sábado, 29 de junho de 2019

ÀQUELES QUE CHEGAM E INSTALAM A BELEZA

É fato que vivemos numa terra de juízes. Cristãos julgam o relacionamento de homossexuais; homossexuais julgam o relacionamento do velho que se apaixonou por alguém mais jovem. Outro dia, respondi a um post de uma amiga e ela me excluiu. Na postagem, havia a notícia de que o José de Abreu namorava uma menina de vinte e dois anos. O comentário dela dizia: “Onde a direita e a esquerda se igualam: no macho, branco, hétero”. Eu comentei apenas: “Achei que fosse na capacidade moral de julgar os relacionamentos alheios”. Essa minha amiga teve seu próprio relacionamento julgado por muita gente... E, no entanto, se acha no direito de dar o veredicto sobre o que vai dentro dos outros. Eu sou macho, branco e hétero, mas não sou o inimigo; sou o companheiro. O que querem dizer esses rótulos todos? 
Mas não é dessa gente que quero falar. Quero falar, sim, daqueles que estão no mundo a partir do coração. Outro dia, vinha vindo pra casa pela Dutra e passei em frente ao presídio ali de Guarulhos, o Marrey. Havia mais de uma dúzia de barraquinhas coloridas esperando chegar a hora da visita. Pensei naquelas mães na noite fria, debaixo da garoa. É muito amor demais da conta! Uma mãe, um pai - dignos de tais palavras - nunca abandonam o filho. E se atormentam, claro, pois há situações em que só o filho pode se ajudar. Pensei também nas mães cujos filhos foram mortos, muitas vezes por causa de um tênis, um celular... Ainda assim, acho que é pior ter um filho assassino que um filho assassinado.
E aí, dia desses, essa minha amiga me falava do tempo em que trabalhava com acolhimento de adictos e da irmandade que se instaurava entre eles. Sexta-feira era dia de pizza. Mas o dinheiro só dava para comprar pizza suficiente para que cada um comesse um pedaço. Quando alguém recaía e não voltava, os outros guardavam o pedaço dele para o dia seguinte. O cara podia chegar doidão, virado, fedido, mas tinha seu pedaço de pizza garantido. Irmandade de quem conheceu a dor da indigência e da invisibilidade. É de gente assim que gosto, sabe! Gente que erra feio, se esborracha, se arrepende, chora, ri, faz graça e dança na beira do abismo. Há canalhas por toda parte, mas algumas das pessoas mais sensíveis e bondosas que encontrei pela vida estavam na sarjeta, invisíveis, esquecidos, entregues. Acho que nunca chegaram a constituir a armadura, o rosto certo para enfrentar a rua e o olhar-julgamento do outro. Como eram sensíveis demais, foram mastigados e cuspidos pra fora da engrenagem. Peças defeituosas; doloridas. Resíduo. Tudo tão triste.
Eu tenho essa coisa de gostar de escrever, sabe. Escrevo para afagar àqueles que perderam qualquer possibilidade de colo e cafuné. Hoje, quis escrever para acariciar aquelas mães nas barraquinhas e seus filhos no inferno lá de dentro; para lembrar os amigos que conheci no meu próprio inferno: o Geslan, o Paulo, o Caíque. Queria que minhas palavras fossem para essas pessoas cheias de sabor, e amor, e cuidado, como aquele pedaço de pizza que os meninos engaiolados no vício guardavam para o irmão que, sem sombra de dúvida, voltaria com a alma fraturada no dia seguinte.
AMOR DA CABEÇA AOS PÉS.🌻

