Sou cinéfilo, vejo de tudo: de Chaplin a
Michael Haneke, com um bom filminho de terror no meio para quebrar o gelo.
Admiro os anjos de Win Wenders, as revoluções de Hitchcock: matar a mocinha com
trinta minutos de filme, fazer todo um filme numa só tomada; revejo sempre
Jules e Jim e Os incompreendidos; Goddard, o primeiro; e Buñuel, e Tarkóvsky, e
Mallick, e Peckinpah, e Ford. Agora, o meu cineasta predileto é o sueco Ingmar
Bergman, não só pelo modo como filma um rosto, mas por sua visão de mundo, sua
descrição angustiante das relações humanas. Sou cinéfilo, já disse, vejo de
tudo, mas não tenho qualquer critério, não ficho nem catalogo os filmes a que assisto.
Às vezes, durante uma conversa, misturo trechos de filmes distintos,
confundo-me; quando vejo, estou citando passagens da minha vida como se fosse
um filme, um livro. Talvez nisso consista a criação, na absorção do caos em
contraponto à organização do pesquisador. Tudo vai sendo absorvido e acaba por
repousar no fundo do pântano. De repente, vê-se um cego mascando chicletes e
uma pressão insuportável, que nos vem das entranhas, empurra um mundo novo à
tona: é a epifania, ou a inspiração. Impossível ao artista não fazer arte neste
momento. Deus que me livre dos operários da arte, daqueles que; faça chuva,
faça sol; escrevem das 8:00 às 17:00. Estive em algumas firmas e posso garantir
que essa é a disciplina da fábrica, a disciplina da arte é outra.
Mas estou me dispersando, quero falar de
Bergman, mais precisamente de O Sétimo
Selo, mais precisamente ainda de um aspecto do filme: o idiota. Em Bergman há a esperança, às vezes, mas ela está sempre
com o idiota, com os simples e pequenos, com os artistas mambembes. Em sua
autobiografia, A Lanterna mágica, Bergman
descreve o início de seu amor pelo cinema. Na infância, quando cometia qualquer
travessura, seu pai, um rígido Pastor calvinista, o trancava num armário
escuro. Começava aí o medo que exala de todas as películas bergmanianas: medo
da morte, da doença, da falta de amor, de fantasmas. O menino, com o tempo,
ganhou uma lanterna e passou a levá-la consigo, às escondidas, para o armário e
com ela acesa sobre o movimento das mãos projetava sombras na parede, o que o
distraía e afastava o medo; geralmente pensava em espetáculos de circo, em
palhaços, carrosséis, em coisas alegres que espantavam o terror. Começava aí o
amor pelo cinema, a admiração pelo palhaço, o idiota, o artista mambembe. Desde
Noites de circo à obra-prima O sétimo selo, a redenção, quando há
redenção, encontra-se do lado do idiota.
Bergman não foi o primeiro a dar ao
idiota o status do salvador, do
portador da esperança. Já na Bíblia, o Cristo exorta-nos para que sejamos como
crianças, para que ofereçamos a outra face, não guardemos ressentimento. E Dostoiévski
criou o príncipe Mishkin, de O idiota, na tentativa de representar o ser humano
perfeitamente belo e seu naufrágio nos escolhos da feiura humana. Há ainda o
Bartleby, de Melville e o Jesus de O
anticristo, de Nietzsche.
Segundo Peter Solterijk, o idiota é um
anjo sem mensagem e “Mesmo sua entrada tem o caráter de uma aparição – não
porque ele representasse neste mundo um clarão transcendente, mas porque, no
centro de uma sociedade de fazedores de papéis e de estrategistas do ego, ele
encarna uma inesperada ingenuidade e uma desarmadora benevolência. Quando ele
fala, não é jamais com autoridade, mas unicamente com a força de sua
franqueza.” N’O anticristo, que seria
muito melhor nomeado se se chamasse anticristianismo,
ou antipaulo, Nietzsche, entre uma farpa e outra, deixa escapar certa sedução
pela falta de ressentimento do personagem Jesus. Ainda segundo Sloterdijk: “Sua
moral é sua incapacidade de golpear de volta. Esse é o traço que deveria
interessar Nietzsche na suposta idiotia de Jesus, porque ele encarna de maneira
pueril, o ideal da vida elevada e sem ressentimento – não, é claro, do lado do
Eu ativo, mas do acompanhante que encoraja e completa.” Deixemos de lado o caso
de agir de acordo com a vontade de potência que caracteriza a moral do Senhor e
é defendido por Nietzsche, não é o que nos interessa aqui.
Voltemos ao Bergman, mais
precisamente ao Sétimo Selo. No que
se refere à idiotia, a obra pode ser vista como um paralelo sombrio do Dom Quixote
de La Mancha, outro idiota, no sentido que estamos construindo neste artigo. Remetendo ao Dom, temos o cavaleiro e seu escudeiro
como contrapontos da forma de encarar o mundo. Da mesma maneira que no livro de Cervantes, o pragmatismo crítico do escudeiro revela um conhecimento
do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a morte e
o sagrado. Com uma visão ácida, porém justa, o escudeiro não procura respostas,
já as possuí pela experiência de vida, portanto não tem medo de enfrentar a
própria morte. Assim como Sancho, sabe
transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da peste, da morte e o mundo
quase sublimado e filosófico em que está o cavaleiro.
Em todos os
seus filmes, mesmo os menores, espanta-nos a coragem com que Bergman enfrenta e
faz autópsia dos nossos sentimentos mais sombrios. Desde as irmãs que se
recusam a entrar no quarto da irmã enferma - tarefa executada por uma empregada
que, depois da morte da moribunda, é despedida - ao pai escritor, que espera a
total deterioração mental da filha para usar em sua arte.
A maioria
dos filmes do diretor sueco termina mal, tal qual um rito – outro Bergman
tremendo - sem esperança. Não é o caso d’O
Sétimo Selo. No filme, a humanidade inteira é redimida e salva da caçada da
morte pela família de artistas mambembes. São os únicos que escapam. Na cena
final: amanhece, os pássaros cantam, a carroça está parada junto ao mar com o
pai, a mãe e o bebê. De repente, o pai para, olha o horizonte e diz: “Mia, eu
os vejo, Mia – toca-se um tambor – Lá no céu tempestuoso. Todos eles, o
ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jon e Skat e a severa morte os convoca para
dançar. – aqui a influência sempre presente de Strindberg: A dança da morte –
Quer que todos deem as mãos para formar uma longa fila. A Morte vai na frente
com a foice e a ampulheta... Mas Skat vai atrás com sua lira. Eles vão
dançando, se distanciando do sol... Em uma dança solene. Dançam rumo a escuridão
e a chuva cai em seus rostos... Lavando as lágrimas salgadas da face.” Os
pássaros cantam o pai permanece olhando embasbacado o horizonte, até que a
mulher o restitui à realidade: “Você e suas fantasias.” O bebê balbucia alguma
coisa. O homem pega as rédeas e conduz a carroça rumo ao futuro: pleno de
esperança, mas sem esquecer os mortos que ficaram pelo caminho.
Agora que termino este
texto, lembrei de duas coisas, o bobo de Rei Lear e o romance Pedro Páramo, de
Juan Rulfo, mas eles ficam para uma próxima ocasião. Viremos a ampulheta. Até
breve.







