quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

Você quer saber o que nos esgota? Isso de ser humano. Em tese, ser humano é ter capacidade de escolher; de decidir e nomear o que é certo e errado. No entanto, isso, que também pode ser chamado de livre-arbítrio ou liberdade, mais que uma dádiva, pode ser uma maldição. Mal abrimos os olhos e já temos de decidir se primeiro escovamos os dentes, ou se acordamos o filho. Quando chega o momento das grandes decisões, então, estamos esgotados. Terminamos ou continuamos um relacionamento? Mudamos ou não de emprego? Desde Nietzsche, já NÃO temos o consolo de que, se estivermos ao lado do Bem, do Belo e da Verdade, estaremos escolhendo o certo; porque, como mostrou o filósofo alemão, todas essas coisas podem ser construtos sociais: o que é bom em uma sociedade, pode não o ser em outra. Nietzsche, bem como Freud, desconfia da capacidade da razão de escolher. Para o primeiro, o que nos guia, mais que a razão, é a vontade de poder; para o segundo, o inconsciente. Os pensadores da dúvida sobre a dúvida, nos dizem de instâncias anteriores à razão. Algo que algumas religiões antigas já sabiam. É Bergson, contudo, quem traz de modo sistêmico uma instância para além da razão como método: a intuição. Há no ser humano uma sabedoria anterior ao raciocínio lógico que pode ser chamada de elã vital. Em A evolução criadora, Bergson investiga como a vida é criativa. Feito a água, ela sempre cria um modo de contornar ou resolver os problemas que surgem. Isso desde as bactérias até os tigres. Em nosso corpo, agora mesmo, há uma sabedoria para além da razão, mantendo todas as funções vitais em funcionamento. O coração bate. Quem ordena? Essa instância subsiste no ser humano e se manifesta na gente sob a forma de intuição. O problema é que a mente racional, embora seja uma excelente ferramenta, faz um barulho danado e não nos deixa ouvir os sussurros desse saber ancestral. No taoísmo, hinduísmo e budismo, a meditação é um modo de calar a mente racional para ouvir essa voz interior que também pode ser chamada de Deus na gente. No cristianismo, temos a oração. Agora, voltando ao início, ao problema de ter de escolher. Na verdade, nunca decidimos nada, a gente se perde é no barulho da mente e nas armadilhas de sua máscara, o ego. Isso é o que nos esgota. No fundo, sempre sabemos o que é melhor de cara, mas tentamos analisar, e analisar, e analisar, e procrastinar; porque, muitas vezes, o que devemos fazer é o mais difícil. Na minha vida, tento fazer o seguinte. Quando tenho de decidir sobre algo, vou ao banheiro e respiro fundo, em silêncio, por uns cinco minutos. Assim que a primeira decisão se forma, eu a sigo, não contesto. E vou, uai! Todas as grandes criações humanas são, na verdade, impessoais. Elas surgem de uma intuição primeva; daí por diante, é trabalho da mente e do ego transformá-la numa teoria, num sistema, numa escultura, ou num poema🌻.

CRISÁLIDA

Este corpo e esta vida, irmã
São o casulo
No qual a alma
Tal qual lagarta
Fabrica as asas
Da azul borboleta.
Se sofres, acolhe,
Toda transformação dilacera
E, para lá de toda dor,
Vem vindo a primavera
Onde tu e eu seremos um;
Com o Todo:
Única possibilidade de um amor tranquilo.

SINCERAMENTE

Eu poderia jogar a culpa no governo e, de fato, ele tem uma parcela de culpa. Poderia reclamar do preço da carne, do gás, da gasolina e tudo isso me entristece um pouco. Se você me perguntasse o que tenho, diria que não sei. Meus entes mais próximos estão vivos. (Se me sinto assim enquanto tenho pai, mãe, irmãos e filhos, como reagirei quando estiver só?) Tenho bichos, flores e pão sobre a mesa. E, no entanto, parece que tudo falta. Há dias em que o dia simplesmente não brilha. Tento não estabelecer nenhuma objeção ao que É - e a vida é isso mesmo -, na esperança de que a aceitação mude algo dentro de mim e que eu possa sorrir outra vez. Shakyamuni: a vida é sofrimento! Isso aqui é um vale de lágrimas! Nada podemos diante do inexorável e aceitar também não resolve: o pai mente ao filho sobre anjos enquanto o filho morre; outro menino vê o cachorro moribundo e pactua com Deus e nada acontece: o cão também morre. Eu poderia dizer que há um plano maior. Que cada ser humano só enxerga a árvore, enquanto há uma instância maior que enxerga toda a floresta - o passado e o futuro - e sempre faz o que é melhor. Poderia me tornar trágico, estoico, estrábico, nietzschiano. Digo a mim mesmo que esta dor surda é fruto da minha falta de humildade, do meu orgulho; dessa vontade cega de cantar o encontro e o mundo, enquanto a impotência e a insignificância me gritam NÃO! Nos dias cinzentos, a vida não amanhece. Aceitar o sofrimento não o transmuta. Qual o segredo dos sábios? Já segui todas as receitas. Por que a fé não me salva? Eu me coloco entre os comuns e colo sobre o rosto minha máscara de funcionário público. Nada muda. Será que ninguém sente o cheiro de carniça? De que adianta a humildade do soldado que tem o bucho dilacerado por uma granada? Acaso aceitar a ferida faz com que ela não exista? Espero a angústia fazer seu trabalho demorado na esperança de que o fundo mais fundo seja o começo do sorriso. As tarefas cotidianas pesam. Eu alimento os bichos. Eu lavo a merda deles e me convenço de que isso é amor. Há vidas nas quais o amor não acontece e a esperança é um equívoco sempre renovado; como a espiga de milho colocada diante do jumento para que ele continue a caminhar. Puxo-me pelos ombros e, lentamente, levanto da cama. Pé ante pé, vou ao banheiro e escovo os dentes com a escova que pesa uma tonelada. Olho a pia. Encaro a louça. Faço café. O dia segue. Hoje não vou aos correios. Nada acabou. Agradeço por todas as coisas. E a dor, tal qual marcha fúnebre no fundo da alma, persiste. Começou o campeonato paulista.

