Não há culpados. Tudo o que vive, fere. O parto machuca tanto a mãe, quanto o bebê. Sou do tipo que tem dificuldade pra dizer não. Daqueles que prefere receber a dar notícia ruim. E, no entanto, quanta gente já sofreu comigo; por mim; ao meu lado. Há uma palavra! Humildade tem a mesma origem que homem e humanidade; vem do grego humus; cujo significado é terra. Ser humilde, portanto, não é ser bonzinho; mas saber-se no mesmo nível. Todos mantemo-nos de pé sobre o mesmo solo, somos feitos dele e é ele quem nos iguala. Quando evito dar uma notícia ruim ao outro, rebaixo-o, porque não o julgo capaz de suportá-la. Trato o outro como criança; quando são as perebas que nos tornam adultos. O que não mata, engorda. Humildade, portanto, é saber que o outro, assim como eu, é capaz de suportar angústias fundas. É saber que, ao privar o outro de sua dor, interfiro em seu processo de crescimento espiritual. Lembro um filme de Billy Wilder: Crepúsculo dos Deuses, no qual o mordomo, que em verdade era primeiro marido e diretor, fazia de tudo para que a patroa, uma atriz dos tempos do cinema mudo, não tivesse de enfrentar a realidade de sua decadência. Às vezes, fazemos o papel do mordomo para os outros. Às vezes, somos o mordomo e a patroa de nós mesmos; criando toda uma ficção pra não encarar a pedra, a faca, o abandono, o nada. Sei que é difícil dar uma notícia ruim à própria mãe, ao filho, à mulher que nos ampara. Por outro lado, a humildade nos diz que a sinceridade – e não a verdade – é a melhor estrada, ainda que por ela a jornada seja mais longa e acidentada. Todos temos um destino. Não posso privar meu filho das decepções humanas. Não posso poupar minha mãe quando o cavalo em mim me incita a correr mundo. Não posso poupar a companheira quando o amor já não incendeia. Tudo que posso fazer é estar ao lado, ainda que distante, e dizer ao filho que tudo passa; à mãe que é o ninho quem faz o pássaro; e, à mulher, que nada se perde neste mundo e que ela se incorporou ao que sou; mudou o curso do rio. Este mesmo rio que não pode fugir ao seu destino de um dia dissolver-se no mar🌹
segunda-feira, 22 de junho de 2020
O PORTAL DAS ARAUCÁRIAS,
Encantar a vida de tal forma
Que uma simples ida ao telhado
Pra consertar a antena
Seja transformada
Num ato de heroísmo.
Que uma simples ida ao telhado
Pra consertar a antena
Seja transformada
Num ato de heroísmo.
A perfeita sinceridade não faz promessas.
A LITERATURA E SUA SOMBRA
Assim como tudo neste mundo, o texto também tem um lado luminoso e outro sombrio; um polo yin, outro yang. Sempre que afirmo algo, trago junto aquilo que nego. E, como o texto é sempre um recorte, rede lançada em mar vasto, ele diz tanto pelo que afirma, quanto por aquilo que nega ou cala. A palavra é apenas um instrumento de manejo do silêncio. Dostoiévski era cristão ortodoxo, dizia que, se a verdade estivesse fora de Cristo, ficaria com Cristo e não com a verdade. O autor identifica-se com Sônia, Liza, Aliosha, ou o príncipe Mishkin. Seus leitores, no entanto, seres humanos de um tempo desencantando, preferem os niilistas-demoníacos Svidrigailov, Ivan, Stravoguin. Nietzsche proclamava a fidelidade à Terra, à imanência, à potência criadora da arte, à alegria revolucionária; o anão de Zaratustra, por seu turno, com a ajuda da irmã Elizabeth Foster-Nietzsche, arrancou à obra os caminhos do Nazismo. E não há aí uma leitura certa ou errada. O Nazismo está lá mesmo, na obra, como potência de sombra; o texto sempre extrapola a intenção do autor. Assim como em Dostoiévski ou