quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

Você quer saber o que nos esgota? Isso de ser humano. Em tese, ser humano é ter capacidade de escolher; de decidir e nomear o que é certo e errado. No entanto, isso, que também pode ser chamado de livre-arbítrio ou liberdade, mais que uma dádiva, pode ser uma maldição. Mal abrimos os olhos e já temos de decidir se primeiro escovamos os dentes, ou se acordamos o filho. Quando chega o momento das grandes decisões, então, estamos esgotados. Terminamos ou continuamos um relacionamento? Mudamos ou não de emprego? Desde Nietzsche, já NÃO temos o consolo de que, se estivermos ao lado do Bem, do Belo e da Verdade, estaremos escolhendo o certo; porque, como mostrou o filósofo alemão, todas essas coisas podem ser construtos sociais: o que é bom em uma sociedade, pode não o ser em outra. Nietzsche, bem como Freud, desconfia da capacidade da razão de escolher. Para o primeiro, o que nos guia, mais que a razão, é a vontade de poder; para o segundo, o inconsciente. Os pensadores da dúvida sobre a dúvida, nos dizem de instâncias anteriores à razão. Algo que algumas religiões antigas já sabiam. É Bergson, contudo, quem traz de modo sistêmico uma instância para além da razão como método: a intuição. Há no ser humano uma sabedoria anterior ao raciocínio lógico que pode ser chamada de elã vital. Em A evolução criadora, Bergson investiga como a vida é criativa. Feito a água, ela sempre cria um modo de contornar ou resolver os problemas que surgem. Isso desde as bactérias até os tigres. Em nosso corpo, agora mesmo, há uma sabedoria para além da razão, mantendo todas as funções vitais em funcionamento. O coração bate. Quem ordena? Essa instância subsiste no ser humano e se manifesta na gente sob a forma de intuição. O problema é que a mente racional, embora seja uma excelente ferramenta, faz um barulho danado e não nos deixa ouvir os sussurros desse saber ancestral. No taoísmo, hinduísmo e budismo, a meditação é um modo de calar a mente racional para ouvir essa voz interior que também pode ser chamada de Deus na gente. No cristianismo, temos a oração. Agora, voltando ao início, ao problema de ter de escolher. Na verdade, nunca decidimos nada, a gente se perde é no barulho da mente e nas armadilhas de sua máscara, o ego. Isso é o que nos esgota. No fundo, sempre sabemos o que é melhor de cara, mas tentamos analisar, e analisar, e analisar, e procrastinar; porque, muitas vezes, o que devemos fazer é o mais difícil. Na minha vida, tento fazer o seguinte. Quando tenho de decidir sobre algo, vou ao banheiro e respiro fundo, em silêncio, por uns cinco minutos. Assim que a primeira decisão se forma, eu a sigo, não contesto. E vou, uai! Todas as grandes criações humanas são, na verdade, impessoais. Elas surgem de uma intuição primeva; daí por diante, é trabalho da mente e do ego transformá-la numa teoria, num sistema, numa escultura, ou num poema🌻.

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