quinta-feira, 27 de junho de 2019

ISSO QUE A GENTE CHAMA DE VIDA

Tem um livro. Sempre que a terra se abre e eu esqueço quem sou, volto a ele pra me lembrar. É o Pequeno príncipe. Li todos os livros do mundo, sabe. Durante um tempo, eu não vivia; só lia. Hoje, não consigo mais ler quase nada da ficção ocidental. Cansei das peripécias desse eu de superfície, deprimido, sem Deus, errando pelo mundo em sofrimento. Cansei porque é tão fácil sair disso! Basta observar e perceber que nada de fato nos falta. A Terra é uma grande Bodhissatva que nos supre com água boa, ar fresquinho, verduras e frutos. No meu caso, a tristeza foi um caso de ingratidão. Eu não agradecia o arroz com feijão que alguém muito simples plantou e colheu lá longe e que a Terra preparou em seu seio com todo amor pra me alimentar. E, além disso, como se não bastasse, a Terra ainda me alimenta de beleza com suas flores e bichos e pássaros coloridos. Se isso ainda não é suficiente, a Terra me oferta homens e mulheres capazes de criar a beleza por meio de sua arte. Tenho tudo e não quero ser dono de nada. Hoje, vivo em completo abandono, feito o sol que surge sem porque depois de dias de chuva. Luto as lutas que se me apresentam, mas não levo as derrotas para o travesseiro. E essas controvérsias entre homens e mulheres, eu não entendo. Recuso o poder. Quero estender o tapete para que o outro brilhe, porque, afinal, eu me realizo muito na alegria dos que amo. Larguei de vez a carcaça, entreguei-a a Deus. É como se eu não tivesse eu, porque pra mim esse eu aí foi só uma dor, e um peso, e uma angústia. Renasci do meu próprio coração e voltei a ser menino. Fico espantado com tudo, sabe, porque tudo é milagre mesmo, uai! E quando dói aquela saudade de um outro lugar, deixo ela doer porque sei que estou voltando pra casa. Isso tudo é só travessia, a gente mal nasce e já começa a morrer. E morrer depois de ter honrado a vida é o maior orgasmo do mundo. Outro dia, estava tentando ler pela centésima vez o Ulisses, do Joyce, mas meu filho queria brincar com os cachorros e estava me chamando. Quando reparei na voz dele, perguntei a mim mesmo: “o que ainda estou fazendo aqui com esse livro chato na mão?”
Não tenho qualquer ambição, a não ser esquecer meu próprio nome.
Não entendo o poder.
Gosto de música.
Nada tenho a ver com a cultura-rédea e a civilização.
Eu pertenço é à Terra e almejo ser um cadáver saboroso para os vermes.🌻

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O SACRIFÍCIO

Ao terminar o show, a stripper percebeu que nunca tinha visto aquele homem por ali antes. Enquanto os outros se afogavam em uísque, gim, ou vodca, ele tomava uma garrafa de água mineral. Ela, usando o charme habitual, perguntou se podia beber alguma coisa. Ele consentiu. Subiram para o quarto. “E então, o que você vai querer?” “Apenas me abrace um pouco”. Ela o envolveu com os braços, devolvendo-lhe os contornos que ele julgava perder. Depois de alguns minutos, desconfortável, ela sugeriu que fossem para a cama. “E então, o que vai querer?” – insistiu. “Só passe a mão nos meus cabelos”. Ela não entendeu muito bem. Já vira clientes com fetiches estranhos, mas nunca atendera alguém que pagava o programa completo apenas para receber cafuné.
Fora o dinheiro mais difícil que ganhou em toda sua vida🌻.

terça-feira, 18 de junho de 2019

RECONSAGRAÇÃO DO SEXO – UMA POSSIBILIDADE DE FAZER AMOR EM TEMPOS BANAIS



Forçado ou consentido, aquilo que aconteceu em Paris foi um crime contra o sexo amoroso e a expressão fazer amor. Somos, de modo geral, seres confusos e todas as nossas ações, realizadas a partir de tais bases, são confusas por extensão. Não seria diferente com o sexo. Outro dia, escrevi que, se você quer colocar a casa em ordem, deve começar limpando o porão. Quando cuidamos do Inconsciente, tudo em nossa vida se torna mais harmônico. A começar pelo sexo. É que quando, por meio de uma prática de nossa opção, purificamos nosso Inconsciente e o aproximamos do mundo diurno, o sexo deixa de ser uma coisa atribulada, confusa, violenta, prazerosa e cruel ao mesmo tempo. A maioria de nossos orgasmos é o ápice do nosso prazer e, ao mesmo tempo, da nossa angústia. É que, em verdade, não enxergamos o outro, não realizamos com o parceiro uma troca pura. Ficamos presos à nossa própria ferida. Aquilo que expurgamos um pouco e que encontrou vazão pela supressão daquilo que Freud chamava de “Ich” não é todo o Inconsciente, mas só os nossos traumas, e dores, e angústias. Depois que colocamos tudo isso pra fora e olhamos de frente. Vemos com horror que isso tudo faz parte de nós e nos deprimimos; porque o sexo aí tem um pouco de culpa, e crueldade, e horror; instintos deturpados, enfim. Como homem, por muito tempo fiquei angustiado com meu desempenho e isso já é o começo de um sexo ruim, que não encontra qualquer transcendência. Hoje, meninos de 18 anos tomam viagra para impressionar! Eu, depois que mergulhei fundo em mim, que mexi naquelas coisas fétidas que guardava no porão e as joguei fora, mudei meu modo de fazer amor. O sexo se tornou a extensão de toques sagrados que começam pelas mãos, o beijo, o carinho, e, por fim, a SANTA CORPOREIDADE, a reintegração no Uno, o diagrama do Tai Chi reconfigurado. Há, inclusive, a possibilidade de não acontecer... E, no momento do gozo, sinto o coração pulsar, por meio do pênis, dentro da outra pessoa. É uma conexão quase como nenhuma outra. Já não me sinto pesado, como antes, neste momento, e sorrio leve, como se levasse nos lábios uma flor. Hoje, sinto que posso inclusive atravessar longos períodos entregue ao celibato. O mais importante é que além de tudo, depois de tudo, como diria o Roberto Carlos, o maior prazer é ofertar a minha paz. E dormir abraçado; confiando.