sábado, 4 de janeiro de 2020

E MORRER NÃO É ACABAR, É EXPANDIR-SE

Do poeta Gottfried Benn: “Ao olhar para mim mesmo, eu percebo dois fenômenos, a sociologia e o vazio.” Adentremos para chegar ao Outro. Sobre a sociologia: há em todos nós um traço forte de identidade que vem de fora: é a sociologia. A criança se constitui a partir do contato com a placenta, com a mãe, a família, a escola, a sociedade, o mundo. Muito do que somos é voz de outro; ecos da mãe, do pai, dos irmãos, do avô, dos amigos, das pessoas que admiramos, da cultura na qual estamos inseridos: língua, livros, discos, lugares. A partir dessas vozes, surge aquilo que chamo de eu-egóico. Ele não é bom nem ruim: é. Partindo do eu-egóico, podemos solucionar pequenos problemas, funcionamos no mundo, guardamos os recibos para abater no imposto de renda e também sentimos, porque ele é memória e desejo: a primeira bicicleta, a primeira namorada, o acampamento na praia deserta com a mulher amada. É com base no eu-egóico, formado pela sociologia mencionada na frase de Benn, que nos movimentamos por dentro rumo ao passado ou ao futuro. Ele é um bom gerente, excelente ferramenta, tanto quanto os sentidos, os instintos, os anseios que dele mesmo brotam. O que ele não pode é ser o condutor da carruagem. No Mahabarata, quem conduz a carruagem é o avatar divino, Krishna. Nas minhas expedições em mim, Krishna, ou Cristo, ou o parâmetro divino, é o vazio. O vazio é o que está pleno de possibilidade, o eu-egóico vem de fora, mas há algo que já está no bebê que o organiza: o vazio, a pura possibilidade. Este vazio, também chamo de Alma, é o que explica o fato de dois irmãos gêmeos, educados do mesmo modo, terem personalidades diametralmente opostas. Com o tempo e o trabalho ininterrupto da sociedade, afastamo-nos do vazio (o Mal é mesmo a distância dele) e acreditamos ser apenas o eu-egóico e os pensamentos que surgem a partir dele. Só que não, o vazio é o Observador, o Outro, é ele quem é o puro presente e, portanto, eterno, e, portanto, imortal. O vazio é a forma pela qual se pode migrar, se for o caso, para outro corpo no tempo, ou aguardar em estado de presença do outro lado. O vazio é a luz da consciência que tem o poder de dissolver os pensamentos obsessivos. É o vazio-alma-outro-presença quem nos traz de volta quando o eu-egóico nos leva pra longe na meditação. É ele quem retorna ao mantra “Misericórdia” quando oramos. É uma imensa fonte de sabedoria. Em verdade, sabe todas as coisas, pois é a fissura no fundo da agulha que nos une à Divindade, a qual é o sentido das coisas mais díspares e une o escarro e a estrela. Até o vazio cheguei, e fui visitado neste umbral, mas não pude atravessar. Morrer é entrar outra vez pelo vazio e dissolver-se no todo.
E morrer não é acabar é expandir-se, divinizar-se.
E, quem tiver ouvidos, que ouça, porque isto é o que é.

UM DEUS QUE DANÇA

Há uma frase que ressoa nos diários de Nijinski com a força de um Ritornelo: “Eu sou Deus!” A princípio, pode parecer apenas a afirmação de um doido. Nos manicômios, pululam cristos e napoleões. Só que não. (De qualquer modo, há muito sentido na loucura. Mas não aqui.) Por meio da Dança, Nijinski chegou ao Outro e não exatamente à loucura. O Outro é o que habita o feto e não muda, e não envelhece. O Outro é um olho amoroso. A fagulha divina e o gosto que levam a criança a admirar um professor de dança e detestar o mestre de matemática, ou o contrário. Em Nijinski, Deus mostra sua face bailarina. Chegar ao Outro é tirar a máscara e observá-la; ao mesmo tempo que a máscara também observa o Outro. Só então se percebe que o Outro não envelhece porque está sempre no presente e o presente é eterno; e o Outro não deseja, porque o desejo está sempre no futuro e o tempo não existe no fundo da Alma. O Outro é o umbral que une (e não separa) o imutável e a semente, o eterno e o temporal. O Outro é mesmo Deus em nós e deixá-Lo conduzir nosso corpo é estar em consonância com o modo pelo qual a Divindade se manifesta em nós. Em mim, o poema. No caso de Nijinski, a dança. O músico passa anos aprendendo a tocar um instrumento, quando a técnica se entranha, para ser artista, é o Outro quem tem de tocar. No momento em que o pensamento racional, egóico, atravessa, acontece o erro. O Outro é o que age no transe. E por que todos somos Deus? Porque o Tao está inteiro em tudo, no elétron e na totalidade do Universo, na bactéria e no leão. Deus não se abre. É como uma rocha. Não se pode abrir uma rocha. Por mais que se quebre, a essência da pedra se recolhe – inteira - em pedaços menores. Assim também, o Outro é Deus inteiro em nós e para além: sem contradição. Quando um ser humano muda a si mesmo e se deixa conduzir pelo Olho amoroso; quando ajusta o Outro e a máscara, ELE SE ILUMINA e afeta ao mesmo tempo a Consciência da humanidade inteira; porque a Divindade desconhece tamanho e limite. O Ser é ao mesmo tempo o fiel, o altar e a Divindade. Como é sereno o caminho quando estamos ancorados no Outro.🌻

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN – PUTA?

Lilás. Os três jovens sentados à mesa estavam na casa dos vinte anos, mas só o mais alto, loiro, parecia desamparado. Eram dois rapazes e a moça que perguntou:
- Há quanto tempo vocês estão juntos? Nem um ano, não é para tanto.
O desconsolado não levantou a cabeça, mas o amigo menor, negro, atalhou:
- Qual é? Reage, guerreiro. Seja rocha. Nenhuma mulher pode ser tão especial assim.
O loiro suspirou:
- Vocês não entendem. Eu nem consigo me masturbar pensando em outra pessoa. E tudo que eu faço: música que ouço, filme que vejo, flor que contemplo, queria repartir com ela. O mundo só encontra ressonância em mim quando posso partilhá-lo com ela. Se não, é o oco. Com ela eu me sinto o maior homem do mundo. Sem, viro buraco.
A menina continuou tentando consolar. Tocava flauta doce e tinha medo que o outro cometesse suicídio, como mais tarde.
- Mas você acha que não tem mais jeito?
O moço loiro soluçou. Engoliu. Balançou a cabeça para os lados. Sentia algo parecido com bicos de urubus arrancando nacos de seu coração-carniça.
A moça: - Nada pode ser tão ruim.
- Pode sim. A culpa. É tudo por minha culpa, Cinthia. Caguei tudo. Liguei bêbado. Ofendi. Xinguei de. Perdi. Para sempre.
O amigo negro, magro, baixo, permanecia em silêncio, mas a moça:
- Xingou?
O rapaz balançou a cabeça indicando que sim. Pranto.
- De quê? De puta?
Teve vergonha de admitir. Não devia. E, no entanto. Ó céus. Balançou a cabeça indicando que sim outra vez. Não sabia mentir.
A amiga soltou a mão. Julgava e, no julgamento, o amigo diminuía:
- Aí é foda.
- Eu sei.
Forças opostas rasgando seu corpo ao meio, desde a ponta do cu até o topo da cabeça. Ai.
Mais alguns em silêncio e então a moça, tensa, despediu-se. Um amigo arrastou o outro. Queria leva-lo para casa. O outro resistia. Não sabia o que fazer consigo e com os muitos anos que se estendiam lá fora na rua, subindo a Avenida Dom Antonio.
- Pode deixar, Neguinho. Estou bem.
- Certeza?
- Sim.
Separaram-se. O moço loiro começou a atravessar só o pasto. As vacas mastigavam capim com a saliva escorrendo pelo canto da boca. Os urubus por dentro. Apressou o passo, não era suficiente; passou a correr por causa da dor. Ganhou velocidade. As sandálias partiram-se. Ele seguiu – descalço - pela trilha. Sem parar. De olhos fechados. Arrancando a pele dos dedos nos tocos. Machucando a sola nas pedras. Tropeçando e caindo e levantando e correndo e chorando e gemendo e urrando e; então; parou, enchendo o pulmão de ar, gritou em seguida aos deuses. E, por amor, libertou a ex-namorada que estava a quinhentos quilômetros dali. Ainda assim, demorou mais de vinte anos para perdoar a si mesmo por ter dito aquilo.
CORAZÓN: água de pupila.🌻

GRANDE AMORZINHO

Sexo. E não importa quantas mulheres eu amei, ou quantas ainda vou. Sexo. E não importa se você teve mil parceiros. Se fez ou não programas. Se ainda vai ter maior prazer com outro. Sexo. E quando eu estiver velhinho e a morte vier me buscar, é você quem quero ao lado, segurando minha mão e acariciando a testa no fim da jornada. Sexo. E somos só nós dois agora, curtindo a noite juntos, baby.

