sábado, 4 de janeiro de 2020

E MORRER NÃO É ACABAR, É EXPANDIR-SE

Do poeta Gottfried Benn: “Ao olhar para mim mesmo, eu percebo dois fenômenos, a sociologia e o vazio.” Adentremos para chegar ao Outro. Sobre a sociologia: há em todos nós um traço forte de identidade que vem de fora: é a sociologia. A criança se constitui a partir do contato com a placenta, com a mãe, a família, a escola, a sociedade, o mundo. Muito do que somos é voz de outro; ecos da mãe, do pai, dos irmãos, do avô, dos amigos, das pessoas que admiramos, da cultura na qual estamos inseridos: língua, livros, discos, lugares. A partir dessas vozes, surge aquilo que chamo de eu-egóico. Ele não é bom nem ruim: é. Partindo do eu-egóico, podemos solucionar pequenos problemas, funcionamos no mundo, guardamos os recibos para abater no imposto de renda e também sentimos, porque ele é memória e desejo: a primeira bicicleta, a primeira namorada, o acampamento na praia deserta com a mulher amada. É com base no eu-egóico, formado pela sociologia mencionada na frase de Benn, que nos movimentamos por dentro rumo ao passado ou ao futuro. Ele é um bom gerente, excelente ferramenta, tanto quanto os sentidos, os instintos, os anseios que dele mesmo brotam. O que ele não pode é ser o condutor da carruagem. No Mahabarata, quem conduz a carruagem é o avatar divino, Krishna. Nas minhas expedições em mim, Krishna, ou Cristo, ou o parâmetro divino, é o vazio. O vazio é o que está pleno de possibilidade, o eu-egóico vem de fora, mas há algo que já está no bebê que o organiza: o vazio, a pura possibilidade. Este vazio, também chamo de Alma, é o que explica o fato de dois irmãos gêmeos, educados do mesmo modo, terem personalidades diametralmente opostas. Com o tempo e o trabalho ininterrupto da sociedade, afastamo-nos do vazio (o Mal é mesmo a distância dele) e acreditamos ser apenas o eu-egóico e os pensamentos que surgem a partir dele. Só que não, o vazio é o Observador, o Outro, é ele quem é o puro presente e, portanto, eterno, e, portanto, imortal. O vazio é a forma pela qual se pode migrar, se for o caso, para outro corpo no tempo, ou aguardar em estado de presença do outro lado. O vazio é a luz da consciência que tem o poder de dissolver os pensamentos obsessivos. É o vazio-alma-outro-presença quem nos traz de volta quando o eu-egóico nos leva pra longe na meditação. É ele quem retorna ao mantra “Misericórdia” quando oramos. É uma imensa fonte de sabedoria. Em verdade, sabe todas as coisas, pois é a fissura no fundo da agulha que nos une à Divindade, a qual é o sentido das coisas mais díspares e une o escarro e a estrela. Até o vazio cheguei, e fui visitado neste umbral, mas não pude atravessar. Morrer é entrar outra vez pelo vazio e dissolver-se no todo.
E morrer não é acabar é expandir-se, divinizar-se.
E, quem tiver ouvidos, que ouça, porque isto é o que é.

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