aforístico

Às vezes, minto tão sinceramente que a coisa se torna verdade.

Alcance-me

ALCANCE-ME!
Não tenha medo
Estou um pouco mais acima
Entre as nuvens, 
mas não sou pior, nem melhor, nem igual
Sou o que sou
E você é, apenas, sem metafísica
Não me diga nada, amiga
Conheço seu rosto antes de seus pais nascerem
Onde fui buscá-la, as palavras serão sempre redundantes.
Eu sou seu abismo:
Caia sobre mim sem máscaras
Feito uma segunda noite dentro da noite.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A PRÁTICA DE OUVIR O CORAÇÃO


Vivemos dependurados no milagre. O homem moderno, ancorado em sua arrogância, acha que faz e acontece; que é o próprio sujeito da oração. Um simples lance de olhos ao interior, no entanto, revela que a vida não é mais que resultado de um gesto de amor, doação, misericórdia. É que não temos qualquer controle RACIONAL sobre nossas funções vitais. - A razão é tão ínfima para querer usurpar o reino! Parece um juiz canalha! - Deveríamos ser, sim, gratos pelo ar que podemos respirar; todavia, até começarmos a morrer afogados, não lhe daremos o menor valor. Uma vida de gratidão é uma vida feliz.  Mas, voltando às funções vitais, o coração é o órgão em si que representa o amor infinito. Ele nos sustenta e nos doa vida. De seu funcionamento, não somos senhores. Ele, o coração, é o movimento da criação infinita dentro de nosso próprio peito. Então, comigo, aconteceu por pura coincidência. Deitado na cama, durante a noite, antes de dormir, pensando nos problemas da vida; sem querer, comecei a ouvir – de modo muito objetivo  - as batidas do meu próprio coração. Aos poucos, minha atenção, que antes se voltava aos problemas da vida, fixou-se no som do coração. Continuei – os orientais começam pelo pulmão, mas tanto faz. Aos poucos, tudo ao redor desaparecia: os problemas, o quarto, a cama, meu próprio corpo; ficamos eu e o coração e todo o meu corpo, como que em transe, movia-se acompanhando o ritmo que meu músculo do peito imprimia. Muito baixa, a princípio, comecei a ouvir a voz. Era como alguém me chamando: “ei, estou aqui!” A voz não vinha de fora, mas de dentro. Era como se minha consciência tivesse se dividido em duas. De um lado, minha criança interior perguntava e, de outro, meu próprio coração respondia. Não sei se isso pode ser chamado de intuição. Era algo certo, real, objetivo, verdadeiro. Na noite seguinte, com alguma dificuldade, induzi-me ao mesmo processo e, em todas as noites subsequentes, fui transformando essa prática de escuta em uma técnica. Pela repetição, pude induzir-me ao processo de escuta com mais facilidade. Agora, às vezes, estou no trânsito e o coração se manifesta. Estou cuidando do jardim, e lá vem o coração. Estou conversando com um amigo e o coração me sussurra de fundo. Tornei-me impossível de enganar. Quando alguém conversador, mas mal intencionado vem falar comigo, o coração de pronto acende a luz de alerta. Por outro lado, reconheço uma pessoa boa a milhares de quilômetros de distância. Meu coração é o amor infinito do Maior comprimido numa coisinha vermelha dentro de mim. E sou tão grato por isso. E sou tão feliz com minha vida besta, Drummond!

sábado, 15 de junho de 2019

NEM TODA CARÍCIA É ERÓTICA.


