domingo, 25 de agosto de 2019

FILHOS, LENNON, BILAC E CARTOLA

Cada um cria os filhos do modo como consegue e acha melhor. Aqui em casa é na base da liberdade. Nunca mandei o João ou a Sofia lerem um livro, mas tenho muitos livros e eles me viam lendo muito um tempo atrás. Com a música é do mesmo jeito. A gente divide. Com o Lennon, por exemplo, numa parte da viagem, o rádio é dele; na outra, é meu. Gosto muito de ouvir uns funks, no flow etc e tals... A gíria é a língua em devir; língua menor, máquina de guerra, you know, toda essa baboseira conceitual. Mas, durante o meu comando, eu é que comando, uai; ainda que a Arte chegue sem precisar de mando. Outro dia, tocou Morro Velho, do Bituca, e, quando terminou, o Lennon - João - estava trêmulo, tocado por aquele enredo tão triste e aquela música mineira de carro de boi; som que viajou trezentos anos só pra chegar aos nossos ouvidos. É assim: um dia videogame, outro dia Cervantes, ou. Sem pressa e sem pressão. Funcionou muito bem com a Sofia. Ela se tornou um mulherão. Maior orgulho do papai aí. Mas eu queria mesmo voltar ao som do carro. Hoje, tocou Cartola, O mundo é um moinho, e eu expliquei a história da canção, dando uma enfeitada pra aumentar o drama. Vi o João em silêncio, sorvendo cada palavra, cada acorde. O milagre também é estético. Quer coisa mais bonita que um milagre assim, segunda-feira de manhã? Enfim, deixei o João na escola e voltei pensando no Cartola e no milagre que ele é. Não acho Bilac ruim, não; mas creio que sua obra maior foi mesmo o Cartola. Um acadêmico e um favelado. Coisas do Brasil. Como é que pode um homem sem qualquer instrução formal ser um gênio da língua feito Agenor? A forma como usa a segunda pessoa do singular, o tu, faz o amor ganhar um patamar transcendental: "devias vir para ver os meus olhos tristonhos". Fala de um amor que atravessou o mundo em caravelas, navios negreiros e foi aportar em meio aos barracos da favela. Os vivos do tempo presente somos a boca e a voz de todos os mortos. Quando digo olá, até Camões diz comigo. O grande barato de ser brasileiro, e que nada tem a ver com odiar, é ser liquidificador. O ponto exato onde o batuque de origem mama-África encontra o barroco-católico-português e o culto à mata do guerreiro-índio-menino. Foi uma boa aula pra mim e meu filho. Fomos visitados.
Boa dia e boa semana, amigos.

Nenhum comentário: