sábado, 1 de junho de 2019

PITICO, OU DA ÂNSIA POR RECONHECIMENTO



Meu amigo Pitico morreu aos dezessete anos com dezessete tiros. Ele vinha de uma família de oito irmãos, os mais velhos já estavam na cadeia; ao passo que os mais novos se iniciavam no crime. A gente se deu bem desde a primeira série. Eu, o astronauta; ele, o Fora da Lei (Kafka gostaria desta expressão). Eu o ajudava com as atividades escolares, enquanto ele me protegia dos meninos maiores. Outro dia, vi uma frase num filme e me lembrei do Pitico. Dentro da cadeia, numa briga, o personagem diz:
- Eles pode ser grande, mas nóis é ruim.
Pitico não era grande, mas não perdia uma briga. Quatrocentas lutas, quatrocentas vitórias.
Além do desencaixe, havia algo mais que nos irmanava: a ânsia por reconhecimento. Eu tinha ambições artísticas; ele, criminosas. Pitico não entendia por que eu queria que lessem meus poemas; ao passo que eu não entendia por que ele, como os irmãos mais velhos, queria ter o nome temido no crime. Daí a gente percebe o tamanho da nossa idiotice. Pouco importam aos outros as nossas façanhas. Todos estão imersos na ilusão de que são especiais e buscando reconhecimento dentro de seu próprio viveiro. Alexandre, o grande, conquistou o mundo inteiro para ofertá-lo à mãe. Eu quis fazer o mesmo. Alexandre era um idiota; eu, outro. Quando deixamos de lado a ânsia por reconhecimento, ficamos mais leves, pisamos menos nos calos alheios. No caso da arte, ela flui sem barreiras. O melhor tiro do arqueiro é aquele que não tem alvo definido. Eu não sou meu nome. E o que vai ficar, se algo ficar, é só uma palavra vazia. Tremenda bobagem! Em busca disso, dessa ilusão de imortalidade, jogamos fora a única coisa real: a vida.
Não fosse a ânsia de eternidade - e de reconhecimento enquanto meio para isso - talvez meu amigo Pitico ainda estivesse por aqui e a gente poderia se encontrar num final de semana para jogar sinuca e falar dos filhos e dos velhos tempos.

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