LÍRICA

E me lembro daquelas primeiras visitas
Quando eu lia Buenaventura Durruti
E cria na revolução como consequência natural da fibra.
Meus músculos tinham o frescor da indignação
E meus pés farejavam o sentimento da vida
Pixava, então, meus versos nos muros
E colava os poemas nos orelhões,
Em 2020, mais tardar, todos seríamos irmãos.

TEM ALGUÉM TE ESPERANDO

E se você tiver um dia ruim
Se o temporal destruir tudo que semeou
Se te humilharem frente aos demais
Se não notarem a beleza da sua luz
Se você for injustiçada, caluniada, ofendida, menosprezada
Lembre-se:
Tem alguém te esperando
Talvez um filho ou um gato
Uma mãe ou um cão
Quiçá um marido que você, acostumada, não enxerga mais
Ou o porteiro que, apaixonado, espera o dia inteiro pelo seu boa noite.

DENTADURA CONCRETA

- SONHOS – anuncia o rapaz na bicicleta equipada com uma cesta na frente. Aperta a buzina, sorri e repete: – Sonhos, vendo sonhos!
Compro um. Recheio de doce de leite. O garoto tem tino e saquinhos estampados com nome comercial: PRIMAVERA SONHOS. – Um dia ainda abro minha própria confeitaria, tio! - Enquanto isso, pedala, sob sacos plásticos, na chuva. Sinto muita pena dos negócios que já abrem destinados à falência. Não falo de empresas, conglomerados, esse papo de empreendedor etc e tals. Eu vejo é a pequena porta aberta com dois ou três litros de cachaça; ou a outra com algumas balas e uns sacos de pipoca: a imagem da santa atrás de uma vela acesa; ou, ainda, a loja de salgados com duas ou três coxinhas na estufa. Por trás de cada porta fechada, há muita esperança enterrada, muito sonho sem caminho. A dor de ser gente e de tentar, com as próprias mãos, sustentar a vida e as crias. Sonhos simples suicidados pela sociedade. Lembro do meu amigo Chapolin, que era alcoólico e tinha epilepsia. Numa queda, perdeu todos os dentes da frente. Em outra, perdeu um pedaço do nariz. Aí começou a frequentar reuniões e parou de beber. Sentados em frente ao bar do meu pai, tomando tubaína, ele disse: - Meu SONHO é conseguir uma dentadura, Dani. – sorriu, escondeu a boca com a mão, continuou: – Quem sabe assim eu consigo arranjar uma namorada. Declaração dolorosa de solidão. Também, eu judiava dos bêbados: só tocava música de corno. E só sabe mesmo o valor de uma dentadura quem já foi banguela. Com o tempo, Chapolin arranjou um trampo de ajudante e conseguiu não só a dentadura, como também uma bicicleta. Consequência natural, veio a namorada, mas ela era bem velhinha e ainda bebia e ele não mais. Depois de uma queda, a bike espatifada, o relacionamento terminou.
Enquanto me lembro do Chapo, vejo o ministro da fazenda explicando na tevê como vai ser bom perder direitos trabalhistas e meus amigos de esquerda discutindo no Facebook, preocupados com a FLIP, com o fechamento ou não da Avenida Paulista: “mais valia, événement, fascismo, Foucault, manterrupt”. Não é à toa que ainda se trocam votos por dentaduras. A dentadura é uma coisa concreta.

FOLE DO INFINITO

Eu sou
Uma verdade submersa
E
Através da fenda
Sopra o fole do infinito.

PORQUE NÃO LEIO MAIS

Os pensamentos de uma época não estão na cabeça de um homem ou mulher; estão no tempo. Ainda assim, os pensamentos precisam de um pensador, o qual não é ponto de partida, mas passagem. Quanto menos o pensador se intrometer na ins-piração, melhor. O pensador é, enfim, aquele que se esvazia do eu-que-vem-de-fora para encontrar, por dentro, aquilo que é. E, quanto mais se esvazia, mais se torna quem é. O relâmpago é intuição, sussurro do Outro; o resto é construção, argumentação, bagagem, trabalho. O Quixote, o Grande Sertão estão de pé sobre a dobra, em estado de dicionário e transparência. E então vem um ser cuja vida foi vivida sob o vértice da obra e a atualiza: transforma a narrativa impossível em palavra e papel; em grande parábola de um período histórico e, para além, da própria condição humana. Aí está a diferença entre a Arte e o panfleto. O panfleto é só histórico, quase banal. Ao passo que a Arte tem uma face voltada para o tempo e outra para o eterno. Pode entrar no mundo, a Arte, por meio da pena de um ser de minoria, mas aponta também para o drama de toda a humanidade: ou os filhos do Gugu Liberato também não ficaram órfãos? Quase tudo o que se chama literatura hoje é panfleto; e de péssima qualidade. De boas intenções o mercado editorial está cheio e, no entanto, nada nos toca. Não há uma única frase que nos tire do automatismo espiritual. Caminhamos feito zumbis – essa sim a grande parábola de nosso tempo –, conduzidos por desejos colonizados, fabricados por empresários e marqueteiros do inconsciente. E trabalhamos o ano inteiro para curtir viagens que outros programaram em nós, para satisfazer necessidades que nunca tivemos. (Tenho mesmo uma amiga cujo sonho não é ir à Meca, mas às sete disneys espalhadas pelo mundo: já tem mais de quarenta anos e visitou quatro.) E, se, por um lado, temos os conglomerados para a colonização do desejo; por outro, temos as infindáveis reuniões para descolonização dos mesmos; o que, no fim das contas, dá no mesmo. Não se pode terceirizar a existência. O partido, o pastor, o coletivo, o grupo não podem decidir por nós. Parece não haver vida em lugar algum do mundo. E mesmo a morte já não é suficiente, porque ela não nos desperta mais para a grandeza da travessia. Continuamos dormindo, pensando na Disney, ou numa bolsa de marca, ou em fazer sucesso (hoje essa palavra me dá náusea). Mesmo na UTI, não acreditamos mais na morte. Só honra a vida quem tem a grandeza de sua solidão. Todas as respostas estão em ti. Vasculha teu coração e descobre quem és. Qual é o sussurro do teu vazio. Caso contrário, serás um feto abortado (de esquerda, ou de direita; católico ou protestante) que viveu até os oitenta anos. Só vive quem não foge da dor e tem a grandeza de decidir por si mesmo a todo momento: dois ou três entre os sete bilhões de seres humanos do planeta. Um livro escrito por eles é que seria digno de leitura, mas eles não escrevem; estão ocupados sendo.