Há mais de quinze anos, trabalho com adolescentes e eles me ensinam muito. É que o adolescente é uma ponte; está entre a criança e o adulto. E seus problemas são sempre maiores que os nossos, porque eles os estão enfrentando pela primeira vez. Quando a gente leva o primeiro pé na bunda, acha que aquilo vai durar para sempre. Dá vontade de morrer porque o futuro se dissolve. O segundo pé na bunda também dói, mas a gente já sabe que demora, mas passa. E aí, quando a gente aplica uma prova e todo mundo termina, a gente deixa aqueles dez minutos do final da aula livre e quando vê, tá todo mundo empoleirado lá no fundo da sala, parecendo uma montanha de corações. Os adolescentes gostam de se tocar, mas quase nunca é um toque sensual. Eles sabem o valor de um cafuné, um abraço, de alguém segurar na mão da gente quando a gente sente que tá caindo. Eu entendo isso. Quando você se enamora de alguém de verdade, quase nunca fica pensando em sexo. A gente se imagina é mostrando as coisas de que gosta, abrindo nossos segredos e descobrindo os detalhes e gestos únicos do outro, fazendo carinho debaixo de uma árvore no parque, caminhando de mãos dadas. Quando você fica de mãos dadas de verdade com alguém especial, ocorre uma troca de energia que não tem igual; é muito maior que sexo sem amor. Na paixão, depois vem a fome, é claro, e ela também é boa. A gente fica virgem outra vez, pensa liderar uma revolução a partir da cama, ou. Só que tem aquelas paixões que não se realizam; que, por vezes, ocorrem de um lado só. Até isso a gente pode aprender com os adolescentes. Eles conseguem transmutar mais facilmente esse tipo de afeto em amizade e, nem assim, deixam de se tocar. Acho que sabem o segredo que nós esquecemos: nem toda carícia é erótica.
A maior vantagem de ser ou ter sido invisível é que você pode se transformar no que sente e criar a própria solidão sempre que necessário. Hoje escrevi para o adolescente que fui e que, na energia de uma canção, resolveu me visitar. Sentamos juntos e repartimos o café da manhã e ficamos falando dessa coisa grande, alegre, dolorida e bonita que é a vida.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

NA COVA DOS LEÕES - UMA TOPOLOGIA DA QUINA


(Para kiko Nietzsche)
Imagine um triângulo. Um homem se equilibra sobre o ângulo superior:  à sua frente, estende-se o mundo da forma, da ordem, da razão, do dia; às suas costas, o caos, o sem-fundo e sem nome, o espaço da noite, da loucura e da morte: o fim de toda unidade.  Há uma força que suga o homem para trás, buscando transformá-lo em abismo e dispersão. Por outro lado, o homem tem uma corda, doada a partir do mundo frontal que o ajuda a manter o equilíbrio. Essa corda é a escrita. De pé sobre a quina, a planta de seus pés sangra; o homem sente os ventos frios que o tomam pelo fundo. Vira a cabeça e olha. Tem o dom da profecia. Para ele é simples como prever uma tempestade ao ver as nuvens carregadas no céu. Esse dom o assusta. Nunca pediu por ele. E se algum dia vier a tragédia? A morte do amigo, ou pior ainda – isso não nunca – do filho? Ele prevê, mas é de modo cego. Não sabe ao certo o que está prevendo; tampouco pode interferir no processo. (Aquele que tem consciência da tempestade próxima nada pode fazer para impedi-la).
Seres e não-seres cruzam a fronteira que o topo da pirâmide representa. Ele vê os fluxos se aproximando do cume e ganhando contornos, até que atravessam e nascem para a forma. Vê também os seres fazendo o caminho inverso, da forma até a transparência e, de lá, aos poucos, até o abismo. Este homem vive só com sua palavra. Não passa de uma testemunha. E a palavra, ao mesmo tempo em que o mantém de pé, queima suas mãos, como se ele segurasse uma corda de fogo. Destino assim nem a um inimigo se desejaria.
A princípio, o homem diz não; renega a tarefa de amanuense. Percebe então que não pode deixar de escrever, sob o risco de já não conseguir se equilibrar, de cair para trás. Em outras palavras, ou enlouquece ou morre. O Não converte-se, assim, em Sim e ele aceita sua missão. Nunca pediu por ela, mas aceita.
Sob a quina, horizontes e fronteiras são iguais.
O guardião.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