Nietzsche uma obra de caráter positivo desencrava também seu duplo maligno; na obra de autores com uma visão apocalíptica de mundo; num repente, saltam da página vislumbres de delicadeza, esperança e amor. O caso que mais me fascina é o Céline do Viagem ao fim da noite. No meio do pântano mais depressivo, há um buraco de minhoca, olho oco que nos conduz à alegria; bem como em meio à maior felicidade se esconde o germe do desespero. No Viagem, Céline traça um retrato terrível da humanidade: guerra, crueldade, egoísmo, cinismo, falta de qualquer escrúpulo, ou empatia. No romance, a personagem que melhor encarna tudo isso é Robinson. Por outro lado, Céline cria também o menino Bébert, que era inclusive o nome de um dos gatos do escritor, e a prostituta Molly, seres profundamente angelicais. Em seu outro grande livro, Morte a crédito, Céline inicia a narrativa falando ao seu primo alcoólico, um náufrago bonito, a respeito de sua lenda. Tal lenda é uma metonímia do ágape celiniano. Bukowski entendeu bem a lição do mestre. Por mais que seus narradores sejam bêbados, céticos, niilistas, há sempre uma dose de ternura por alguma mulher desajustada. É isso que as cópias do velho safado nunca capturam.
A escrita não é, pois, apenas uma questão estética. É algo muito mais sério. E perigoso. Muitas vezes, é Mr. Hyde quem toma conta de nossa pena.
A escrita não é, pois, apenas uma questão estética. É algo muito mais sério. E perigoso. Muitas vezes, é Mr. Hyde quem toma conta de nossa pena.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
PARA GATSBY E FITZGERALD
Veveco vivia de bicos. Por quaisquer dez reais, se alguém pedisse, caminhava longe. Sabia de tudo um pouco. Resolvia qualquer problema. Nada havia que ele não pudesse remendar, colar, consertar. Mais de um ofereceu-lhe trabalho, mas Veveco tinha a alma irmanada aos cavalos, borboletas e colibris. De modo que era um rapaz trabalhador, mas detestava cumprir horário; bater cartão. Era dono de uma Kombi 1976, cuja traseira ele mesmo cortara para instalar uma carroceria. Na porta estava escrito: CARRETO. Certa feita, ao perceber uma fita de slackline dando sopa em um dos parques da cidade, passou a mão e acrescentou com tinta de outra cor: E GUINCHO. Sim, carreto e guincho; dentre outras coisas. Foi Dona Sueli, que era doméstica lá pelos lados da Zona Sul, quem indicou o biscateiro à patroa. “E ele sabe mesmo limpar piscina, Sueli?”. “A senhora vai ver, o menino pode fazer qualquer coisa!”. Este foi o ponto de partida. Segunda-feira; Veveco estava limpando a piscina, quando a filha da patroa resolveu tomar sol. Era uma universitária de vinte anos, olhos verdes, corpo bronzeado e malhado, cabelos que. Em suma, uma divindade. Veveco jamais presenciara tamanha beleza condensada em um único ser. Ficou, portanto, paralisado, imóvel, em êxtase. A menina, vaidosa, ao perceber a admiração; brincou, apertando os gomos da barriga magra: “Nossa! Como você é forte!”. E ocorreu a epifania. Todo um mundo descortinou-se ante os olhos do rapaz e ele se viu envolvido em um futuro diferente; no qual trabalharia duro, estudaria, mudaria, enfim, e ganharia mundo. Uma garota daquelas valia à pena. Pensou também, em contrapartida, que teria de cumprir horários, esforçar-se, tornar-se cidadão de bem e vencedor. Onde antes havia coração, instalou-se balança, na qual o moço pesou os dois destinos. Olhou mais uma vez a beldade, a mansão, a piscina, o gramado, as palmeiras:
“Quer saber, foda-se” – murmurou de si para consigo. Nem o amor valia tanta disciplina.