O INCONSCIENTE

Vai vendo como o Diabo é sujo: o cabra esconde segredo a vida e, quando está no fim, na quina do abismo; vem o encardido: revela. A gente olhando os velhinhos não imagina que. Pensa logo que a vida toda foram santos, mas qual? E o que era escândalo e tragédia numa geração; duas ou três depois, vira piada. Pois sim. Pelo certo. Não somos todos humanos? Foi, sim, escândalo quando minha avó fugiu com um primo de meu avô, cinquenta anos atrás. O velho, moço à época, percorreu caminho, chegou mesmo à divisa com a Bahia, em busca; nada. Depois voltou, trancou-se no quarto e nunca mais. Dizem que o choque foi tão que perdeu o tino. Tresvariou. Não era sempre; vezenquando. Lembro d’eu menino, com medo do velho, brabo, postado em montaria, gritando:
- Aquela mulher cagô minha vida!
Passava o tempo, passava. Recolhia-se. Depois que vovó fugiu, vovô trancou o quarto em que dormia com ela e ninguém nunca mais, só ele; até antontem, quando tia Maria. E hoje o velho seguiu, pro outro, em transparência. Mas sim, quando tia Maria abriu a porta e mostrou o quarto - eu junto - tudo estava em perfeito. O velho mesmo varria o chão, arrumava a cama, mantinha tudo como. Só que tinha um papel de parede muito mal colocado, o qual dali não era. Tia Maria puxou de uma ponta e foi arrancando, às pressas, tensionada. Eu peguei da outra e também. Quando descobrimos toda a parede, veio à tona um mosaico, mural, um relicário inteiro dedicado à mulher que o tinha abandonado no verão de meia oito. Era vovó sentada, de pé, deitada sorrindo e de vestido, de calça, em montaria. De tudo quanto é.
Vovô jamais recasara. Dedicou três quartos da vida ao sofrimento. A ausência da mulher que amou era ainda mais profunda que a presença dela quando. E conduzia seus passos

SHAKESPEARE E SCORSESE



Leio as dark plays, de Shakespeare, como se fossem um único livro, mas minha sentença preferida (e de Faulkner também) não está na mais célebre das peças: Hamlet; mas em Macbeth. Depois de traições, ciladas, assassinatos, tudo em nome do poder, a Literatura nos brinda com esta constatação: “Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Morta. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Assistindo ontem ao filme O irlandês, lembrei deste trecho. Todo o enredo é narrado a partir da visão do irlandês, personagem de Robert de Niro, já à beira da morte. Na dobra, o personagem se questiona sobre o sentido: o que é o desejo? O que é o poder? Pra que toda essa comédia? “Como foi que tudo isso começou?” O narrador em si está mais próximo do Eichmann, de Hannah Arendt, uma vez que cumpria suas tarefas sem se questionar, desde a guerra, ainda que a tarefa fosse o assassinato; não há qualquer remorso diante do padre. Por outro lado, ele se pergunta o porquê de tanta violência e luta e tudo o mais se a cada geração um mundo morre? Jimmy Hoffa (Al Pacino), por exemplo, foi um lendário presidente do sindicato dos caminhoneiros nos EUA; na própria película é dito que nos anos 50 ele era como Elvis e nos anos 60, como os Beatles. Ao mostrar uma foto sua com Hoffa para a jovem enfermeira, o irlandês percebe que ela não tem a menor ideia de quem seja. Então, de que valeu tudo aquilo? A busca pelo dinheiro, pelo respeito, reconhecimento, poder, o “meu sindicato” se, no fim das contas, vem o Diabo e leva tudo e o tempo apaga qualquer rastro? Isso é Macbeth revisitado, é o drama do homem depois da Modernidade, quando Deus se recolhe.
Ainda que não se creia na transcendência da alma, acho que o que vale na vida são a solidariedade e a alegria; em outras palavras, o amor; e não porque há um paraíso depois, mas porque faz da travessia aqui algo mais fácil e prazeroso. Amor que o personagem de De Niro perde, uma vez que a filha – que tem um papel discreto, mas central – não quer vê-lo nem pintado de. Durante toda a vida, o irlandês focou sua energia em coisas secundárias. É comum. Simplório. Onde foi que nos perdemos? Como cantou MacCartney: “and in the end, the love you take is equal to the love you make”.
Em tempo, outra "reflexão" importante que o filme nos traz é a seguinte: em política, não existem anjos: nem os Kennedys, nem os Lulas e muito menos os Bolsonaros.

DU

Há uma praça em frente ao local onde trabalho – a Mãe Preta - e o Du vive nela. Às vezes, quando estou regando as plantas, ele para, puxa assunto, comenta a respeito da sabedoria da natureza: “Tudo que a gente cuida, se desenvolve” – disse outro dia. As coisas que diz são muito coerentes e, por vezes, até sábias. A gente quase não acredita que as palavras estejam saindo do quixote à nossa frente. Como disse Apolônio sobre Hamlet: “parece loucura, mas há método”. O método do Du é estar contente; tanto no sentido da alegria, como no de estar contentado. Ele nada espera: existe apenas e há muita dignidade em existir e, essa sensação de ter tudo que se precisa é o dínamo da felicidade. Como eu, o Du gosta de escrever: em cadernos, guardanapos, jornais velhos, sacos rasgados de pão. Quando consegue tinta, escreve no chão da praça, nas árvores, no asfalto, pelas calçadas ao redor. Organiza o interior por meio da palavra e da ordem. Cada coisa em seu devido lugar. Parece bagunça, mas há método. Tudo o que ganha ou acha tem o canto certo para geração e circulação de energia, produção de beleza. Tem um senso estético singular e apurado: “A roseira tá bonita, Professor, mas se tivesse pintado o pneu de branco ficaria mais bom.” Du junta lixo, mas varre a praça. Quando ganha comida, come. Quando não ganha, pede. Às vezes, compra um corote de pinga e se embriaga; outras vezes, quando a alegria extrapola os vasos, amarra garrafa num barbante e corre pela praça fazendo embaixadinhas. Como é dezembro, enfeitou seu cafofo com um Papai Noel de antenas: “É alienígena, Professor!” Descobriu o segredo, ser – E SÓ - já é motivo para alegria e dignidade. “E tem tanta coisa bonita pra gente ver! E mesmo as feias têm seu encanto!” Eu observo, escuto, aprendo.
- Tome aqui, Du, cincão, mas não vá encher a cara de pão, hein?
- Boa, Profe, Papai Noel chegou mais cedo.
E aí ele tira uma única lente escura do bolso e ajeita no boné para a foto.
- Tô bonito?
- Demais da conta.
Condição de maluco; ofício de poeta. Os loucos salvam diariamente o mundo.

VÍTIMAS

Não preciso ser perdoado
Às vítimas conheço bem
Eu as vi, no olhar da criança a cuja festa de aniversário ninguém foi
Eu as vi, nas mãos dadas dos rapazes negros espancados
Na mãe abraçada ao filho morto para sempre
No desmantelo do funcionário público entre coisas defuntas:
Uma cadeira, uma mesa, um arquivo, computador, um extrato bancário
A garrafa de vinho fechada no armário
E o cão atropelado no acostamento.
As vítimas, eu as conheço
Foram maltratadas no amor e quando se conheceram já era tarde demais
Estavam feridas, céticas, vazias de sonhos e esperanças
As mãos ainda teciam a fina colcha
Mas o coração estava exilado, oco, despejado na latrina feito penico de velho
E os amigos já não as reconheciam, posto que preferiam o pus à companhia
Eu poderia falar de Deus e da alma
Mas cheguei tarde e a porta estava fechada
As ruas vazias
A festa tinha acabado e eu era um canhão ainda quente do disparo.
Tanto e tanto e ainda é nada
As vítimas estão no transporte público
Diante dos juízes protocolando divórcio
Ouvindo Janis Joplin aos quarenta dentro de apartamentos
cujos alugueis não foram pagos
As vítimas gemem, tremem, soluçam
Reconheço-as pelo olhar
pelos cabelos ralos
Os corpos longe dos padrões estabelecidos
Ora gordos demais, ora magros ao extremo
Algumas vítimas desistem, outras lutam; terceiras ainda anseiam
O quê?
Lápis de cor, globo de espelhos, uma dança sem futuro
As vítimas descobriram há pouco que o amor é vingança,
ódio fantasiado para o carnaval
E nada existe além da solidão. Nada.
Não, não sou algoz
E não preciso ser perdoado.