SÍSIFO FELIZ

Na mitologia grega, por desafiar os deuses, Sísifo foi condenado a trabalhar por toda a eternidade, rolando uma pedra até o cume de uma montanha. Quando, porém, chegava ao topo, a pedra despencava lá de cima e, no dia seguinte, Sísifo tinha de recomeçar o trabalho. Somos todos Sísifo: eu, você, nossos pais e filhos. Mais de um terço de nossos dias é comprometido com a dura tarefa de rolar a tal pedra morro acima. Para Sísifo, não havia férias ou feriados prolongados. Então, fico me perguntando: será que não pensou em suicídio? Claro que sim. O homem que passara uma coleira na morte pensou sim em dar cabo de si; só que não. Ao começar a cumprir sua sentença, Sísifo sofreu com o peso da pedra; praguejou, amaldiçoou seu destino. Depois, já nem via a pedra; perdido em devaneios no passado, no tempo em que tinha sido livre e feliz; ou no futuro, no tempo em que, por algum milagre, se livraria do jugo. Mas a eternidade é longa e Sísifo, como era de se esperar, perdeu as esperanças e, neste momento, quis morrer; mas já não podia morrer: já não podia dormir, nem acordar. É isso a agonia impensável: o escorpião encalacrado, nem sequer ter a possibilidade de decretar o próprio fim. E aí, foi neste exato momento que o milagre aconteceu. Sísifo percebeu que, embora o caminho fosse o mesmo, nunca era igual. A chave para a liberdade estava justamente na plena atenção ao caminho que tinha de fazer diariamente. E Sísifo ficou amigo das flores e percebeu que elas estavam diferentes a cada dia. Dia após dia, esperava a roseira botar seu botão, o girassol mexer sua cabeça grande na direção da luz. Percebeu também que o céu nunca estava igual, era impossível que as nuvens repetissem a mesma forma. Embora tudo fosse o mesmo, nada nunca era igual; e, ainda que estivesse preso à sua maldição, Sísifo se libertou. Habitar o presente é habitar a liberdade, independentemente das condições exteriores. O presente é um furo na eternidade. A única novidade é o sol. Então, este é o nome do milagre: eis que tudo se fez novo – Sísifo Feliz!
Hoje, quando vinha para o trabalho, vi um pai levando o filho no colo, embrulhado numa manta, para a creche. Vi também um velhinho passeando com o cão. E vi ainda um casal de namorados se despedindo para ir ao trabalho; ela acenou quando passava na catraca do ônibus. Vejo essas pessoas todos os dias, mas elas nunca vestem exatamente a mesma roupa. Como disse Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Mais louco é quem me diz!
Eu sou feliz!

OS PÁSSAROS E AS PESSOAS

As pessoas são como pássaros.
A princípio, se mostram desconfiadas.
Aproximam-se, mas pousam longe -
Em ponto de possível partida ainda antes da mágoa.
Com o tempo e a constatação de que não temos pedras nas mãos,
Os pássaros chegam mais perto.
Manhã cedinho, vêm cantar na nossa janela.
Se somos delicados e mostramos respeito pelo canto,
Entregam-se inteiros; pessoas e pássaros.
E acabam por se alimentar de nossa mão estendida.
Agora, se somos afobados, se os assustamos,
Tanto as pessoas, quanto os pássaros partem.
Às vezes, pra nunca mais.

