Vivemos dependurados no milagre. O homem moderno, ancorado
em sua arrogância, acha que faz e acontece; que é o próprio sujeito da oração.
Um simples lance de olhos ao interior, no entanto, revela que a vida não é mais
que resultado de um gesto de amor, doação, misericórdia. É que não temos
qualquer controle RACIONAL sobre nossas funções vitais. - A razão é tão ínfima
para querer usurpar o reino! Parece um juiz canalha! - Deveríamos ser, sim, gratos
pelo ar que podemos respirar; todavia, até começarmos a morrer afogados, não
lhe daremos o menor valor. Uma vida de gratidão é uma vida feliz. Mas, voltando às funções vitais, o coração é
o órgão em si que representa o amor infinito. Ele nos sustenta e nos doa vida.
De seu funcionamento, não somos senhores. Ele, o coração, é o movimento da
criação infinita dentro de nosso próprio peito. Então, comigo, aconteceu por
pura coincidência. Deitado na cama, durante a noite, antes de dormir, pensando
nos problemas da vida; sem querer, comecei a ouvir – de modo muito
objetivo - as batidas do meu próprio
coração. Aos poucos, minha atenção, que antes se voltava aos problemas da vida,
fixou-se no som do coração. Continuei – os orientais começam pelo pulmão, mas
tanto faz. Aos poucos, tudo ao redor desaparecia: os problemas, o quarto, a
cama, meu próprio corpo; ficamos eu e o coração e todo o meu corpo, como que em
transe, movia-se acompanhando o ritmo que meu músculo do peito imprimia. Muito
baixa, a princípio, comecei a ouvir a voz. Era como alguém me chamando: “ei,
estou aqui!” A voz não vinha de fora, mas de dentro. Era como se minha
consciência tivesse se dividido em duas. De um lado, minha criança interior
perguntava e, de outro, meu próprio coração respondia. Não sei se isso pode ser
chamado de intuição. Era algo certo, real, objetivo, verdadeiro. Na noite
seguinte, com alguma dificuldade, induzi-me ao mesmo processo e, em todas as
noites subsequentes, fui transformando essa prática de escuta em uma técnica.
Pela repetição, pude induzir-me ao processo de escuta com mais facilidade.
Agora, às vezes, estou no trânsito e o coração se manifesta. Estou cuidando do
jardim, e lá vem o coração. Estou conversando com um amigo e o coração me
sussurra de fundo. Tornei-me impossível de enganar. Quando alguém conversador,
mas mal intencionado vem falar comigo, o coração de pronto acende a luz de
alerta. Por outro lado, reconheço uma pessoa boa a milhares de quilômetros de
distância. Meu coração é o amor infinito do Maior comprimido numa coisinha
vermelha dentro de mim. E sou tão grato por isso. E sou tão feliz com minha
vida besta, Drummond!
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