Antes de chegar em casa aquela noite, tomou uma cana, um litrão, fumou um fino e foi dormir quase em paz. Dia seguinte não teria de acordar cedo🐴
“Quer saber, foda-se” – murmurou de si para consigo. Nem o amor valia tanta disciplina.
Antes de chegar em casa aquela noite, tomou uma cana, um litrão, fumou um fino e foi dormir quase em paz. Dia seguinte não teria de acordar cedo🐴
O amor não me deixa morrer
O amor não me deixa morrer
E me ancora neste mundo medíocre
E exige que eu suporte essa gente
mesquinha, hipócrita, cafona, ignorante
E não falo dos outros, falo de nós
De nossa burrice, desse ruído sem alma
Dessas palavras ocas, fúteis, vaidosas
O amor não me deixa sumir
Porque não há amor sem responsa
Nem responsa sem renúncia:
Abro mão do suicídio
Do mar
Da faca
Abro mão.
Há em mim um cansaço de tanto
Um esgotamento de séculos e horas
O amor não me deixa
E eu continuo apesar da vontade de nada.
E me ancora neste mundo medíocre
E exige que eu suporte essa gente
mesquinha, hipócrita, cafona, ignorante
E não falo dos outros, falo de nós
De nossa burrice, desse ruído sem alma
Dessas palavras ocas, fúteis, vaidosas
O amor não me deixa sumir
Porque não há amor sem responsa
Nem responsa sem renúncia:
Abro mão do suicídio
Do mar
Da faca
Abro mão.
Há em mim um cansaço de tanto
Um esgotamento de séculos e horas
O amor não me deixa
E eu continuo apesar da vontade de nada.
sexta-feira, 12 de junho de 2020
GEORGE FLOYD
Há assuntos sobre os quais prefiro calar; esperando para ler e ouvir os que têm muito mais propriedade do que eu. Se me manifesto agora sobre o assassinato de George Floyd, não é com a intenção de falar em nome do povo negro. Em qualquer sarau, aqui da periferia, há pessoas muito mais qualificadas que eu neste aspecto. Não consigo, no entanto, calar diante da barbárie. Não pretendo falar por; apenas junto, em solidariedade, expressando como dói no meu próprio coração.
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻
ERRO E CRIAÇÃO
Só encontra novos lugares, quem se aventura por novos caminhos. A estrada asfaltada, que transporta a maioria, leva sempre ao mesmo. Só ancora em novo continente, quem se aventura por mares nunca dantes. Existe uma idade na qual o ser humano precisa desrespeitar, desler, deseducar-se. Aquele que se lança à floresta - e enfrenta a fera, o frio e a solidão - pode morrer no caminho ou chegar ao orgasmo do outro lado. Por nunca seguir a trilha sedimentada, das duas uma: ou o rebelde encontra o novo, ou o ridículo. O risco é. E é preciso ousar o fracasso. O caminho que os pés criam para encontrar o irreconhecível é a mesma trilha que conduz ao erro. O gênio é gêmeo do idiota. Inova quem não tem medo de parecer ridículo; porque sabe que, no fundo, todos já somos🐴
VIVER
Quando um homem passa dos setenta e lança um olhar sincero sobre sua jornada, percebe que cada pessoa desvela algo que precisava ser alçado à luz, compreendido, transformado, acolhido. Chumbo em ouro. Todas as emoções negativas, sob a atenção do eu-vazio, transmutam-se em Ágape. 'A medida que o eu-vazio é despertado e há a busca, aos poucos, eu-vazio e eu-telúrico sincronizam-se, fundem-se de tal modo que, com o tempo, todos os nossos gestos, palavras e atos são manifestações do Maior. A vida serve apenas para encontrarmos o caminho que nos faz mais solidários. O outro sempre ensina algo, inclusive por meio de sua desonestidade e violência. Cada qual segue seu caminho. Setenta, oitenta anos, mal é tempo de ajustar minha própria jornada, como posso corrigir o comportamento alheio? Cada pessoa, cada lágrima, riso, dor, festa tornou meu coração mais amplo. Não é o imensurável que deve se adaptar ao eu; pelo contrário, é o eu quem precisa desaparecer para que a criança pronuncie sua palavra encantada e se dissolva outra vez num amálgama de almas. E morrer, por fim, não é acabar, é expandir-se.
Como pode ser digno o caminho humano.
Como pode ser digno o caminho humano.
TIA LEOCÁDIA E O BURAQUINHO DA MISERICÓRDIA
Cuide de sua dor para que não se torne crueldade. Como muitas pessoas que fazem sucesso nas artes por ter o carisma de uma alma quebrada, minha tia Leocádia alcançou os picos mais altos da carreira de atriz. Ganhou prêmios, encenou Shakespeare e Nelson Rodrigues; fez filmes, trabalhou com nomes como Tônia Carreiro, Fernanda Montenegro, Paulo Autran. Tinha, no entanto, esta ferida, oriunda da infância, a qual jamais tratou. Assim, quando meu tio Paolo partiu com uma atriz vinte anos mais jovem, a tia se trancou em sua mansão e nunca mais. Para piorar, tornou-se acumuladora, avarenta e passou a ganhar peso: cinco, seis, dez quilos por ano. Leocádia controlava – rigidamente - os empregados; os quais tinham de reciclar inclusive os filtros descartáveis para o café. Dentro da família ou fora dela, eu era o único que ainda tinha acesso à casa, porque sou visagista e, volta e meia, a tia insistia em mudar a aparência. Como a mansão fica num bairro nobre, mas cercado por favelas, muitos pobres apertavam a campainha da tia para pedir alimento; em vão, como se pode supor. Nem os alimentos vencidos ela deixava. Havia, contudo, uma empregada, Tereza, que ficou com minha tia por mais de trinta. Era a única que suportava; não obedecia, todavia. Sem que a tia soubesse, Tereza fez um buraco na parede da cozinha; por onde passava, diariamente, mantimentos aos necessitados. Pois bem, mês passado, Leocádia, minha tia, a primeira dama dos palcos nos anos sessenta, morreu. Pesava, naquele momento, mais de duzentos quilos. Os bombeiros foram chamados e fizeram de tudo para tirá-la, mas o cadáver não passava por portas ou janelas. De modo que já se pensava em retirar o telhado para içá-la com um guindaste, quando Tereza sugeriu o buraco na cozinha; carinhosamente apelidado pelos empregados de buraquinho da misericórdia. Houve risos, mas Tereza insistiu: “Tentem!”. E ninguém pôde acreditar quando o corpo imenso de tia Leocádia passou de fato por um buraco que não tinha mais que um palmo de diâmetro.
Na cozinha vazia, restou um cheiro doce, como se do vestido de Tereza despencassem milhares de pétalas de rosas🌹
Na cozinha vazia, restou um cheiro doce, como se do vestido de Tereza despencassem milhares de pétalas de rosas🌹
SE PUDESSE TROCAR
Se pudesse trocar meus braços
Por cobertor
E minhas palavras por travesseiro
Trocaria
E, deitado em tua cama,
Confortável com o que sou,
Acolheria teus seios brancos
E teu medo do futuro
Se pudesse transformar palavra em travesseiro
Já não seria estrangeiro num país hostil
E olharia a vida
Como um monge que acabou de alcançar o nirvana.
Por cobertor
E minhas palavras por travesseiro
Trocaria
E, deitado em tua cama,
Confortável com o que sou,
Acolheria teus seios brancos
E teu medo do futuro
Se pudesse transformar palavra em travesseiro
Já não seria estrangeiro num país hostil
E olharia a vida
Como um monge que acabou de alcançar o nirvana.