domingo, 9 de junho de 2019

O SORRISO É A FLOR DA PESSOA

Uma flor quando desabrocha é um milagre, mas ver um ser humano desabrochar é uma emoção para a qual ainda não existe palavra. A gente vai dando tempo, carinho, atenção – sobretudo atenção – retirando as larvas, os pulgões, as formigas cortadeiras e, então, um belo dia, a flor desabrocha lá de dentro do coração e nem a planta crê que era capaz de produzir uma flor tão bonita. 
Hoje eu também aprendo muito com o jardim; mas, durante muito tempo, aprendi só com os bichos. Peguei muitos bichos na rua, sabe, e, na minha profissão, também vi muitas crianças largadas. Quando você pega um gato abandonado, ele chega inseguro, assustado, tem medo de tudo e, principalmente, quer agradar demais. Por medo de ser judiado, descartado mais uma vez, ronrona demais, se esfrega o tempo todo na gente, quer fazer de tudo pra ser aceito e acaba até enchendo um pouco o saco. A paciência é a maior virtude daquele que cuida. Aí, com o tempo - essa é uma verdade esquecemos: tudo demanda tempo –, a atenção (sobretudo atenção) e o cuidado, o bichinho vai ganhando confiança, se sentindo seguro, em casa. E aí, um belo dia, a gente vê o gato verdadeiro, que é a beleza do gato normal elevada à enésima potência - a flor que desabrochou. Com as pessoas acontece igualzinho. Quando a pessoa desabrocha, ela rejuvenesce, o rosto fica leve, há no olhar a generosidade de quem voltou a ser si mesmo, o bem transparece em cada uma de suas atividades, ela se torna criativa, brincalhona e... SORRI. Esse sorriso é a flor da pessoa. E, olha, a gente que acompanhou o processo desde o começo, que plantou a semente, cuidou das larvas ou carrapatos, teve paciência nos dias ruins, sente-se aí recompensado. Foi uma longa jornada, mas como valeu!
Bom dia, amigos e amigas.

SONHAR O SONHO CERTO



Calma.
A gente precisa sonhar os sonhos certos ou, talvez, o melhor mesmo seja nem sonhar, mas se entregar confiante à Força, como um pássaro confia ao se entregar a uma corrente de ar. Ao não desejar, abrimos espaço ao nosso destino verdadeiro e é como se a roda da vida corresse sobre o trilho de trem a ela destinado desde o princípio.
Por muito tempo, sonhei ser famoso e grande para conquistar um Amor que julguei insuficiente. Eu estava errado. Se meus sonhos tivessem se realizado, eu poderia ter sido um ser humano muito destrutivo. Meu sonho era ser mais que os outros e, enquanto estivermos imersos neste tipo de ilusão, o mundo não terá jeito. Aparecer na televisão faz alguém melhor? Eu achava que as pessoas me menosprezavam e queria provar pra elas do que eu era capaz... E aí fui corrigido; como uma mãe tem de corrigir o filho quando percebe que ele começa a se perder. 
A maioria de nós sonha os sonhos errados. E a grande benção em verdade é não realizá-los. Kurt Cobain realizou seu sonho e viu que estava errado, nada havia lá. Ele continuava o mesmo e a dor continuava a mesma. Tudo o que você precisa, está ao seu lado agora mesmo. É só vir para o presente e abrir os olhos. Se estamos o tempo todo com a cabeça no passado ou no futuro, ficamos cegos para o presente. Se só me permitirei ser feliz quando tiver isso e aquilo, não vejo as pessoas, os bichos, as plantas, a pipoca com a filha, as coisas boas que estão bem aqui ao meu lado. A felicidade é uma questão de atenção e não de realização. Todo mundo pode ficar feliz agora, só que precisa perceber isso.
Fico vendo o caso do Neymar aí na TV e tenho muita pena dele. Ele só tem fama e alguns milhões. Eu não trocaria minha vida pela dele nem por um segundo. Precisamos de muito pouco para sorrir. Bom dia.

