Meu amigo Pitico morreu aos dezessete anos com dezessete tiros. Ele vinha de uma família de oito irmãos, os mais velhos já estavam na cadeia; ao passo que os mais novos se iniciavam no crime. A gente se deu bem desde a primeira série. Eu, o astronauta; ele, o Fora da Lei (Kafka gostaria desta expressão). Eu o ajudava com as atividades escolares, enquanto ele me protegia dos meninos maiores. Outro dia, vi uma frase num filme e me lembrei do Pitico. Dentro da cadeia, numa briga, o personagem diz:
- Eles pode ser grande, mas nóis é ruim.
Pitico não era grande, mas não perdia uma briga. Quatrocentas lutas, quatrocentas vitórias.
Além do desencaixe, havia algo mais que nos irmanava: a ânsia por reconhecimento. Eu tinha ambições artísticas; ele, criminosas. Pitico não entendia por que eu queria que lessem meus poemas; ao passo que eu não entendia por que ele, como os irmãos mais velhos, queria ter o nome temido no crime. Daí a gente percebe o tamanho da nossa idiotice. Pouco importam aos outros as nossas façanhas. Todos estão imersos na ilusão de que são especiais e buscando reconhecimento dentro de seu próprio viveiro. Alexandre, o grande, conquistou o mundo inteiro para ofertá-lo à mãe. Eu quis fazer o mesmo. Alexandre era um idiota; eu, outro. Quando deixamos de lado a ânsia por reconhecimento, ficamos mais leves, pisamos menos nos calos alheios. No caso da arte, ela flui sem barreiras. O melhor tiro do arqueiro é aquele que não tem alvo definido. Eu não sou meu nome. E o que vai ficar, se algo ficar, é só uma palavra vazia. Tremenda bobagem! Em busca disso, dessa ilusão de imortalidade, jogamos fora a única coisa real: a vida.
Não fosse a ânsia de eternidade - e de reconhecimento enquanto meio para isso - talvez meu amigo Pitico ainda estivesse por aqui e a gente poderia se encontrar num final de semana para jogar sinuca e falar dos filhos e dos velhos tempos.
- Eles pode ser grande, mas nóis é ruim.
Pitico não era grande, mas não perdia uma briga. Quatrocentas lutas, quatrocentas vitórias.
Além do desencaixe, havia algo mais que nos irmanava: a ânsia por reconhecimento. Eu tinha ambições artísticas; ele, criminosas. Pitico não entendia por que eu queria que lessem meus poemas; ao passo que eu não entendia por que ele, como os irmãos mais velhos, queria ter o nome temido no crime. Daí a gente percebe o tamanho da nossa idiotice. Pouco importam aos outros as nossas façanhas. Todos estão imersos na ilusão de que são especiais e buscando reconhecimento dentro de seu próprio viveiro. Alexandre, o grande, conquistou o mundo inteiro para ofertá-lo à mãe. Eu quis fazer o mesmo. Alexandre era um idiota; eu, outro. Quando deixamos de lado a ânsia por reconhecimento, ficamos mais leves, pisamos menos nos calos alheios. No caso da arte, ela flui sem barreiras. O melhor tiro do arqueiro é aquele que não tem alvo definido. Eu não sou meu nome. E o que vai ficar, se algo ficar, é só uma palavra vazia. Tremenda bobagem! Em busca disso, dessa ilusão de imortalidade, jogamos fora a única coisa real: a vida.
Não fosse a ânsia de eternidade - e de reconhecimento enquanto meio para isso - talvez meu amigo Pitico ainda estivesse por aqui e a gente poderia se encontrar num final de semana para jogar sinuca e falar dos filhos e dos velhos tempos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário