segunda-feira, 17 de junho de 2019

A PRÁTICA DE OUVIR O CORAÇÃO


Vivemos dependurados no milagre. O homem moderno, ancorado em sua arrogância, acha que faz e acontece; que é o próprio sujeito da oração. Um simples lance de olhos ao interior, no entanto, revela que a vida não é mais que resultado de um gesto de amor, doação, misericórdia. É que não temos qualquer controle RACIONAL sobre nossas funções vitais. - A razão é tão ínfima para querer usurpar o reino! Parece um juiz canalha! - Deveríamos ser, sim, gratos pelo ar que podemos respirar; todavia, até começarmos a morrer afogados, não lhe daremos o menor valor. Uma vida de gratidão é uma vida feliz.  Mas, voltando às funções vitais, o coração é o órgão em si que representa o amor infinito. Ele nos sustenta e nos doa vida. De seu funcionamento, não somos senhores. Ele, o coração, é o movimento da criação infinita dentro de nosso próprio peito. Então, comigo, aconteceu por pura coincidência. Deitado na cama, durante a noite, antes de dormir, pensando nos problemas da vida; sem querer, comecei a ouvir – de modo muito objetivo  - as batidas do meu próprio coração. Aos poucos, minha atenção, que antes se voltava aos problemas da vida, fixou-se no som do coração. Continuei – os orientais começam pelo pulmão, mas tanto faz. Aos poucos, tudo ao redor desaparecia: os problemas, o quarto, a cama, meu próprio corpo; ficamos eu e o coração e todo o meu corpo, como que em transe, movia-se acompanhando o ritmo que meu músculo do peito imprimia. Muito baixa, a princípio, comecei a ouvir a voz. Era como alguém me chamando: “ei, estou aqui!” A voz não vinha de fora, mas de dentro. Era como se minha consciência tivesse se dividido em duas. De um lado, minha criança interior perguntava e, de outro, meu próprio coração respondia. Não sei se isso pode ser chamado de intuição. Era algo certo, real, objetivo, verdadeiro. Na noite seguinte, com alguma dificuldade, induzi-me ao mesmo processo e, em todas as noites subsequentes, fui transformando essa prática de escuta em uma técnica. Pela repetição, pude induzir-me ao processo de escuta com mais facilidade. Agora, às vezes, estou no trânsito e o coração se manifesta. Estou cuidando do jardim, e lá vem o coração. Estou conversando com um amigo e o coração me sussurra de fundo. Tornei-me impossível de enganar. Quando alguém conversador, mas mal intencionado vem falar comigo, o coração de pronto acende a luz de alerta. Por outro lado, reconheço uma pessoa boa a milhares de quilômetros de distância. Meu coração é o amor infinito do Maior comprimido numa coisinha vermelha dentro de mim. E sou tão grato por isso. E sou tão feliz com minha vida besta, Drummond!

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