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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

ESCREVER PARA DECEPCIONAR

 ESCREVER PARA DECEPCIONAR. Para ir tanto contra os bons costumes, quanto contra o politicamente correto. Escrever para arrancar dos meus ombros as mãos daqueles que me dão tapinhas e dizem: "ele é um dos nossos!" Não sou um de vocês, tampouco sou um dos outros. Não tenho intenção de ofender, mas se ser quem sou ofende, então ofendam-se. É uma ofensa querer ser livre? Manifestar o que sente no fundo do coração? Todos têm a receita para os problemas do mundo. Todos nos querem parte da tribo, da igreja, do bando, da empresa, do partido. Posso até caminhar um pouco com a galera ao longo da jornada, mas não me esperem dizendo amém. Não me esperem seguindo ordens ou, pior ainda, dando-as. Nem no que chamam de amor vocês conseguem escapar desse jogo sujo entre dominador e dominado. Esses lados opostos engendram-se mutuamente, o que não quer dizer que sejam iguais. Fora de mim a hipocrisia, essa gente que posta sobre responsabilidade afetiva, mas engana o parceiro com o melhor amigo; que não come carne, mas sacaneia o colega de trabalho; que diz preservar a natureza, só que joga o entulho na rua. Eles são muito bons pra fiscalizar e apontar o dedo. Odeio juízes! Tampouco esperem que meu coração acompanhe os que visam o lucro, os que tratam a Terra sem o menor respeito, os canalhas que se acham superiores. Escrevo para decepcioná-los a todos: aos que me querem só dócil ou só revoltado. A vida não cabe nos seus esquemas. Os dias derrubam-se uns aos outros. Na vida, há a fúria do pai que teve a filha de cinco anos abusada; mas também a ternura entre os velhos jogando xadrez e partilhando a dor das enfermidades. Na vida, acontece a violência gratuita, mas também o amor sem porquê. Escrevo para decepcionar, porque as ideias são enrijecidas e a vida não acontece sem paradoxos. Escrevo para agredir, porque vocês me agridem diariamente, a cada instante, não dão folga, porra, repetindo sempre essa ladainha que não brotou aí, que ouviram em outra parte. Nos dias em que acordo de mau humor, tenho vontade de cortar-lhes os dedos e a língua. Escrever para sobreviver; porque o que fizemos do mundo me mata e, na palavra, encontro tanto vingança, quanto perdão.

O MAIS PROFUNDO É A PELE


No cinema, isso seria a tela onde o filme é projetado. Pensemos em Bach, nos Beatles ou no peruano que toca flauta na praça da Sé. A música pode ser diferente, mas o silêncio do qual cada nota emerge é igual. Assim como a tela está para o filme e o silêncio para a música; o vazio está para o mundo. Há um vazio que dá origem, atravessa, sustenta e dissolve tudo aquilo que é. O mundo acontece dependurado numa ausência e essa ausência se manifesta no coração humano como saudade. Daí essa dorzinha boa no fundo de cada instante feliz; daí que, no meio do luto, num repente, a gente é atravessado por alegria criadora. Todos temos regiões ocas, pedaços inteiros de morte e não-ser. Tais buracos, ao mesmo tempo em que doem, são portais para o absolutamente outro. Assim como o silêncio une Bach, os Beatles e o flautista peruano; o vazio me faz o mesmo que Jesus, Sidarta, uma ameba, ou um beija-flor. Jesus não é o único Cristo; Sidarta não é o único Buda. Quando aceito que o que É não é meu corpo, pensamentos, memorias e emoções, mas o vazio eterno do qual tudo isso brota no tempo, posso olhar para mim mesmo como se fosse um outro e para meu inimigo como se fosse a mim mesmo: compreensão; amor; serenidade. O que é eterno em mim é aquele pedaço ao qual não posso chegar, porque nele me dissolvo. No fim das contas, o vazio é o mundo e o mundo é o vazio. No fim das contas, o vazio é o vazio e o mundo é o mundo

A FLOR DE LÓTUS

 

Poeticamente, o homem habita esta terra. Todas as coisas nos ensinam; são o que são e são poemas. A Terra inteira dialoga com o humano. Tudo guarda uma mensagem cifrada. Se a água nos ensina a seguir maleáveis, o fogo nos fala da paixão. A poesia é um atributo da Terra; o poema, do ser humano. Então, criar é sinônimo de traduzir. Todo poema é uma tradução da poesia que está nas coisas e que só é transposta para a linguagem humana quando encontra o coração desencapado do poeta. Quero, pois, falar do lótus, cuja semente pode demorar mil anos para germinar e cujo broto só surge quando algum trauma externo fissura a casca. Assim também se dá com o ente humano. A gente só floresce depois que uma pancada racha as cascas de nosso eu, de nossas certezas. O lótus floresce do lodo e, embora a lama respingue em suas pétalas, não gruda. Nós, do mesmo modo, florescemos a partir deste mundo lamacento. Não importa o quanto estivemos mergulhados no lodo; os caminhos sujos pelos quais passamos são adubo para a flor de nosso espírito. A lama tampouco desaparecerá depois de florescermos. Pelo contrário. Sentados seremos tal qual flor em meditação, os respingos do cotidiano podem até nos atingir, mas não vão colar. A raiva, a inveja, o ciúme são emoções humanas e, por certo, vão nos tocar em algum momento; mas que sejamos flores untadas e que nenhum sentimento mesquinho construa morada em nosso coração. O lodo exterior não é justificativa. É nossa responsabilidade de planta cuidar de nossa flor. Se o mundo inteiro está doente e a gente adoece junto, isso não significa a cura. Hoje amanheci flor; mas com a dura tarefa humana de, imerso na lama, deixar nascer o belo e a pureza. Como a Terra, quero me doar até sob as dores da agressão.

EPISTEME


O comentário sobre um texto diz mais sobre o leitor que sobre o texto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. Não deveria ser. O aprendizado é um encontro. Texto e leitor, professor e aluno. Um não prescinde do outro; nem pode ser mais importante. Acontece que desaprendemos o silêncio e a graça do não fazer. Queimamos, pois, a primeira etapa: o silêncio interno da acolhida. Antes de acolher o que o outro ou o texto dizem, já preparamos a conexão e, pior, a resposta. Se a palavra se encaixa em nosso sistema de crenças, repetimos; caso contrário, tapamos os ouvidos, porque ela ameaça - de morte - aquilo que imaginamos o "eu". É por isso que, quanto mais avançada a idade, mais difícil o aprendizado. Com a identidade ancorada neste eu enrijecido, blindado, o novo bate na armadura e cai pelo chão. Temos a ilusão de que somos a armadura; mas somos é a criança em espanto sufocada; agonizando atrás do aço. Na mística, o sentido do segundo nascimento é desfazer-se da armadura. Deixar a criança, protegida apenas pela fé, aberta aos encantos e perigos do mundo. Cordeiro em meio aos lobos, morrer para nascer ao eterno, segundo nascimento, tornar-se criança, mente de principiante. Só a criança, mesmo no adulto, acolhe o novo. É por isso que o aprender se assemelha ao brincar. Primeiro silenciamos, tocamos o brinquedo, apalpamos, conhecemos, cheiramos, transferimos o colo e o seio para a pele do objeto; depois conectamos esse brinquedo - palavrapoema - ao lego do mundo. Tão simples, tão difícil. Só aprendem aqueles que são leves e mantém a alma irmanada às borboletas, beija-flores, crianças e bolhas de sabão

DOM


Acho que um dom é assim como uma paixão tão grande por uma coisa que você não mede esforços para aprender e melhorar naquilo; sem qualquer outra intenção. É dedicação desinteressada. Por outro lado, o amor por aquilo que se faz é tão grande que o esforço deixa de ser esforço, torna-se uma alegria; um tal modo de ser no mundo que quem vê de fora não hesita em dizer:
- Ele nasceu pra isso.

E A VIDA É BONITONA!


