nosso próprio agora, que é a vida mesma acontecendo, tudo se torna sagrado, esplendoroso: oração. Aí, você leva os filhos à escola e percebe que eles estão ali ao lado, crescendo, e que toca no rádio uma canção e isso tudo é o milagre do amor e você não se dava conta, pois queria escrever seu Os Irmãos Karamazov, mas você nem gosta de frio. Você rega as plantas e percebe que, mais que água, vai junto o cuidado, o concernimento, o carinho: amor, porra! E as plantas sabem e, quando você fica triste, elas gritam por você lá do jardim, pedem até desculpas sem saber o que aconteceu, sentem-se culpadas, coitadinhas: “volta, amigo! Prometemos ser comportadas”. Você alimenta os cachorros e eles balançam o rabo e te beijam e não cabem em si de alegria, porque eles estão derramando amor pela língua. Você tira o cocô deles, lava o quintal, cumprimenta o vizinho, tudo isso é milagre e, quando você consegue fazer com amor e atenção, percebe que é um privilegiado. Você está tendo a oportunidade de amar, de se doar, de cuidar e servir. Então por que você não ama? Preocupa-se em ter um carro melhor que o do vizinho! Em escrever uma tese melhor que a do colega! Em ser promovido! Puxa vida! Como é bom tomar o café que a gente mesmo fez numa manhã fria! E quando você dedica atenção e amor assim a tudo o que faz, você fica grato. Você não reclama porque não tem salmão, mas agradece de coração a sardinha. Você não olha a Scarlett Johanson com cobiça, mas percebe o valor e a força da sua própria companheira. Vivendo assim, você nem precisa mais rezar porque tudo o que você faz é uma oração e tudo é abençoado. Quando o dia chega ao fim, você se senta com a família e o violão e todos cantam juntos uma canção qualquer. Ou então você se senta sozinho, pega uma caneta e honra a vida não vivida; escreve, com todo o coração, um conto sobre aquela mulher que não pôde amar porque ambos tinham compromissos. E, depois de escovar os dentes, feliz por ter pasta, escova e dentes, você se deita e percebe que teve um dia feliz. E você consegue o milagre dos milagres: você fecha os olhos e dorme.

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