sábado, 4 de janeiro de 2020

VOLANTE

Você sabe que, na periferia, a gente pode até ter um pouco de dificuldade-desinteresse de aprender Português, Ciências ou Matemática; mas o que ninguém tem mesmo é desinteligência pra guiar um Opala, ou empinar uma moto. Gosto de dirigir. Se você quer saber, o livro que mais reli durante a jornada foi o On the Road, do Kerouac. Não tive muitos carros e nunca consegui comprar o que queria. Gosto mais de carros antigos, saca? Uma vez, até fui ver um Maverick lindão, todo original; mas acabei voltando com um Up, porque é mais econômico e eu tenho filhos pra criar. De motorzão de foguete a motorzinho de dentista; fazê o quê, né? A vida tem dessas coisas.
Houve um tempo em que eu trabalhava do outro lado da cidade e, nos dias de chuva, ia de carro. Eu ouvia minhas canções, olhava os pingos no para-brisa, pensava na vida, na infância, nos buracos negros, em Deus, no sentido de tudo isso aqui; brisava, ora pois... E até perdia a vontade de trabalhar, porque a imaginação floresce atrás do volante. Meu filho João é igualzinho; temos até uma coleção de miniaturas: de Chevete e Santana a Corvete e Marta Rocha.
E aí, outro dia, estava vendo o documentário do Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue e descobri que o Dylan também gosta de dirigir. Era ele mesmo quem conduzia o ônibus da turnê. Você imagina quanta coisa ele deve ter começado a criar ali, atrás do volante. É que quando a gente dirige, entra meio que em estado meditativo; ao mesmo tempo em que estamos completamente atentos, também damos espaço para que o inconsciente desabroche.
No princípio, eu queria era ter mesmo um carrão antigo, quando pudesse. Neil Young tem uma coleção deles. Hoje tenho preocupações ambientais e tento fazer ao menos minha parte. Recentemente, li um artigo sobre a nova Kombi, elétrica, e fiquei pensando que daqui a uns vinte e cinco anos, quando me aposentar, ela já não vai estar mais tão cara. Em sonhos me vi numa Kombi elétrica, toda equipada pra servir de moradia, percorrendo as praias do Nordeste, as montanhas de Minas, as planícies do cerrado, a floresta amazônica, chegando até o Peru, às margens do lago Titicaca... E uma velhinha companheira pra beijar antes de dormir. E o som no talo tocando Credence Clearwater Revival! Sonhar não custa caro.

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