Se pudéssemos nos dar conta de que somos felizes quando a felicidade acontece, seríamos perfeitos. Humanos, no entanto, perdemos o instante ansiando o futuro, ou ressentindo o passado. E o momento real em que a felicidade aconteceu, só o temos depois, como lembrança, porque estávamos distraídos quando. A gente só percebe a grandeza de uma pescaria com o pai, quando o pai já não pesca. E, no entanto, havia ali tanta lição silenciosa sobre a vida. Nada desaparece; do nada, nada nasce, tudo então se transforma. Enquanto temos a ilusão de perder, todavia, é melhor pensar que o ser humano fica mais rico quando perde, porque cada perda expande nossa alma. Tudo aquilo que imaginei ter perdido, vive agora dentro de mim. No filho, subsistem o pai e o bisavô. Cada paisagem, cada amigo e companheira, cada festa ou velório, cada canção... Nada se perdeu. Meu coração é o ponto privilegiado no qual milhares de coisas, bichos, flores, paisagens e pessoas fascinantes se encontraram e desnudaram-se em estado de poesia. O primeiro amor ainda me visita sempre que o amor acontece. Alguns acumulam bens; outros, prestígio. Eu junto vida. Por meio de mim, meu amigo Rogério existe um pouco no meu filho João que nunca o conheceu. Tudo continua de um jeito diferente. Eu já não sou o menino de cinco anos, tampouco sou outra pessoa. A criança ainda fica feliz dentro de mim quando sente o cheirinho ruim de um filhote de cachorro. Morrer é só mudar de morada. Distribuir-se. Os vivos somos a casa dos que se foram. Toda a jornada do Céu e da Terra se acumula no fundo do agora. Um neandertal dá o salto decisivo nos meus polegares. Todos somos matrioshkas! E a vida é bonitona!

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA


A espiritualidade atua, ou deveria atuar, na esfera interior, individual; ao passo que a política refere-se à nossa atuação no mundo, à esfera coletiva. Quando falo em espiritualidade, não me refiro a uma religião específica; assim como a política não se resume ao partidarismo. Embora não se devam confundir, espiritualidade e política estão o tempo todo interagindo. A cada segundo, o que há dentro de mim chega ao mundo, assim como o mundo exterior também me atravessa constantemente. É preciso discernir onde termina minha confusão interna e onde começa a confusão do mundo. A busca por uma sociedade mais justa é indissociável da busca por me tornar um ser humano melhor. Como posso querer mudar o mundo para melhor se não me dou bem com meus vizinhos, família, ou colegas de trabalho? Como posso pregar uma atuação política solidária se não consigo conviver? Facilmente caímos na tentação de depositar todo o peso num dos pratos da balança. O ego é inimigo do equilíbrio. Ou coloco toda a sujeira no meu interior e aí não há como escapar da depressão; ou todos os problemas vêm lá de fora e continuo espalhando merda, quando gostaria de distribuir flores. Por melhores que sejam as intenções, alguém confuso, no fim de qualquer empreendimento, desemboca na confusão. Querer transformar a sociedade sem antes olhar nosso próprio interior, é querer limpar o rosto sujo passando um pano úmido na imagem refletida no espelho. O mundo é inseparável daquele que o olha. A saúde social passa ao mesmo tempo pela saúde psíquica. Se almejamos um mundo melhor, não precisamos esperar a eclosão de uma insurgência. Podemos começar ajudando hoje a quem precisa, ouvindo o outro, deixando um pouco o orgulho e o ego de lado e tornando o ambiente que nos cerca um pouco mais agradável. Se cada um começar a mudar agora, no lugar onde está inserido, a sociedade muda. Se cada qual lavar seu prato, não haverá acúmulo na pia. Esqueça, neste momento, se o vizinho não lava o prato dele. Concentre-se no seu. Uma revolução social a curto prazo parece distante, mas a revolução interior pode começar agora mesmo, basta se sentar e voltar os olhos para dentro

O ESPELHO E A BESTA


De todas as invenções humanas, a mais perturbadora é o espelho. O espelho é o outro e sou eu. Tudo aquilo de bom ou de ruim que enxergo no outro, levo um pouco comigo. Quando condeno alguém à morte, imagino matar uma parte minha que não posso olhar. Não conheço sânscrito; portanto, se alguém me ofendesse em tal idioma, eu ficaria indiferente. Reconhecer a capacidade para fazer o mal, é o primeiro passo para se tornar melhor. Da tragédia grega ao terror pop; o mal só pode agir quando não é exposto à luz; reconhecido como mal. Nenhuma possibilidade humana está fora. O santo ou o monstro são destinos opostos; mas unicamente humanos. De um tigre, pode-se dizer tudo, menos que seja mau ou bom. Sidarta Gautama enfrentou Maya. Jesus Cristo foi tentado no deserto. É preciso, portanto, olhar o porão. O monstro tem um rosto banal. Poderia ser meu vizinho. Poderia ser... eu? Quando reconhecemos nossa capacidade para o mal - uma fechada no trânsito, uma visão política oposta - ficamos menos "moralistas", mais propensos ao perdão, apontamos menos o dedo; e, o que é melhor, podemos usar essa energia de um modo positivo como, por exemplo, Goya em suas pinturas mais sublimes. Só é bom, de fato, aquele que sabe que poderia ter sido mau.

