Volvi e vim falar de vô. Curiosa a senhora. Senta aí e escuta. Tem problema não. Si silencia é que entende, sem posse. Vô dizia de meu coração que era de potro, transplantado. Não aceito voz de mando. No carinho, me ganha. Na espora, me perde. Passei calado. Vida inteira. Tudo é incompreensão. Uno diz coisa e o outro entende às avessas. Em mim, sempre assim. Como se eu falasse língua estrangeira que ninguém mais. Babel de mim. Os outros têm só duas caixas, mas eu parlo é no aberto do sentimento. E medo mesmo só de trovão. Que se foda o mais. Sim, vô. Vô é Minas, uai: montanha-triângulo. No real, tem sempre reta que gente não vê. Guardo chapéu de herança. De nome era Marcíonilio; de conhecido só por Sinhô. Cavaleiro e domadô. Eu menino, contava estória. Nem precisava, eu sabia. De longe, vinha montado, mas era leve no cavalo. Atravessava fronteira, varava neblina. Até hoje, falecí, vem; tu crê? Eu emprestava meu olho ao céu e via de cima, esquecido de nascer naquele tempo. Até pra amansar morto, antes de crente, sabia tudo o que era reza, vô. Eu: o aborto; vindo de outra raça, branca, surrupiado. Me perco na palavra e a senhora não diz. Se deixar, vou, feito rio. Volto. Vô e o cavalo eram uma coisa só. É o dois que se faz um e torna dividir em três. Montar eu não montava – bem. Ele entristecia. Morando aqui, adquiri moto boa, senhora sabe, né? Em frente ao candeeiro, vô falava e meu coração se abria feito flor, sem conteste, só pra chupar o bonito do narrado:
- Nem sempre fui ansim desse modo, Dan – dizia – carinhoso no trato com bicho. Menino novo, era na espora. Ou o bicho obedê, ou morria. Força com força. Queda de braço. Quem pode mais que o homem na natureza? Matei teimoso no punhal. De raiva.
- E o quê, vô?
- Uma égua; que era meio mulher. Trabalho grande. Milhar de cabeça. De Januária até Nanuque, na Bahia. De noite, acampamos e eu fui atrás de colo. Sei vivê sem colo não, Dan. Tu é igual que vejo. Por outra, a gente tinha de atravessar uma pinguela. Mas Caravela, que era égua pretinha-brilhante sem um pelo branco, empacou. Serrei espora, à vera! Com força. Nada. Desamontei. Dificulidade de escuro. No meio da ponte, madeira cedeu e eu caí. Não fosse estar seguro pela rédea, tinha morrido. Caravela sabia - salvou. Avisou antes. E eu, no cio, desobedê. Todo bicho é bem profeta. Guarda isso, fi. Todo bicho é bem profeta. A gente precisa aprendê a lê.
Eu nascido, nunca vi vô destratar alimária, senhora sabe? Era no carinho e na conversa e tudo que era bicho, de onça a joão-de-barro, obedê.
Assunte aonde cheguei: é do mato que o homem precisa pra aprender o que esqueceu de ser.
É dito.
Outro dia.
domingo, 25 de agosto de 2019
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