A HOMOSSEXUALIDADE DE BOLSONARO E A BALEIA BRANCA
O romance Moby Dick, do escritor estadunidense Herman Melville, narra a perseguição do capitão Ahab a uma baleia branca que lhe amputou uma das pernas. À primeira vista, parece um enredo simplório. A literatura, no entanto, trabalha no nível do símbolo e o próprio capitão diz que a baleia é uma máscara de tudo aquilo que impede o homem de ser pleno. Perseguindo Moby Dick, Ahab desobedecerá as leis dos baleeiros, da natureza e de Deus e acabará por levar seus homens e seu navio, o Pequod, à destruição. Guardadas as devidas proporções, vejo o atual presidente como um Ahab, nosso país como um Pequod e o povo que ainda segue seu Messias da morte como os marujos. E quem seria Moby Dick? Os conteúdos inconscientes. No nosso caso, a baleia branca é o desejo homossexual de Jair Messias. Um homem heterossexual não tem medo de sua sombra; não precisa ficar o tempo inteiro reafirmando sua masculinidade: fazendo flexões, piadinhas (o chiste é, inclusive, um dos modos como a sombra se mostra); ele simplesmente é e isso se manifesta em todo o seu ser, com naturalidade. Não há nenhuma novidade no que vou dizer: aquilo que não aceito em mim e não posso olhar, minha sombra, projeto no outro e o que vejo me irrita, fere, dilacera. Não podendo aceitar a mim mesmo como sou, como posso aceitar o outro? É claro que tal comportamento encontra eco no Inconsciente de todo o povo de um país machista, mal educado e preconceituoso. Os marujos não seguiriam Ahab, não fossem eles mesmos seduzidos pela baleia branca. O presidente não foi eleito pela sua agenda econômica, mas pelo amálgama de preconceitos que encarna. Se o soldado do exército tivesse tido a coragem de assumir sua homossexualidade, adoraria um pouco menos a morte e seus símbolos, porque sexo é vida, Eros, e, provavelmente, não estaríamos nesta enrascada. Ainda que continuasse um canalha, ao menos teria nos poupado de sua prole. O destino do Pequod, sabemos, é a catástrofe; o do Brasil não me parece diferente. Como disse um filósofo alemão: “Só um Deus poderia ainda nos salvar”🐴
NÃO HÁ SOMBRA AO MEIO DIA
Mora em mim uma besta
Que se revela ante a luz transversal
Se fujo, ela me persegue
Se a ignoro, ela se avoluma
Se se sente ofendida, ela agride
A besta é a antípoda do anjo.
Mora em mim um anjo
O qual não depende de elogio
Se fulano cai, ele estende a mão
Se cicrano agride, ele abraça
Se beltrano odeia, ele estende amor na varanda
O anjo é a utopia do eu.
Se habito o anjo,
A besta ruge
Se me entrego à besta,
O anjo chora
Mas, se me instalo na luz
É a própria luz quem se diz de meu vazio:
A sombra se dissolve quando o relógio marca meio dia.
Que se revela ante a luz transversal
Se fujo, ela me persegue
Se a ignoro, ela se avoluma
Se se sente ofendida, ela agride
A besta é a antípoda do anjo.
Mora em mim um anjo
O qual não depende de elogio
Se fulano cai, ele estende a mão
Se cicrano agride, ele abraça
Se beltrano odeia, ele estende amor na varanda
O anjo é a utopia do eu.
Se habito o anjo,
A besta ruge
Se me entrego à besta,
O anjo chora
Mas, se me instalo na luz
É a própria luz quem se diz de meu vazio:
A sombra se dissolve quando o relógio marca meio dia.
