Há mais de quinze anos, trabalho com adolescentes e eles me ensinam
muito. É que o adolescente é uma ponte; está entre a criança e o adulto. E seus
problemas são sempre maiores que os nossos, porque eles os estão enfrentando
pela primeira vez. Quando a gente leva o primeiro pé na bunda, acha que aquilo
vai durar para sempre. Dá vontade de morrer porque o futuro se dissolve. O
segundo pé na bunda também dói, mas a gente já sabe que demora, mas passa. E
aí, quando a gente aplica uma prova e todo mundo termina, a gente deixa aqueles
dez minutos do final da aula livre e quando vê, tá todo mundo empoleirado lá no
fundo da sala, parecendo uma montanha de corações. Os adolescentes gostam de se
tocar, mas quase nunca é um toque sensual. Eles sabem o valor de um cafuné, um
abraço, de alguém segurar na mão da gente quando a gente sente que tá caindo. Eu
entendo isso. Quando você se enamora de alguém de verdade, quase nunca fica
pensando em sexo. A gente se imagina é mostrando as coisas de que gosta,
abrindo nossos segredos e descobrindo os detalhes e gestos únicos do outro, fazendo
carinho debaixo de uma árvore no parque, caminhando de mãos dadas. Quando você
fica de mãos dadas de verdade com alguém especial, ocorre uma troca de energia
que não tem igual; é muito maior que sexo sem amor. Na paixão, depois vem a
fome, é claro, e ela também é boa. A gente fica virgem outra vez, pensa liderar
uma revolução a partir da cama, ou. Só que tem aquelas paixões que não se
realizam; que, por vezes, ocorrem de um lado só. Até isso a gente pode aprender
com os adolescentes. Eles conseguem transmutar mais facilmente esse tipo de
afeto em amizade e, nem assim, deixam de se tocar. Acho que sabem o segredo que
nós esquecemos: nem toda carícia é erótica.
A maior vantagem de ser ou ter sido invisível é que você pode se
transformar no que sente e criar a própria solidão sempre que necessário. Hoje
escrevi para o adolescente que fui e que, na energia de uma canção, resolveu me
visitar. Sentamos juntos e repartimos o café da manhã e ficamos falando dessa
coisa grande, alegre, dolorida e bonita que é a vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário