sábado, 4 de janeiro de 2020

A MALDADE JÁ VIMOS DEMAIS

Quando eu era menino, Dona Norma já era idosa. Pense numa pessoa difícil! Pois era Dona Norma! Nunca gostou de nenhum vizinho. Se estávamos brincando na rua e a bola caísse no quintal dela, era bola morta, porque a velha pegava uma faca e. Na nossa frente e tudo. Sem dó, nem. Depois jogava os pedaços no asfalto. Os vizinhos diziam que ela nem sempre tinha sido assim. Fora uma moça muito alegre e altiva; mas, depois que o marido, desgostou da vida. Nem o filho a visitava. Assim que ganhou corpo de homem, partiu para e nunca mais. Sobre Dona Norma, mais três coisas: é magra, pinta os cabelos de vermelho e fuma o tempo inteiro. Agora, Alice.
Há uns cinco anos, o filho de outra vizinha se casou e comprou a casa ao lado da padaria. Umas quatro ou cinco casas depois da casa da Dona Norma, descendo a rua. Deste matrimônio, nasceu Alice, que hoje deve contar uns três aninhos. Pois bem, ninguém nunca soube que Dona Norma gostasse de criança; pelo contrário, só que Alice, tendo aprendido a andar e falar, passou a esperar Dona Norma todos o dias, no portão. Dizem que, a princípio, a velha sequer respondia, mas a menininha é insistente:
- Oi Do’a Noma, bô dia! – Oi Do’a Noma, voxê vai a padaía?
Um dia, a idosa não resistiu e, ao voltar, trouxe um chocolate.
- Bigadu, Do’a Noma!
Foi a conta. Daí pra frente, todos os dias, quando vai comprar sua carteira de cigarros, Do’a Noma traz sempre alguma coisinha pra amiga. Quando demora, Alice grita no portão.
Ontem, quando saí pra pedalar, Dona Norma segurava um gatinho nas mãos e Alice acariciava a cabecinha. Cada uma de um lado do portão. Meu coração transvasou. Acho que 2019 não foi fácil pra ninguém; mas, ver esse gesto de singela delicadeza entre as duas, encheu-me de esperança para 2020. A maldade já vimos demais.

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