PSICANÁLISE, PSICOLOGIA E LITERATURA


A neurose aponta para um referencial. Daí a necessidade de descascar a cebola até encontrar aquilo que o neurótico esconde. A esquizofrenia joga chaves. Enquanto a primeira é fechada, a segunda é aberta; conecta-se ao lego do mundo. Poe, em A carta roubada, mostra que o melhor modo de ocultar uma carta é deixá-la sobre a mesa. Para Borges, o melhor lugar para esconder um livro é a biblioteca. Às vezes, a metáfora não encobre, ela é o segredo. Às vezes, o nonsense ultrapassa a metáfora. A neurose é irmã da alegoria. Na alegoria, o significante aponta para um único significado. É decifrável. No nonsense, o significante aponta para o indecifrável: à abertura do mundo; pode ser isso, sim, mas pode também ser outra coisa, desde que a conjunção construa sentido: Campos de Carvalho, Murilo Rubião! Já não se trata de interpretar, mas de copular; conjugar um corpo ao outro para criar potência. Então, há entre a psi e a crítica literária esta paridade. A psicanálise também decifra a literatura neurótica; mas nada pode ante o delírio. Para o delírio poético, é necessária uma crítica que não reduza o texto, mas o multiplique. Uma crítica criadora e não interpretativa. O crítico como artista da Arte. Enquanto o poeta é o artista da loucura. A coragem capaz de arriscar a própria lucidez em busca de um dizer. Quem pode atravessar tantas vezes este umbral sem se esfarelar?
R: Aquele que faz de Deus os seus sapatos.

RELIGARE


Vou chamar de Cristo, mas poderia chamar de Buda, ou Homem Sagrado. Afirmo, mas não digo que estou certo. Nada disso li nos livros, é só o estágio em que me encontro, ou a franja do Mistério que me foi revelada. A persistência no caminho pode me revelar novas faces, ou o contrário do que meu entendimento havia captado. Talvez tenha de rever amanhã, talvez não. O fato é que o Cristo não nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. Histórico ou mítico, trata-se de uma parábola doada à nossa compreensão. O nascer ou morrer do Cristo são possibilidades reais do nosso coração hoje. Quando estendo a mão ao caído, sou a manjedoura; quando julgo, a cruz. Todo ser humano é multidão. Há, em cada um de nós, enquanto potência, o mais nobre e o mais vil. Cristo, Judas e Barrabás; Mr. Hyde e Dr. Jerkill. Em termos orientais, a Iluminação não é um lugar a se alcançar. Não é uma finalidade, mas uma possibilidade que se abre a cada instante, a cada escolha. Daí a importância da meditação, daí a importância do vigiar. Quando atentos, percebemos quem escolhe em nós e podemos deixar a porção mais elevada, tal qual Krishna para Arjuna, conduzir a carruagem do Ser: re-ligar. Quando desatentos, preocupados, culpados, ou ansiosos, tal qual Otelo, fica fácil ouvir as intrigas do Iago interior. É tudo dentro, é tudo agora. O santo ou o canalha não habitam o futuro, são possibilidades deste instante. Até no modo como pago o café que acabei de tomar, posso ser um Deus ou um Demônio. Tudo depende da disponibilidade amorosa de meu coração

