quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
SINCERAMENTE
Eu poderia jogar a culpa no governo e, de fato, ele tem uma parcela de culpa. Poderia reclamar do preço da carne, do gás, da gasolina e tudo isso me entristece um pouco. Se você me perguntasse o que tenho, diria que não sei. Meus entes mais próximos estão vivos. (Se me sinto assim enquanto tenho pai, mãe, irmãos e filhos, como reagirei quando estiver só?) Tenho bichos, flores e pão sobre a mesa. E, no entanto, parece que tudo falta. Há dias em que o dia simplesmente não brilha. Tento não estabelecer nenhuma objeção ao que É - e a vida é isso mesmo -, na esperança de que a aceitação mude algo dentro de mim e que eu possa sorrir outra vez. Shakyamuni: a vida é sofrimento! Isso aqui é um vale de lágrimas! Nada podemos diante do inexorável e aceitar também não resolve: o pai mente ao filho sobre anjos enquanto o filho morre; outro menino vê o cachorro moribundo e pactua com Deus e nada acontece: o cão também morre. Eu poderia dizer que há um plano maior. Que cada ser humano só enxerga a árvore, enquanto há uma instância maior que enxerga toda a floresta - o passado e o futuro - e sempre faz o que é melhor. Poderia me tornar trágico, estoico, estrábico, nietzschiano. Digo a mim mesmo que esta dor surda é fruto da minha falta de humildade, do meu orgulho; dessa vontade cega de cantar o encontro e o mundo, enquanto a impotência e a insignificância me gritam NÃO! Nos dias cinzentos, a vida não amanhece. Aceitar o sofrimento não o transmuta. Qual o segredo dos sábios? Já segui todas as receitas. Por que a fé não me salva? Eu me coloco entre os comuns e colo sobre o rosto minha máscara de funcionário público. Nada muda. Será que ninguém sente o cheiro de carniça? De que adianta a humildade do soldado que tem o bucho dilacerado por uma granada? Acaso aceitar a ferida faz com que ela não exista? Espero a angústia fazer seu trabalho demorado na esperança de que o fundo mais fundo seja o começo do sorriso. As tarefas cotidianas pesam. Eu alimento os bichos. Eu lavo a merda deles e me convenço de que isso é amor. Há vidas nas quais o amor não acontece e a esperança é um equívoco sempre renovado; como a espiga de milho colocada diante do jumento para que ele continue a caminhar. Puxo-me pelos ombros e, lentamente, levanto da cama. Pé ante pé, vou ao banheiro e escovo os dentes com a escova que pesa uma tonelada. Olho a pia. Encaro a louça. Faço café. O dia segue. Hoje não vou aos correios. Nada acabou. Agradeço por todas as coisas. E a dor, tal qual marcha fúnebre no fundo da alma, persiste. Começou o campeonato paulista.
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