NÃO NOS ENSINARAM A FAZER AMOR
Já falei aqui sobre meu primeiro contato com a sexualidade, por meio de uma revista, encontrada há tempos, no lixo. Há algo muito errado no modo como nossa sociedade lida com o sexo e a gente só pode mudar isso junto, conversando. Enquanto nos livros, revistas e demais publicações voltadas às meninas, o sexo aparece como o resultado de um jogo de sedução entre uma mulher e uma espécie de príncipe; os meninos vão aprendendo daqui e dali, com os amigos, na maior parte das vezes por meio da pornografia. Então, enquanto as meninas esperam fazer amor, os meninos creem que se espera que eles façam sexo. Claro, há toda uma corrente de força e poder masculino - bem como do feminino - que se liberta no sexo. O corpo sabe, naturalmente; e tudo o que é natural é bom e é belo. Não é disso que estou tratando; mas do fato de que, para os meninos, há uma dissociação entre amor e sexo. E aí, quando o sentimento mais poderoso que pode existir entre seres humanos faz visita, não sabemos muito bem o que fazer; porque o amor é ternura, ânsia de cuidado e o sexo é a maior expressão de amor possível; por outro lado, há a imagem pornográfica, a insegurança masculina e a competição patriarcal, a dolorosa pergunta interna: e se outro for e fizer melhor que eu? A gente segue medindo as genitálias a vida inteira; obcecados pela performance, quando bastaria ser quem somos, ouvir o corpo que nos acolhe. É preciso que se diga: quando há amor, vai amor também aí, no meio dessa confusão toda. Depois de tanto tempo, sinto vontade de pedir perdão às companheiras que caminharam ao meu lado durante uma parte da jornada. Acho que fiz o melhor que podia, mas perseguia, inconsciente, uma meta e o gesto de fazer amor é um acontecer, um entregar-se, doar e receber; não é um jogo de futebol, ou uma corrida na qual temos de ser o melhor do mundo. O duro é que quando um menino percebe isso, já é homem. Foi ferido e feriu muita gente. Às mulheres que se deitaram algum dia comigo, peço perdão se soei artificial, se não fui suficientemente delicado. Eu não sabia o que fazia. Ainda estou aprendendo a viver e a amar🌻
quarta-feira, 3 de junho de 2020
O DIA EM QUE VI MINHA MÃE CHORANDO NA COZINHA
Fui o único a correr para abraçar meu pai quando ele parou o Fusca em frente de casa. A mãe continuou na cozinha, coando o café; enquanto nenhuma de minhas quatro irmãs mais velhas saiu do quarto para cumprimentá-lo ou pedir a benção. Eu, no entanto, tinha sete anos; de modo que, não importava o que falassem, meu pai era meu herói. “E aí, molecão!” – disse ao me entregar um boné original do Santos FC. Ajudei-o com uma das sacolas, enquanto ele carregava as malas para dentro. Meu pai era o homem mais alegre que já conheci. Quase aos cinquenta, ainda tinha a mesma energia que eu. Como nosso quintal era grande, passávamos os dias jogando bola, peteca; ou pegando amora, atemóia, manga, ameixa no pé. Agora, havia quase um ano que eu não o via. Tempos antes, o pai tinha conhecido uma mulher no trabalho e se apaixonado, e saído de casa. Foi um ano ruim, aquele. Eu não sabia o que tinha feito de errado para ele me abandonar assim. Além disso, as dificuldades financeiras. Não chegamos a passar fome, minha irmã mais velha já trabalhava e a mãe pegava roupas para passar em casa. Houve, todavia, noites em que jantamos os abacates