sábado, 15 de junho de 2019

NEM TODA CARÍCIA É ERÓTICA.


Há mais de quinze anos, trabalho com adolescentes e eles me ensinam muito. É que o adolescente é uma ponte; está entre a criança e o adulto. E seus problemas são sempre maiores que os nossos, porque eles os estão enfrentando pela primeira vez. Quando a gente leva o primeiro pé na bunda, acha que aquilo vai durar para sempre. Dá vontade de morrer porque o futuro se dissolve. O segundo pé na bunda também dói, mas a gente já sabe que demora, mas passa. E aí, quando a gente aplica uma prova e todo mundo termina, a gente deixa aqueles dez minutos do final da aula livre e quando vê, tá todo mundo empoleirado lá no fundo da sala, parecendo uma montanha de corações. Os adolescentes gostam de se tocar, mas quase nunca é um toque sensual. Eles sabem o valor de um cafuné, um abraço, de alguém segurar na mão da gente quando a gente sente que tá caindo. Eu entendo isso. Quando você se enamora de alguém de verdade, quase nunca fica pensando em sexo. A gente se imagina é mostrando as coisas de que gosta, abrindo nossos segredos e descobrindo os detalhes e gestos únicos do outro, fazendo carinho debaixo de uma árvore no parque, caminhando de mãos dadas. Quando você fica de mãos dadas de verdade com alguém especial, ocorre uma troca de energia que não tem igual; é muito maior que sexo sem amor. Na paixão, depois vem a fome, é claro, e ela também é boa. A gente fica virgem outra vez, pensa liderar uma revolução a partir da cama, ou. Só que tem aquelas paixões que não se realizam; que, por vezes, ocorrem de um lado só. Até isso a gente pode aprender com os adolescentes. Eles conseguem transmutar mais facilmente esse tipo de afeto em amizade e, nem assim, deixam de se tocar. Acho que sabem o segredo que nós esquecemos: nem toda carícia é erótica.
A maior vantagem de ser ou ter sido invisível é que você pode se transformar no que sente e criar a própria solidão sempre que necessário. Hoje escrevi para o adolescente que fui e que, na energia de uma canção, resolveu me visitar. Sentamos juntos e repartimos o café da manhã e ficamos falando dessa coisa grande, alegre, dolorida e bonita que é a vida.

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