DE VOLTA AO COMEÇO

"E É COMO SE EU DESPERTASSE DE UM SONHO QUE NÃO ME DEIXOU VIVER". Como isso se comunica comigo. Eu vivi a vida inteira dentro desse pesadelo e só há pouco despertei. É como se, pela primeira vez na vida, meus olhos estivessem abertos. Eu nunca tinha reparado nas cores bonitas do manacá nessa época do ano. Eu poderia ter dito que nunca avistara um único manacá e, no entanto, no caminho até meu trabalho, tem um monte deles, com suas flores brancas e roxas. E o sol ganhou uma luz nova. Dá vontade de parar as pessoas na rua, chacoalhá-las e perguntar: “vocês não vêm o tamanho disso que é o mundo e a vida?” Se fosse pintor, acho que isso se manifestaria como a diferença que há entre os Comedores de batata e os muitos girassóis de Van Gogh. Na capa desse disco aí, o Gonzaguinha tem a face fissurada. Ele também, um filho da fenda; esse sentimento profundo de orfandade. A fissura dói de uma dor impensável; mas é ela, ao mesmo tempo, que nos dá uma visão mais ampla das coisas e – ainda assim – essa impressão de viver dentro de um sonho que não deixa viver de verdade, como o menino que não pôde entrar na festa e fica olhando as outras crianças se divertindo, enquanto ele está do lado de fora, no frio. Não é possível curar a fissura, mas é possível aceitá-la e acho que é disso que essa canção fala. De um despertar espiritual, um segundo nascimento, nascer já não de um útero, mas de dentro do próprio coração. De volta ao começo, até aquele ponto no qual o menino se sentiu abandonado e retomar dali a caminhada com um sorriso nos lábios. Talvez eu esteja próximo da morte sem saber ou de um trabalho dentro do qual eu desapareça como indivíduo. Acho que foi o Dr. Gachet quem disse que, na manhã em que saiu para pintar os corvos no trigal, Vincent parecia um homem que tinha vencido sua guerra interior. Naquela tarde, ele deu um tiro no próprio peito. E Double Fantasy, último play do John Lennon, parece a solução de todos os problemas vociferados no Plastic Ono Band e então: Mark Chapman; e o Gonzaguinha faleceu num desastre de automóvel aos quarenta e cinco anos. Havia poucos anos que tinha se entendido com o velho Lula. O fato é que já não sou eu quem vive, mas o sagrado quem vive em mim. E tanto se me dá se eu for chamado para partir, ou para fazer um trabalho no qual meu nome se apague para sempre. De volta ao começo, ao fundo do fim.

O AMOR

E naquela noite, eles foram para o motel
Mas ninguém poderia imaginar que só queriam passar toda a noite de mãos dadas.

O BODE EXPIATÓRIO

Toda família tem um membro que toma para si a tarefa de expiar a culpa e os segredos dos demais. Este membro entrega a si mesmo em sacrifício para que os outros possam seguir. Geralmente, as pessoas chamam esses seres de ovelhas negras. Em boa parte dos casos, os bodes expiatórios são tocados por alguma enfermidade mental, ou por um profundo desajuste social.

terça-feira, 4 de junho de 2019

PSICOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

No fundo, no fundo, quase todas as pessoas são delicadas, mas foram feridas muito cedo e aí ficaram feito roseira que ainda tenta respirar sob camadas e camadas do entulho de um prédio que desabou. Às vezes, uma bobagem arrebenta o coração pelo resto da vida:
- Ah, mas por que você não faz como sua irmã? Ela é tão comportada e só tira notas boas!
Todo trabalho espiritual ou psicológico sério tem o intuito de alertar para o entulho e para o árduo trabalho de retirá-lo. E, quando a gente passa a ver as pessoas assim e vai cavando através do entulho, feito formiguinha, tentando vislumbrar a roseira, a gente fica mais paciente com as pessoas e com a gente mesmo.

NIETZSCHE, CAMILLE, O POTRO E EU

Em O nascimento da tragédia, a dinamite germânica Friedrich Nietzsche identifica duas forças modeladoras da cultura desde a Grécia: o apolíneo e o dionisíaco. O apolíneo seria o iluminado, racional, ordeiro; ao passo que o dionisíaco seria seu contrário. Nietszche, já ali, à beira da loucura, assinou alguns textos como Dionísio e outros como O crucificado. Mas o fim de Nietzsche não vem ao caso aqui. Estamos no primeiro Nietzsche, o qual identifica as duas forças modeladoras da cultura. A meu ver, há aqui uma correspondência com o Oriente: o par yin-yang. O yang estaria para o apolíneo, assim como o yin para o dionisíaco. Essas duas forças, em última instância, manifestam-se como masculino e feminino. Acho que tem a ver com o corpo: o homem mostra, ao passo que a mulher insinua. O órgão sexual masculino é um monte; ao passo que o feminino, um abismo. E, contudo, há muito da mulher no homem e muito do homem na mulher. Na natureza, tudo é lambuzado e, gente, tudo é natureza! De certo modo; o homem tem um útero na cabeça, ao passo que a mulher tem uma cabeça no ventre. No homem, até mesmo o coração tem de passar pela cabeça. Na mulher, ocorre o contrário. Mas é claro que há casos de homens regidos pelo feminino e mulheres regidas pelo masculino.
Falei tudo isso para chegar à escultura, que considero uma arte de predominância masculina, ao passo que a música seria feminina. Isso não impede, entretanto, que uma mulher seja uma tremenda escultora. Quero falar então de Rodin e Camille Claudel. As esculturas de Rodin são a forma em pedra do yang, do apolíneo. É um trabalho lento, racional, que busca a perfeição das formas e lapida até chegar à claridade da escultura que se escondia na pedra. Camille, por outro lado, é o obscuro, o emocional, o caos necessário. A perfeição não é meta. O filho é sempre perfeito aos olhos da mãe, mesmo em suas imperfeições. Acho que Camille não esculpiu, pariu suas obras. As suas são pedras da urgência, do desespero e do grito. O excesso é retirado às pressas e; breve-breve, ela já está em outro lugar. No meu coração e no que escrevo, estou mais próximo da Camille: não tenho tempo para ser ourives, só para a fúria do sentimento. Aí um analista amigo meu, disse que tenho coração de potro selvagem; ele acertou, porque sempre me senti atraído pelas naturezas que não se deixam dominar. Eu teria tido um fim trágico, parecido ao de Camille ou Nietzsche. Só que encontrei a disciplina de uma prática espiritual e me tornei - eu mesmo - condutor deste cavalo doido que sou. O apolíneo também tem seu lugar. Cavalo e cavaleiro andam calmos, em unidade, buscando o um; mas o potro nunca pode se desvencilhar de seu coração. E nem quer. Evoé Camille!

