sábado, 4 de janeiro de 2020

OS OLHOS DO ASSASSINO



Há noites nas quais tenho dificuldades para dormir e, em muitas delas, alta madrugada, fritando feito sardinha entre os lençóis, levanto irritado, com o intuito de matar algumas muriçocas e - derrotado - ligar a televisão. Ontem foi uma dessas. Zapeando, alta madrugada, chovendo forte lá fora, topei com uma película estranha que estava começando. Parecia algo do expressionismo alemão, dos anos vinte; silhuetas distorcidas, cenários fúnebres, a fotografia, a ausência de som; tudo-tudo levava a crer que se tratava de um filme centenário, ou quase; uma ficção científica. O título, não sei se fiel ao original, era Os olhos do assassino. Na trama, um médico, após grave acidente, sofre um transplante de olhos - cirurgia que parece antever o transplante de córnea - e recebe os olhos de um assassino. Aos poucos, após o transplante, o médico começa a mudar. Primeiro se torna pessimista, depressivo, vê em todos os acontecimentos o lado negativo. Como se fosse consequência natural de uma visão sombria do mundo, o protagonista se torna violento. A princípio, agride a família com palavras; em seguida, fisicamente. Por fim, mata a todos, e torna-se um criminoso, uma espécie de serial killer. Quando desliguei a televisão, um dia nublado amanhecia. Perturbado, escovei os dentes e voltei 'a cama. Fechei os olhos e suspirei, mas quem foi que disse que consegui dormir?

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