DIVÓRCIO



A gente sabe que a única coisa permanente é a mudança, que para que o novo nasça é necessário que o velho morra e, ainda assim, se pergunta: precisava doer tanto? E, às vezes, quando bate o vazio de domingo, a gente não sente necessariamente saudade da pessoa, mas do amor, do começo, daquela magia que é encontrar alguém e estar pleno e ficar deitado o dia inteiro, fazendo amor, comendo chocolate e conversando; comendo chocolate, conversando e fazendo amor... Misturados num tanto de suficiência e compreensão. E aí, quando a gente conta uma coisa feia que fez e fica com medo de perder, a pessoa amada sorri e nos abraça e acolhe nossa sombra, tanto quanto acolhe nossa luz. E, então, o tempo. Os erros. A gente fere mais quem está mais perto: o trânsito, os prazos, as dívidas, o álcool, as frustrações, presepadas, pressa-pressa-pressa; tudo isso acaba tendo por destino quem caminha ao lado. E a gente, acomodado, nem percebe. Quando ocorre o divórcio, a gente se pergunta onde a magia do início foi parar? Não era mentira aquela vontade de ser bom e se doar, aquela gana de ser todo para o outro. Uma mistura de culpa e raiva se instala e nos sufoca. Os dias estendem-se. Uma única segunda-feira parece durar todo o mês de agosto e chove. Sempre chove. Mas a chuva, não percebemos, faz parte da bolsa que envolve o bebê. No útero do tempo, o Novo cresce. As coisas se transformam e o Amor muda. Como um grão, o amor tem de morrer pra germinar: morre e nasce trigo, cresce e morre pão – e o pão alimenta o homem que semeia outra vez a terra. Tudo se movimenta em espirais! A gente revê o passado e percebe o quanto foi bom. Aquilo que ainda outro dia era mágoa, torna-se ternura: amor de irmão. E a gente quer ver o outro bem; quer que ele realize os sonhos, que obtenha reconhecimento e dinheiro, que encontre alguém bom. Aquela que era amante é agora nossa irmã. Sexo a esta altura seria incesto. Por outro lado, a gente fica feliz em saber que é parte da vida um do outro. Morta paixão, o amor ganha contornos definitivos e o coração se abre para novas flores. Cada casal é único. O jardineiro é o mesmo, mas rega de modo diferente as tulipas e os girassóis. O coração rejuvenesce, reveste-se de véu, esquece o medo de amar de novo. Tudo se movimenta em espirais! E lá vamos nós. Estamos vivos e a alegria nos acena vestida de bruxa. Sem mulher, o homem fica órfão.

ASAS

Quando criança, vivia num orfanato. Em tempo de piolho, tinha a cabeça raspada, o que era duro para uma menina em devaneio. Não havia princesas carecas; modelos tampouco. Adulta, ao ser diagnosticada com, recusou o tratamento e não havia outro motivo a não ser o apego às madeixas. Com muito custo, uma rede de mulheres convenceu-a, talvez tarde demais, a lutar. Ao caírem-lhe os primeiros cachos, contudo, viu brotar nas costas as penas primevas.
E até hoje ninguém descobriu se ela, no fim das contas, transformou-se num pássaro ou num anjo.🌻

DEMIS ROUSSOS



Tudo aquilo que não é alimentado, morre. Até a melancolia. Quando fui poeta, bebia a noite inteira nos bares do centro de Assis e voltava pra casa pouco antes do dia amanhecer. Na madrugada, meus pensamentos ganhavam as pernas e eu gostava de caminhar pelas ruas vazias. Vez por outra; um gato, um cão, ou um fantasma cruzavam meu caminho. Sabe, minha saudade é mórbida feito obesidade; nunca está saciada; vaso vazio, beliscão na beira da alma. Chegava ao meu quarto, número catorze da moradia estudantil, quase-manhã, e ficava olhando os caminhões subindo a Raposo Tavares: cada caminhão, um caminhoneiro; cada caminhoneiro, um universo. Putas fumando crack na beira da estrada. Crianças dormindo em barracos de madeira. Quão distante pode o nosso coração chegar? Eu sentia o mundo inteiro. Arte não é questão só de interioridade. É questão de mergulhar e chegar até o ponto em que o eu é outro. Mais que empatia. Sentir fora. A gente existe é dependurado no Mistério. Há um verso do Drummond: “E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana”. Feito gato brincando com o rato, eu farreava com a tristeza do mundo. A tristeza, essa dor funda que é como uma machadada no meio da gente, tem uma dimensão transcendental. Quando vamos até o fundo mais fundo, rasgamos a lona e chegamos ao outro lado: o fundo torna-se então superfície. No cara ou coroa, escolhemos o lado de uma moeda sem lados. E me lembro do Parque de diversões no Itaim Paulista, onde hoje é a Loja Marisa: pipoca, algodão doce, meus quinze anos de boy e, de repente, Demis Roussos cantando alto no meio da tarde periférica: o milagre de se ter uma alma e a alma ser tocada por uma canção. Já não era então uma namoradinha, mas minha própria alma quem dançava comigo; lenço azul carregado pela brisa, cor clara dançando delicada no nada. Alma: sinônimo de nossa delicadeza. Ontem eu estava dirigindo, no fim da tarde, por uma rodovia. Havia nuvens carregadas no céu e, mesmo assim, o sol de mil tons encarnados. A sensação voltou: um casamento desfeito, dois filhos, mais de quarenta anos. Minha saudade vem antes, depois é que surge o acontecimento. A mesma epifania de Assis, daquela tarde no parque de diversões em 1995... Era como escrever três vezes o mesmo poema, sem tê-lo decorado e sem mudar uma vírgula. Era a alma tocando o eu de novo. Neste estado de Deus, de existir no interior do Amor, ficou difícil dirigir. Parei no primeiro posto. Bebi um café. Fui ao banheiro. E chorei.
Qual é a raiz quadrada de um ser humano?
Quando foi que me deu esse defeito de amar assim?🌻