I - O LIVRO INFINITO


Imagine um livro vivo. Que dialogasse com você a cada momento de sua vida. Imagine que este livro não começasse na primeira página nem terminasse na última. Em qualquer lugar que se abrisse, seria o começo. Quanto ao fim, não existiria; as coisas não terminam, transformam-se. Não, não estou falando de Rayuela, de Julio Cortázar, mas do I Ching. Na concepção taoísta, tudo no universo nasce a partir da interação entre duas forças complementares: yin e yang. Grosso modo, yin seria o princípio feminino e yang, o masculino; como o Taoísmo surge a partir da contemplação da natureza, o primeiro seria a face sombria da montanha, ainda não iluminada pelo sol; o segundo, a face iluminada. De manhã, o sol ilumina uma face; de tarde, outra. Deste modo, o que era yang passa a ser yin e vice-versa. I significa mutação e ching livro. Um livro que acompanha as mutações não poderia, portanto, ser estático. Daí o caráter dinâmico do I Ching. O livro é composto por 64 hexagramas. Cada um deles constituído por uma combinação de linhas yin e yang. A linha inteira é sempre yang; a seccionada yin. Da interação entre tais linhas; a princípio em trigramas, depois em hexagramas; surgem as configurações do momento presente. Toda situação tem uma face visível e uma invisível; acontecimento e potência, yang e yin. Para os gregos, cronos e aion; em termos bergsonianos, atual e virtual. O uso do livro enquanto oráculo se propõe a consultar não o futuro, posto que ele não está dado, mas as forças envolvidas numa determinada situação. Sempre me perguntam o que estou lendo e há certa soberba em dizer que se lê muitos livros. Nos últimos tempos, tenho estudado de maneira calma os livros da tradição taoista: o I Ching, o Tao Te Ching, os textos de Chuang Tzu. Sinto que uma vida é pouco para se dedicar a livros inesgotáveis. Ainda não conheço bem a Fonte que desce daquele monte.

A ETERNIDADE NUM MOMENTO DE CARINHO

Tire-se do caminho. Deixe que algo maior se expresse através de você. Dê-lhe o nome que quiser; ou melhor, não nomeie. Há uma passagem no Evangelho de Mateus, na qual Jesus diz que, se tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda e ordenássemos a uma montanha que se jogasse no mar, ela obedeceria. A questão central é: o que é a fé? Fé é abandono, renúncia, ausência de eu. Nenhum poder aí seria meu. Eu estaria encolhido num cantinho de mim para que a Desmesura pudesse se pronunciar. Não haveria, nesta ordem, qualquer traço de um desejo meu; apenas meu coração vazio, feito flauta, para soar a ordem. Tal comando não dependeria de minha vontade. Se fosse eu mesmo a dá-la, nenhum grão de poeira se moveria. Ter fé não é pedir facilidade, almejar ter os desejos mais mesquinhos satisfeitos; pelo contrário, ao Cristo destinaram a paixão. Nossa fé é ínfima porque temos medo. Por medo, duvidamos - os filhos tarde da noite na rua. Por medo, mentimos. Por medo, refugiamo-nos na fé e, por medo, ainda não temos fé o bastante. Se nossa fé fosse do tamanho de um grão de areia, não haveria necessidade de ordenar que a montanha se atirasse ao mar. Pelo contrário, gozaríamos em aprender com o obstáculo. Toda montanha é uma dificuldade; mas, do alto dela, nossa vista se torna mais ampla. Ter fé é, por fim, querer a montanha aí onde ela está e ser grato por possuir, apesar do esgotamento, forças para escalá-la. Ter fé é aceitar o caminho e adaptar-se a ele tal qual olho d'água que desce esta mesma montanha.

A fé não murmura, aprende

SILENCIOSAMENTE, VOCÊ TOCA MINHA FACE

 

A porta para a eternidade não está no futuro; não é a morte, mas o agora. Nenhum dia é banal. Nenhuma atividade pode ser feita de maneira desatenta. Há êxtase em tudo que é feito com atenção. Cada instante que se abre tem uma face eterna. Nenhum de nós sabe o que marca o outro e é característico que o entendimento só aconteça muito tempo depois. O perdão, a gentileza, o carinho, a palavra de amor podem se tornar a lembrança de nós que vai se incorporar ao outro quando já não estivermos aqui. Tal qual incenso, nenhum de nós acaba, mas se espalha, ganha sutileza, passa a ser perfume no ar, dentro do outro. Enquanto existir um único ser humano, nenhum de nós estará morto. Isso que chamamos morrer não é findar-se, mas se expandir. O que deixa de existir são os apegos e desejos; o ego, enfim, a parte mais banal de cada um. Isso morre mesmo. Às vezes, tais apegos são tão enraizados que queremos um reino dos céus só para nossa mesquinharia. Está um dia lindão lá fora. Fácil fazer dele um pedaço de sempre. Vou assar lasanha pros meus filhos e dar banho nos cachorros. Quero o paraíso agora!

