sábado, 4 de janeiro de 2020

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN – PUTA?

Lilás. Os três jovens sentados à mesa estavam na casa dos vinte anos, mas só o mais alto, loiro, parecia desamparado. Eram dois rapazes e a moça que perguntou:
- Há quanto tempo vocês estão juntos? Nem um ano, não é para tanto.
O desconsolado não levantou a cabeça, mas o amigo menor, negro, atalhou:
- Qual é? Reage, guerreiro. Seja rocha. Nenhuma mulher pode ser tão especial assim.
O loiro suspirou:
- Vocês não entendem. Eu nem consigo me masturbar pensando em outra pessoa. E tudo que eu faço: música que ouço, filme que vejo, flor que contemplo, queria repartir com ela. O mundo só encontra ressonância em mim quando posso partilhá-lo com ela. Se não, é o oco. Com ela eu me sinto o maior homem do mundo. Sem, viro buraco.
A menina continuou tentando consolar. Tocava flauta doce e tinha medo que o outro cometesse suicídio, como mais tarde.
- Mas você acha que não tem mais jeito?
O moço loiro soluçou. Engoliu. Balançou a cabeça para os lados. Sentia algo parecido com bicos de urubus arrancando nacos de seu coração-carniça.
A moça: - Nada pode ser tão ruim.
- Pode sim. A culpa. É tudo por minha culpa, Cinthia. Caguei tudo. Liguei bêbado. Ofendi. Xinguei de. Perdi. Para sempre.
O amigo negro, magro, baixo, permanecia em silêncio, mas a moça:
- Xingou?
O rapaz balançou a cabeça indicando que sim. Pranto.
- De quê? De puta?
Teve vergonha de admitir. Não devia. E, no entanto. Ó céus. Balançou a cabeça indicando que sim outra vez. Não sabia mentir.
A amiga soltou a mão. Julgava e, no julgamento, o amigo diminuía:
- Aí é foda.
- Eu sei.
Forças opostas rasgando seu corpo ao meio, desde a ponta do cu até o topo da cabeça. Ai.
Mais alguns em silêncio e então a moça, tensa, despediu-se. Um amigo arrastou o outro. Queria leva-lo para casa. O outro resistia. Não sabia o que fazer consigo e com os muitos anos que se estendiam lá fora na rua, subindo a Avenida Dom Antonio.
- Pode deixar, Neguinho. Estou bem.
- Certeza?
- Sim.
Separaram-se. O moço loiro começou a atravessar só o pasto. As vacas mastigavam capim com a saliva escorrendo pelo canto da boca. Os urubus por dentro. Apressou o passo, não era suficiente; passou a correr por causa da dor. Ganhou velocidade. As sandálias partiram-se. Ele seguiu – descalço - pela trilha. Sem parar. De olhos fechados. Arrancando a pele dos dedos nos tocos. Machucando a sola nas pedras. Tropeçando e caindo e levantando e correndo e chorando e gemendo e urrando e; então; parou, enchendo o pulmão de ar, gritou em seguida aos deuses. E, por amor, libertou a ex-namorada que estava a quinhentos quilômetros dali. Ainda assim, demorou mais de vinte anos para perdoar a si mesmo por ter dito aquilo.
CORAZÓN: água de pupila.🌻

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