VOLANTE

Você sabe que, na periferia, a gente pode até ter um pouco de dificuldade-desinteresse de aprender Português, Ciências ou Matemática; mas o que ninguém tem mesmo é desinteligência pra guiar um Opala, ou empinar uma moto. Gosto de dirigir. Se você quer saber, o livro que mais reli durante a jornada foi o On the Road, do Kerouac. Não tive muitos carros e nunca consegui comprar o que queria. Gosto mais de carros antigos, saca? Uma vez, até fui ver um Maverick lindão, todo original; mas acabei voltando com um Up, porque é mais econômico e eu tenho filhos pra criar. De motorzão de foguete a motorzinho de dentista; fazê o quê, né? A vida tem dessas coisas.
Houve um tempo em que eu trabalhava do outro lado da cidade e, nos dias de chuva, ia de carro. Eu ouvia minhas canções, olhava os pingos no para-brisa, pensava na vida, na infância, nos buracos negros, em Deus, no sentido de tudo isso aqui; brisava, ora pois... E até perdia a vontade de trabalhar, porque a imaginação floresce atrás do volante. Meu filho João é igualzinho; temos até uma coleção de miniaturas: de Chevete e Santana a Corvete e Marta Rocha.
E aí, outro dia, estava vendo o documentário do Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue e descobri que o Dylan também gosta de dirigir. Era ele mesmo quem conduzia o ônibus da turnê. Você imagina quanta coisa ele deve ter começado a criar ali, atrás do volante. É que quando a gente dirige, entra meio que em estado meditativo; ao mesmo tempo em que estamos completamente atentos, também damos espaço para que o inconsciente desabroche.
No princípio, eu queria era ter mesmo um carrão antigo, quando pudesse. Neil Young tem uma coleção deles. Hoje tenho preocupações ambientais e tento fazer ao menos minha parte. Recentemente, li um artigo sobre a nova Kombi, elétrica, e fiquei pensando que daqui a uns vinte e cinco anos, quando me aposentar, ela já não vai estar mais tão cara. Em sonhos me vi numa Kombi elétrica, toda equipada pra servir de moradia, percorrendo as praias do Nordeste, as montanhas de Minas, as planícies do cerrado, a floresta amazônica, chegando até o Peru, às margens do lago Titicaca... E uma velhinha companheira pra beijar antes de dormir. E o som no talo tocando Credence Clearwater Revival! Sonhar não custa caro.

CANÇÃO AOS OUTROS

Não tenho ídolos
Títulos e honrarias não me interessam ou impressionam
Libertei-me do meu próprio julgamento e da necessidade de reconhecimento alheio
Por ser flauta, eu poderia criar – e crio – o que quisesse,
Mas não me importam críticas ou elogios
Como louco, escrevo e jogo fora
Como rosa, desabrocho e de mim me olvido
Todas as minhas ações são uma oração ao Deus que mora em mim e me ultrapassa
E, quando digo “eu”, não há vã vaidade ou egoísmo
O eu-profundo é o mundo:
O menino caído
A árvore concretada
O cão abandonado na rodovia
O mendigo espancado
O assum preto com olhos furados só pra cantar melhor
Não me falem de política
Não enalteçam torturadores diante de mim
Tampouco me digam do Humanismo
É por erguer ao Homem um altar que a Terra tornou-se uma cloaca
Eu sigo é a vida
(O cântico alegre das plantas
O rabo ambidestro dos cães
O refrão do Bem-te-vi
O sorriso sincero das crianças)
E a vida não se justifica nas glórias da civilização e da sociedade
Mas no amor profundo à Terra
E no respeito e louvor a seus filhos:

UM VENTO BULIÇOSO



Aquilo que é humilhado é sempre o ego, nunca o Ser. Talvez não seja correto usar a palavra humilhação, mas a expressão “posto em seu devido lugar”. É que o ego é uma excelente ferramenta; o problema é quando tenta fazer como Cláudio, tio de Hamlet, e usurpar o trono. Todos nós somos multidão, mas aquele que conduz a carruagem deve ser sempre Krishna, Cristo, o Ser, a centelha divina. Então, ontem, por ser meu primeiro diz de férias, resolvi subir uma pedra. Gosto disso. Mais que esporte, trata-se de um exercício espiritual. No alto de uma montanha, a gente ocupa outra vez o lugar de criatura. É difícil dar valor excessivo ao eu quando você está sobre uma pedra de três bilhões de anos. Ainda assim, sobre a matéria sólida, você vê caminhar uma caravana de formigas; e percebe que a Divindade está inteira tanto na rocha, que impassível observou gerações, quanto na menor das formigas. Tudo aquilo que é, é digno. E dignidade é bem diferente de vaidade. É olhando do alto de uma montanha que a gente percebe o quanto é minúsculo e, ainda assim, único, raro: digno.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.

DESEJO-LHE O MELHOR



Vai vendo como o Diabo é sujo. Quando conheci Ana, ela já estava com passagem comprada para a Inglaterra, onde estudaria por dois anos; mas um coração serve mesmo é pra gente se apaixonar e não deu outra. Todas as outras eram vaidosas, quase artificiais. Ana não. Ela nunca se maquiava ou pintava as unhas. Era o que era e daí vinha todo seu encanto e magia. Naquele tempo, eu tocava baixo numa banda e ela começou a me acompanhar em todos os ensaios.
- Você vai ser meu John e eu serei sua Yoko.
- Mas quem tocava o baixo era o Paul.
- Então serei sua Linda.
E ela se sentava ao meu lado no sofá rasgado e me ouvia tocar. E eu a via e tudo nela era tão. Colamos, ora essa. O tempo era curto. Em dois meses, ela cruzaria o Oceano. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto. Ao lado dela, eu me sentia como se estivesse com um amigo. E dizia tudo o quê. Ela também. Não tínhamos segredos; sequer sexuais. E a cama nos era suficiente. Às vezes, ficávamos dias deitados, revezando sexo, razão e chocolate. Paixão da grossa.
Uma noite, na cama, depois de termos devorado uma melancia gelada, o rosto dela se iluminou como se fosse tocado por uma luz sobrenatural, e meu coração se expandiu como se, e eu falei:
- Vou sentir sua falta quando você for.
- Eu também.
E sabe o que aconteceu depois? Chorei, lagarto. E ela me ofereceu o seio como se eu fosse uma cria faminta.
No dia final, fui levá-la ao aeroporto e nos despedimos apenas com um beijo no rosto.
- Desejo-lhe o melhor, Ana.
- Você não sabe onde eu estava quando me encontrou. Não havia luz lá, meu amorzinho. Você me salvou.
Avianca.
Olhos cheios de água.
Dali a dois anos, já não seríamos os mesmos. Esconderijos. Também o amor é uma questão de tempo. Ou acontece na hora exata, ou se perde. Às vezes você viaja e encontra, em uma parada qualquer, a menina que tem aquele olhar, mas ela está indo no sentido oposto ao seu...
Enfim, dali por diante, nenhum de nós seria o mesmo. Todo encontro nos acrescenta; seja pela dor, seja pelo prazer.
Como é rico viver!

OS OLHOS DO ASSASSINO



Há noites nas quais tenho dificuldades para dormir e, em muitas delas, alta madrugada, fritando feito sardinha entre os lençóis, levanto irritado, com o intuito de matar algumas muriçocas e - derrotado - ligar a televisão. Ontem foi uma dessas. Zapeando, alta madrugada, chovendo forte lá fora, topei com uma película estranha que estava começando. Parecia algo do expressionismo alemão, dos anos vinte; silhuetas distorcidas, cenários fúnebres, a fotografia, a ausência de som; tudo-tudo levava a crer que se tratava de um filme centenário, ou quase; uma ficção científica. O título, não sei se fiel ao original, era Os olhos do assassino. Na trama, um médico, após grave acidente, sofre um transplante de olhos - cirurgia que parece antever o transplante de córnea - e recebe os olhos de um assassino. Aos poucos, após o transplante, o médico começa a mudar. Primeiro se torna pessimista, depressivo, vê em todos os acontecimentos o lado negativo. Como se fosse consequência natural de uma visão sombria do mundo, o protagonista se torna violento. A princípio, agride a família com palavras; em seguida, fisicamente. Por fim, mata a todos, e torna-se um criminoso, uma espécie de serial killer. Quando desliguei a televisão, um dia nublado amanhecia. Perturbado, escovei os dentes e voltei 'a cama. Fechei os olhos e suspirei, mas quem foi que disse que consegui dormir?