sábado, 1 de junho de 2019

ALERTA!

A criança machucada em ti precisa de abrigo. Se outros não fizeram quando era tempo, faze tu mesmo agora; ou naufragarás.

CUIDADO DO INCONSCIENTE

Se queres colocar a casa em ordem, começa limpando o porão.

O HEROÍSMO POSSÍVEL

QUANDO a gente se predispõe a fazer o Bem, pensa logo em coisas grandes: esconder judeus no porão para salvá-los dos nazistas, liderar uma revolução; mas, às vezes, o heroísmo possível é levantar uma vassoura caída na qual alguém poderia tropeçar. A bondade não se mede em termos de façanhas. Emily Dickinson escreveu: "Se eu puder ajudar um filhote que caiu a voltar para o ninho, a vida terá valido à pena". E há um ditado zen assim: "se você quer salvar o mundo, comece lavando seu prato". Ou é isto, ou algo neste sentido. Enquanto tua bondade depender de reconhecimento, irmão, ainda não será bondade de fato. Só disfarce do teu próprio narcisismo.

PITICO, OU DA ÂNSIA POR RECONHECIMENTO



Meu amigo Pitico morreu aos dezessete anos com dezessete tiros. Ele vinha de uma família de oito irmãos, os mais velhos já estavam na cadeia; ao passo que os mais novos se iniciavam no crime. A gente se deu bem desde a primeira série. Eu, o astronauta; ele, o Fora da Lei (Kafka gostaria desta expressão). Eu o ajudava com as atividades escolares, enquanto ele me protegia dos meninos maiores. Outro dia, vi uma frase num filme e me lembrei do Pitico. Dentro da cadeia, numa briga, o personagem diz:
- Eles pode ser grande, mas nóis é ruim.
Pitico não era grande, mas não perdia uma briga. Quatrocentas lutas, quatrocentas vitórias.
Além do desencaixe, havia algo mais que nos irmanava: a ânsia por reconhecimento. Eu tinha ambições artísticas; ele, criminosas. Pitico não entendia por que eu queria que lessem meus poemas; ao passo que eu não entendia por que ele, como os irmãos mais velhos, queria ter o nome temido no crime. Daí a gente percebe o tamanho da nossa idiotice. Pouco importam aos outros as nossas façanhas. Todos estão imersos na ilusão de que são especiais e buscando reconhecimento dentro de seu próprio viveiro. Alexandre, o grande, conquistou o mundo inteiro para ofertá-lo à mãe. Eu quis fazer o mesmo. Alexandre era um idiota; eu, outro. Quando deixamos de lado a ânsia por reconhecimento, ficamos mais leves, pisamos menos nos calos alheios. No caso da arte, ela flui sem barreiras. O melhor tiro do arqueiro é aquele que não tem alvo definido. Eu não sou meu nome. E o que vai ficar, se algo ficar, é só uma palavra vazia. Tremenda bobagem! Em busca disso, dessa ilusão de imortalidade, jogamos fora a única coisa real: a vida.
Não fosse a ânsia de eternidade - e de reconhecimento enquanto meio para isso - talvez meu amigo Pitico ainda estivesse por aqui e a gente poderia se encontrar num final de semana para jogar sinuca e falar dos filhos e dos velhos tempos.