colhidos do pé; com pouco açúcar, inclusive. Só que agora ele estava de volta, meu Pai, e eu estava disposto a esquecer tudo aquilo; como se não tivesse passado de um sonho ruim. O resto da família, no entanto. “Oi, Maria.” – ele disse, beijando mamãe no rosto. Ela permaneceu. Era uma mulher séria; sempre com os cabelos presos num coque e vestimentas muito sóbrias. Seus únicos prazeres eram ler e tocar, no piano, os hinos de nossa Igreja. Entregou uma xícara de café. Ele bebeu devagar. Houve um silêncio denso, como se só os dois existissem no mundo. Depois, meu pai foi para o quarto ajeitar suas coisas no guarda-roupa. Eu junto, agarrado. No fundo, tinha medo de perdê-lo outra vez. Quando estávamos no quarto, no entanto, o pai me entregou uma caixinha com um relógio lindo dentro. “Por que você não vai levar pra sua mãe?” Obedeci, mas quando voltei para a cozinha, a mãe estava descabelada, chorando, soluçando; agarrada à pia como se pudesse ser levada por um ciclone, caso soltasse. No chão, a xícara quebrada em mais de mil pedaços. Fiquei ali, na cozinha de casa, com aquela caixinha nas mãos por mais de trinta anos🌻
O SALTO
Observo meus cães. Estão bem. Encaixados em seus corpos, sem passado ou futuro. Se brigam, não se arrependem, não pedem desculpas; entendem-se naturalmente em seguida. Não há a angústia funda, a dúvida, a aflição de ter de decidir entre o que o instinto grita e a promessa feita ao outro. Ao ser humano é vedado o caminho animal. Do cão ao homem, a consciência dá um salto. Não nos é possível retroceder, só nos resta saltar de novo. O que é grande no ser humano é sua dor. A aflição de ser um Deus preso a tripas e que acaba sabendo de seu fim. Se não sou meu cão, tampouco sou Deus. E é aí que, a partir de um gesto de reverência, torno-me oco, túnel, corda estendida entre o animal e Deus, porque contenho os dois. Há um lugar – no Ser - a que chegamos quando as pupilas, mesmo com as pálpebras fechadas, voltam-se, por si mesmas, ao alto. Um ponto vazio que é ao mesmo tempo passagem e fronteira; eternidade e queda no tempo. Se me assento neste lugar, posso ver meus movimentos no mundo como se fossem de outra pessoa. Posso falar de mim na terceira pessoa. Amor. Quieto neste vazio, não estabeleço diferença entre mim e os corpos que me cercam. Amor. O egoísmo, a ganância, a ira, o ódio, não existem aí; porque o que observo é tanto meu corpo, quanto o corpo do vizinho no mundo e eles não diferem. Amor. Já não me identifico com o “eu”. Só há um sujeito nesta frase e ele não é o ser humano. O salto não é para menos consciência, mas para mais. “Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós”. Todas as crises apontam para este lugar, mas só uma prática cotidiana sedimenta a trilha para que não haja diacronia entre o eu-vazio e o eu-telúrico. No princípio, o eu-telúrico age e o eu-vazio se manifesta em seguida. Com a prática, ambos passam a atuar em uníssono e é aí o Além do homem, a Iluminação, o Despertar, o Cristo, o Nirvana. Se lemos tantos livros, o que esperamos para ler nossa própria atividade mental? Podem me ignorar; podem matar meu corpo; podem até ferir meus sentimentos, mas nada podem fazer contra mim. Já não sei se sou eu quem vive na Desmesura ou se é a Desmesura quem vive em mim. Não há contornos quando saímos para dentro🌻
segunda-feira, 1 de junho de 2020
QUE É PENSAR?