E O CORAÇÃO É UM BAILARINO

Anteontem, comemoramos o nascimento de uma criança há mais de dois mil anos em Belém. Como tudo mais que fazemos, no entanto, a comemoração era como o sonho de um sonâmbulo. É que agimos pela tradição, porque os pais de nossos avós faziam assim, porque todos agem assim. É mais o instinto de manada que o nascer do Cristo que nos leva a comemorar o Natal. Quase nunca nos perguntamos pelo significado e, quando o fazemos, aceitamos a resposta de terceiros, não investigamos nosso ser para entender o que o nascer dessa criança nos diz. É em nosso coração que o menino nasce diariamente, é o nosso coração que tem de renascer criança. O coração da criança diz sim e não, mas não visa o lucro. A criança conversa com as flores e ama o que é. A criança é boa e não sabe de moral. Sua bondade não é uma luta entre o espírito e o corpo, mas o fruto de sua integração com todas as cores do mundo. O que se pode aprender de Deus numa Igreja pintada de cinza-escuro, cheia de gente séria, coberta da cabeça aos pés, reprimindo seus desejos? Nada. Deus é simples – você pode dar a ele a máscara e o nome que quiser – e habita os corações alegres. Toda tormenta é distância de Deus; mas, como disse o outro, o mais profundo é a pele e, quando parecemos mais distantes do Amor, mais próximos estamos. A tormenta é a pedagogia pela qual Deus nos oferece o seio. E digo sem medo de errar que quem não clamou é que não sofreu ainda. Não é no comércio com os homens que a criança se manifesta: Cristo não foi crucificado pra me presentear com um carro zero; pelo contrário, é na ação sem qualquer interesse, sem necessidade de plateia, ou lucro, que o menino dança em nosso coração. O natal representa então, em mim, o desejo de servir, de cuidar, a humildade, o amor, a ausência de interesse, de desejos egoísticos. E todo dia é Natal quando ajudamos o vizinho a aparar a grama, ou quando tomamos café e perguntamos pra atendente de olhar triste se está tudo bem, se ela está precisando de alguma coisa. É Natal quando fazemos algo por alguém apenas por fazer. E quando o menino põe na rua os pés descalços se encanta com a dança das andorinhas, com a solidez das pedras, com a vastidão do mundo. Natal é ter o coração contente, é dançar, é cuidar e servir. É ter a dignidade de, sendo o Mestre, lavar os pés dos discípulos. O nascimento dessa criança simboliza em nós a conciliação com o Deus-Juiz e nos faz dançar nas ruas, junto ao Deus dos nãos, porque agora já não temos corpo, somos inteiros coração e o coração é um bailarino.

UM CRISTÃO CARRASCO



No futuro não poderemos dizer eu não sabia: o golpista sempre conta com a ganância de sua vítima. O drama se repete como farsa. Há, no fundo de todo ser humano, uma dor, uma ferida, uma falta, uma saudade danada de não sei o quê. No passado, as religiões concebiam esse lugar como passagem para o sagrado; mas o tempo e a História, nós sabemos: penso, logo existo; cientificismo; materialismo rasteiro; Deus está morto; o homem – o homem – o homem; esquecemo-nos que a gente acontece é dependurado no Mistério. Por muito, a angústia foi o caminho para a fé; com o passar e a secularização de tudo, a riqueza tomou o lugar. Já não suportamos a falta e buscamos preenchê-la. Acontece que essa fresta é o lugar por onde ouvimos o sussurro sagrado e, abarrotá-la de, só nos faz ficar mais surdos e mais feridos. O capitalismo entendeu rápido a fenda e usou-a como lugar da oferta. Bastava oferecer ao cidadão algo que prometesse preencher este hiato que o "cliente" compraria. Acontece que tudo que se tem e se conquista não preenche o vazio; o qual é mesmo – e já – Deus, feito a foz de um rio, cujas águas se confundem com as do mar. Muitas Igrejas que aí estão não oferecem o sagrado; mas Deus como meio de se conseguir coisas bem mundanas. É uma mistura aloprada de livre mercado e religião, com o Estado servindo cão de guarda da propriedade. E aí acontece o absurdo de se rezar para pedir um carro melhor que o do vizinho, uma lancha, uma viagem ao exterior... e tudo isto é pedido em nome de alguém que foi torturado e morto. É desonestidade espiritual (e muita) da vítima. Vários líderes dessas Igrejas apoiaram isto que está no poder e levaram consigo seus fiéis, os quais abriram mão da liberdade para não ter a responsabilidade por seus atos, só que não. Jesus disse coisas muito simples e resumiu tudo num só mandamento: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Como alguém que defende a tortura e a morte pode se dizer cristão? Não é o Cristo que Bolsonaro defende é a propriedade. Toda a vida poderia ser o tempo de ajustarmos nossa conduta aos propósitos maiores que você pode chamar de Deus ou Humanidade; mas gastamos a vida querendo ajustar a conduta do vizinho que é gay, da vizinha que usa minissaia, dos moleques que ouvem funk. Amai ao próximo como a ti. Primeiro é preciso se amar, sem vaidade, reconhecer em si a dignidade de um ser que é - sem necessidade penduricalhos. A partir daí, reconhecendo em mim a ferida primeira, é fácil ver que o outro também vem ferido, precisando de abrigo e compreensão. Não tem erro e, se a coisa complicar, é só ficar ao lado dos mais pobres, dos injustiçados, dos mais fracos, dos perseguidos. Foi o que Jesus de Nazaré fez.

A MALDADE JÁ VIMOS DEMAIS

Quando eu era menino, Dona Norma já era idosa. Pense numa pessoa difícil! Pois era Dona Norma! Nunca gostou de nenhum vizinho. Se estávamos brincando na rua e a bola caísse no quintal dela, era bola morta, porque a velha pegava uma faca e. Na nossa frente e tudo. Sem dó, nem. Depois jogava os pedaços no asfalto. Os vizinhos diziam que ela nem sempre tinha sido assim. Fora uma moça muito alegre e altiva; mas, depois que o marido, desgostou da vida. Nem o filho a visitava. Assim que ganhou corpo de homem, partiu para e nunca mais. Sobre Dona Norma, mais três coisas: é magra, pinta os cabelos de vermelho e fuma o tempo inteiro. Agora, Alice.
Há uns cinco anos, o filho de outra vizinha se casou e comprou a casa ao lado da padaria. Umas quatro ou cinco casas depois da casa da Dona Norma, descendo a rua. Deste matrimônio, nasceu Alice, que hoje deve contar uns três aninhos. Pois bem, ninguém nunca soube que Dona Norma gostasse de criança; pelo contrário, só que Alice, tendo aprendido a andar e falar, passou a esperar Dona Norma todos o dias, no portão. Dizem que, a princípio, a velha sequer respondia, mas a menininha é insistente:
- Oi Do’a Noma, bô dia! – Oi Do’a Noma, voxê vai a padaía?
Um dia, a idosa não resistiu e, ao voltar, trouxe um chocolate.
- Bigadu, Do’a Noma!
Foi a conta. Daí pra frente, todos os dias, quando vai comprar sua carteira de cigarros, Do’a Noma traz sempre alguma coisinha pra amiga. Quando demora, Alice grita no portão.
Ontem, quando saí pra pedalar, Dona Norma segurava um gatinho nas mãos e Alice acariciava a cabecinha. Cada uma de um lado do portão. Meu coração transvasou. Acho que 2019 não foi fácil pra ninguém; mas, ver esse gesto de singela delicadeza entre as duas, encheu-me de esperança para 2020. A maldade já vimos demais.

