sábado, 4 de janeiro de 2020

CANÇÃO AOS OUTROS

Não tenho ídolos
Títulos e honrarias não me interessam ou impressionam
Libertei-me do meu próprio julgamento e da necessidade de reconhecimento alheio
Por ser flauta, eu poderia criar – e crio – o que quisesse,
Mas não me importam críticas ou elogios
Como louco, escrevo e jogo fora
Como rosa, desabrocho e de mim me olvido
Todas as minhas ações são uma oração ao Deus que mora em mim e me ultrapassa
E, quando digo “eu”, não há vã vaidade ou egoísmo
O eu-profundo é o mundo:
O menino caído
A árvore concretada
O cão abandonado na rodovia
O mendigo espancado
O assum preto com olhos furados só pra cantar melhor
Não me falem de política
Não enalteçam torturadores diante de mim
Tampouco me digam do Humanismo
É por erguer ao Homem um altar que a Terra tornou-se uma cloaca
Eu sigo é a vida
(O cântico alegre das plantas
O rabo ambidestro dos cães
O refrão do Bem-te-vi
O sorriso sincero das crianças)
E a vida não se justifica nas glórias da civilização e da sociedade
Mas no amor profundo à Terra
E no respeito e louvor a seus filhos:

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