Pensar é raro. A maior parte do tempo, repetimos aquilo que a sociedade, a escola, a família, o hábito gravou na gente. Uns vêm de famílias humildes e repetem os adágios que a sabedoria popular consagrou. Outros vêm de famílias cultas e repetem as grandes pérolas da cultura. Você já leu um clássico e sentiu no fundo do coração que aquilo dialoga com sua jornada? Sentiu que o texto é uma reformulação das questões que acompanham o homem desde que, saído da caverna, numa noite estrelada, o primeiro hominídeo contemplou as estrelas e se perguntou: por quê? A maioria de nós atravessa a vida adulta sem ter um pensamento (as crianças pensam, daí a fala poética); porque o pensamento é impessoal e não sou eu quem pensa, mas a humanidade quem pensa em mim. Quando calo “meus” pensamentos é que o pensamento acontece; ele é fruto do vazio. E, com o excesso de informação e acontecimentos, pensamos menos ainda. Tudo aquilo com que os jornais, a televisão, a internet nos bombardeia diariamente são os empecilhos ao pensar. A escultura já está na pedra; o pensamento desbasta. E não há pensamento positivo ou negativo: ambos são apostas; hábito de revisitar algo já pensado. O pensamento é novo, vem do vazio e acontece naquela quina de tempo em que o que não há, passa a haver. Lembre das grandes descobertas científicas, de Newton a Einstein, passando por Marie Curie. Todos eles debateram-se com um problema. Quebraram a cabeça. Esgotaram-se. Quando, por fim, distraíram-se, quase desistindo, aconteceu a descoberta: o pensamento. Não há excesso de pensamento, o que há é o excesso de ruído e barulho da mente individual. Imersos na confusão diária, não ouvimos o sussurro que vem de outro lugar: o pensar pedindo passagem.🌻
O LOUCO E A COSTUREIRA
O que ainda me enternece são as coisas pequenas, a alegria do menino ao conseguir amarrar os cadarços pela primeira vez; a menina voluntariosa brincando de carrinho; um pai acalentando o filho; um casal de mãos dadas na praça; skatistas limpando o entorno do half pipe recém construído no Parque Santa Rita. É daí que recolho forças para continuar. Mas mais que tudo isso, ontem meu coração transbordou diante do louco apaixonado pela costureira. Já falei dele aqui. Mora na praça Mãe Preta, Parque Santa Rita. Tenta organizar seu mundo escrevendo no chão. Há ali um livro a céu aberto. Em cada esquina, mora um Bispo do Rosário. Ontem, saí, devidamente mascarado, para dar uma caminhada. Se a gente não morre de Covid, mas corta os pulsos, morre do mesmo jeito. Todas as dores procrastinadas visitaram-me nesta quarentena; às vezes fica foda. Enquanto caminho, vou lendo as frases do Du, o louco. Como as coisas que escrevo, de vez em quando há sentenças bem tristes, solitárias; mas também há muita alegria, esperança, amor - sempre. Notei que, nos últimos tempos, havia muitos poemas de amor. É, o Du está apaixonado. Puxei papo: “Pra quem são todos estes poemas?”. “Ah, Profe, é tudo pra menina que trabalha ali na confecção. Todo dia, ela ia comprar o pão pros funcionários e eu ficava olhando, agora que tá tudo fechado, fico com saudade”. Du não quer realizar seu amor. Reconhece sua condição. Para ele, basta ver a costureira passar com o saco de pão e nada mais lhe falta; seu dia está pleno. E é essa coisa tão singela que me salva; acalma o coração; me faz acreditar quando perco a fé, sabe? E eu me lembro daquele Amor de que fala São Paulo em Coríntios 13: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Obrigado, Du, por mais esta lição.🌻
NO PONTO MORTO O CARRO NÃO MORRE
Há, no alto ou no fundo da consciência, um eu-vazio que pode observar o modo como o eu-telurico age. Neste lugar, toda angústia se desfaz. De lá, agimos pela inação e podemos decidir, a partir do modo como o eu-telurico atua no mundo, se vamos ficar nervosos, alegres, tristes ou indiferentes. As emoções perdem poder. O eu-vazio, quando conduz a carruagem, é neutro, passagem para a atuação do TAO, o qual atua também nos acontecimentos. Todo desfecho é bom quando o eu-vazio se revela belo, por inteiro, e exige seu direito ao trono.
Assinar:
Postagens (Atom)