A NOITE MAIS LINDA DO MUNDO

Num tempo de Krill, Malta e Conti beer, ela me pagou dezesseis latas de Skol, numa festa, no campus da UNESP – ASSIS. De tarde, tinha feito calor; mas, no começo da noite, choveu. Mês de novembro. Naquela época, Rogê e Francisco ainda estavam. Naquela época, eu era um alcoólatra na ativa e ela me pagou dezesseis! Não era suficiente para me deixar, devo admitir, mas ajudava a atravessar a noite. Naquela época, vivíamos da Bolsa de Auxílio ao Estudante – dinheiro contado para o arroz-ovo e ela desfalcou seu orçamento para me pagar dezesseis. Eu, sem uma lata na mão, não cabia em canto. E ela sabia. E me amparou. Tivesse juízo, vazava na mesma. Ficou; ela, foi. Uma noite, assustamos a amiga: trocamos as camisas e, com elas, as personalidades: assumi seu modo de, a camiseta do Mickey, os trejeitos. Lembro da blusa branca com babados, antes da festa, da calça jeans, o sapatinho. E ela passando batom, diante do espelho oxidado, Betsebá, escovando os cabelos. Éramos muito pobres e muito lindos! Sonhávamos ser escritores, estudávamos o Francês. E atravessamos o pasto na ida e atravessamos o pasto na volta. Estrelas cadentes, a lua cheia, o céu de Assis, cheiro de estrume, castelos de ar: o ovo é o caos do pássaro, irmã. No palco, tocavam os Insetos. Eu tive um sonho estranho; paredes desmoronavam sob o peso.
E voltamos, foi, e fizemos, como fazíamos todas as noites, sob as cobertas. Foi.
Não dissemos. Oh, não!
Mas lembro ter pensado de mim para comigo: “acho que estou”.
Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval.

MATEMÁTICA



O pensamento é raro. Preocupação não é pensar. Ressentimento não é pensar. A culpa e o remorso não são pensar. O hábito não é pensar; a opinião pessoal tampouco. O pensamento acontece quando a mente vazia - oficina do novo - abre-se para receber o irreconhecível, o não-visto, o não-pensado, o quase-já. Ele, o pensamento, irmana-se aos bailarinos e às bolhas de sabão; tem a leveza e a força do olho d'água que rompe a linha de terra. Pensar vem de fora, mas nos atravessa como se fôssemos um instrumento bem afinado. Qual fora? O outro. Qual outro? Aquele do qual a parede nos separa, para o qual nos falta sentido, e, no entanto, nos sussurra o coração. E não alcançamos. E perdemos o fôlego. O caminho que leva à Verdade está vedado; na parede, porém, há pequenas rachaduras. Daí emana o quê, o nunc, o portanto, o instante-ahora - local onde dançam colados o que é e o que já não; o que é e o que ainda não. Tudo aquilo que é, guarda uma face proporcional do outro lado da parede-espelho. A alma é o jarro e a experiência é a água. O que se repete ou permanece é o jarro, não a água. Ou melhor, o que se repete ou permanece é o contorno vazio de um interior vazio onde poderia haver um jarro. Em todo camaleão, a Verdade se expressa como mudança; em todo leão, como autoridade; em todo pássaro, como canto. No ser humano, a Verdade se derrama. No menino, é inocência; no ancião, sabedoria; num homem força; no outro, esperteza; no outro, sinceridade; na mesma mulher astúcia e perdão. A humanidade é o topo não por dominar a Terra, por exauri-la e torná-la matéria morta; por tratar a mãe como puta. A humanidade é o topo porque é múltipla ao ponto de, no ser humano, toda a criação se observar e se pensar. É no homem que Deus se rejubila do que criou. O homem não é o animal racional. O raciocínio lógico é parte menor. Na onça pintada, a intuição se faz mandíbula e graça; no pavão, pintura, mas o ser humano é o único lugar onde a intuição se faz pensamento; a fonte onde a Verdade, cristalina, se faz palavra, onde Deus se faz poema.

ULTRALEVE

Quando nos anos noventa Leonard Cohen voltou de um retiro de seis meses na montanha, num bangalô sem luz elétrica ou água encanada, um repórter perguntou ao poeta pelas dificuldades que atravessara:
- Foi fichinha. Difícil mesmo é o casamento.
Embora pareça lugar-comum, toda prática espiritual nos incita a despertarmos a melhor versão de nós mesmos. Ninguém está aqui para corrigir o outro. Por mais equivocado que o outro esteja, não posso mudá-lo; não tenho qualquer controle sobre ele. Só tenho controle sobre minhas próprias reações diante das atitudes alheias. Há, então, dois caminhos num relacionamento: ou eu busco trabalhar em mim as imperfeições que vejo no outro, porque todo casal acaba por se tornar um pouco espelho; ou justifico minha inércia espiritual e meus erros por meio dos erros do outro. Isto quer dizer que o outro estará sempre certo? Não. Quer dizer que o outro – e seus erros – são meu espelho e lâmpada. Espelho porque enxergo no outro aquilo que o ego não me deixa ver em mim mesmo e lâmpada porque a convivência aponta senderos. No caminho monástico, encontro-me no confronto comigo mesmo. No caminho partilhado, descubro-me na lida comigo e com o outro. Não há caminho melhor ou pior, pois todas as trilhas espirituais levam ao topo da montanha, ao centro da própria alma. A alma é o paradigma, o Maior dentro de cada um de nós, e toda maldade é, de fato, distância dela. Quanto mais longe estamos da Fonte, mais o eu-egóico se torna poderoso. Não há outro Diabo senão esta parte de nós que sempre nos diz que somos imensos, que temos razão, que somos, de alguma forma, melhores que nosso semelhante. Crime e castigo trata disso. Todos nós convivemos com Deus e o Diabo diariamente: a alma e o eu-egóico. A primeira é generosa, humilde, criativa, delicada, luzidia, terna; o segundo, o contrário, e seu maior trunfo é esconder-se, é influenciar e ditar reações sem ser notado. Toda vez que é descoberto, no entanto, o eu-egóico, covarde e vazio, esconde-se nas sombras. Quando a luz da alma ilumina o demônio-ego ele se dissolve feito entidade de filme B. Todo peso no relacionamento é sintoma da doença egóica, porque o amor é leve - ultraleve - mesmo depois da tensão. Quando há amor e ocorre conflito, o conforto que sentimos depois, na reconciliação, é como o relaxamento que toma nosso corpo depois que sustentamos um asana difícil. Mas por que foi que falei tudo isso mesmo? Sim, o relacionamento. Ele pode nos levar a viver de acordo com a alma; ou pode nos levar a deixar que o eu-egóico cresça e conduza a carruagem do Ser para a tragédia. O outro nos ensina sobre perdão, generosidade, paciência. Ensina-nos inclusive a dizer não, a sermos assertivos. Ensina-nos até sobre desapego e sobre deixar ir. Quando a convivência já nada desperta de bom, é hora de ir ou deixar o outro ir. Neste mundo nada morre, nada nasce, tudo se transforma: o amor erótico, passada a tormenta do divórcio, se transforma em amor fraternal. Eros reveste-se de ágape. Em outras palavras, o amor é querer sempre ver o outro bem; é reduzir nosso tamanho para se realizar nas conquistas do ser amado; é doar-se. O resto é egoísmo, posse: o Diabo mesmo possuindo o coração da gente.