Leio as dark plays, de Shakespeare, como se fossem um único livro, mas minha sentença preferida (e de Faulkner também) não está na mais célebre das peças: Hamlet; mas em Macbeth. Depois de traições, ciladas, assassinatos, tudo em nome do poder, a Literatura nos brinda com esta constatação: “Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Morta. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Assistindo ontem ao filme O irlandês, lembrei deste trecho. Todo o enredo é narrado a partir da visão do irlandês, personagem de Robert de Niro, já à beira da morte. Na dobra, o personagem se questiona sobre o sentido: o que é o desejo? O que é o poder? Pra que toda essa comédia? “Como foi que tudo isso começou?” O narrador em si está mais próximo do Eichmann, de Hannah Arendt, uma vez que cumpria suas tarefas sem se questionar, desde a guerra, ainda que a tarefa fosse o assassinato; não há qualquer remorso diante do padre. Por outro lado, ele se pergunta o porquê de tanta violência e luta e tudo o mais se a cada geração um mundo morre? Jimmy Hoffa (Al Pacino), por exemplo, foi um lendário presidente do sindicato dos caminhoneiros nos EUA; na própria película é dito que nos anos 50 ele era como Elvis e nos anos 60, como os Beatles. Ao mostrar uma foto sua com Hoffa para a jovem enfermeira, o irlandês percebe que ela não tem a menor ideia de quem seja. Então, de que valeu tudo aquilo? A busca pelo dinheiro, pelo respeito, reconhecimento, poder, o “meu sindicato” se, no fim das contas, vem o Diabo e leva tudo e o tempo apaga qualquer rastro? Isso é Macbeth revisitado, é o drama do homem depois da Modernidade, quando Deus se recolhe.
Ainda que não se creia na transcendência da alma, acho que o que vale na vida são a solidariedade e a alegria; em outras palavras, o amor; e não porque há um paraíso depois, mas porque faz da travessia aqui algo mais fácil e prazeroso. Amor que o personagem de De Niro perde, uma vez que a filha – que tem um papel discreto, mas central – não quer vê-lo nem pintado de. Durante toda a vida, o irlandês focou sua energia em coisas secundárias. É comum. Simplório. Onde foi que nos perdemos? Como cantou MacCartney: “and in the end, the love you take is equal to the love you make”.
Em tempo, outra "reflexão" importante que o filme nos traz é a seguinte: em política, não existem anjos: nem os Kennedys, nem os Lulas e muito menos os Bolsonaros.
Ainda que não se creia na transcendência da alma, acho que o que vale na vida são a solidariedade e a alegria; em outras palavras, o amor; e não porque há um paraíso depois, mas porque faz da travessia aqui algo mais fácil e prazeroso. Amor que o personagem de De Niro perde, uma vez que a filha – que tem um papel discreto, mas central – não quer vê-lo nem pintado de. Durante toda a vida, o irlandês focou sua energia em coisas secundárias. É comum. Simplório. Onde foi que nos perdemos? Como cantou MacCartney: “and in the end, the love you take is equal to the love you make”.
Em tempo, outra "reflexão" importante que o filme nos traz é a seguinte: em política, não existem anjos: nem os Kennedys, nem os Lulas e muito menos os Bolsonaros.
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