INDIGNAÇÃO


Tudo aquilo que nos indigna é porque nos vemos refletidos. Dois casos: o desembargador e o guarda; o playboy e o motoboy. Se num momento nos identificamos com o lado mais fraco, ainda não é por isso que ficamos indignados; mas por sabermos que, no fundo, somos também os agressores. Vivemos numa sociedade que valoriza o ter, o mesmo motoboy que foi ofendido defendeu-se dizendo o que tinha e quanto ganhava. Não quebrou a corrente. Uma semana depois, era contratado contente para fazer publicidade de marcas poderosas. Além disso, muitas agressões posteriores ao morador de condomínio voltavam-se ao seu aspecto físico (o mesmo se deu com o desembargador). Chamaram-no de gordo, esquisito. Um tipo de comportamento que tem a mesma raiz que o racismo. A gente vive a vida alternando essas posições. O capital é como uma Hydra, corte-se-lhe uma cabeça e nascem-lhe duas. Com a campanha da Thammy, em uma semana, os donos da Natura ficaram alguns bilhões mais ricos. E Djamila Ribeiro foi capturada com seu lugar de fala e tudo para divulgar produtos voltados ao público preto. O sistema nos aprisiona pelo ego. Achamos o desembargador de Santos escroto, e de fato; mas todos valorizamos um título e não ouvimos a faxineira com o mesmo ouvido que abrimos ao Doutor. Se alguém vai abordar determinado assunto, só ouvimos depois da carteirada. Não escutamos primeiro as palavras, mas os títulos. Algumas vezes, a lista de títulos é mais longa que a fala. Então, o desembargador escroto é só um caso extremo de algo que é aceito, incentivado e louvado. Assim como acontece com o racismo, tal comportamento é estruturante e não caso individual, isolado. A sociedade inteira faz acepção de pessoas pelo que elas têm e não pelo que são. A sociedade inteira valoriza as pessoas pela posição social que alcançaram e não pela honestidade e firmeza de caráter. No fim das contas, o que nos revolta é nossa sombra mesma refletida.

ORIN

 ORIN

foi procurar Mestre Dogen porque seu bebê estava desenganado pelos médicos. Ela era prostituta e precisava muito ser amada. A criança era o único lugar no mundo onde ainda se sentia humana. O Mestre ordenou que ela procurasse no vilarejo uma casa onde ninguém tivesse perdido um ente. Se desse à criança um único grão de arroz de tal casa, o bebê se restabeleceria. Óbvio, Orin não encontrou. Morte e vida são inseparáveis. Neste dia, em solidão, Mestre Dogen chorou; mas ainda precisou ser firme. Orin pediu para ser aceita no mosteiro; seu coração, no entanto, ainda não estava pronto e Dogen teve de negar. Aconselhou que Orin voltasse à cidade e praticasse zazen. Muitas coisas aconteceram, o jovem cozinheiro do mosteiro partiu, pois apaixonara-se pela moça; que rondava. Tempo. Em seu leito de morte, Mestre Dogen pediu ao seu braço direito que ordenasse Orin; estava pronta. Ela então se tornou a responsável pela educação espiritual das crianças; sua vocação desde sempre. Viver é também atravessar sofrimentos. Quando observo meus filhos, queria tomar para mim suas dores: decepções, frustrações, o primeiro amor desfeito, eu passei e sei que tudo é muito; mas, assim como não posso ditar-lhes a profissão, não posso viver o destino deles. Só posso dizer que estou aqui e sou colo e amor. Não tenho como evitar as lágrimas, mas posso ser o abraço quente onde vêm chorar. Quando nos afastamos de nossa alma, o sofrimento é um chamado, estávamos num caminho errado, numa jornada que não nos pertencia. A dor nos traz de volta ao nosso destino. Cabe-nos a tarefa de compreender qual lição determinada dor vem ministrar. A vida só ganha contorno de um significado se observada do fim para o começo. Enquanto caminhamos sobre as águas: paciência. Como disse Riobaldo: "Deus é paciência, o contrário é o Diabo"

O INCONSCIENTE E OS ZUMBIS


Adorno acreditava que a indústria cultural era o decreto do fim. O homem como conhecíamos, assim como seu Deus, estava morto. Tudo o que restava era o domínio técnico a serviço do capital. Neste ponto, quase concordava com seu antípoda: Martin Heidegger. Acontece que o Inconsciente não se rende. Apesar de toda colonização psicológica, exercida por um exército marqueteiros a serviço do sistema, o Inconsciente resiste; não apenas como teatro edípico, morada dos arquétipos, ou linguagem. Estas são apenas as camadas mais superficiais. Embora seja um pouco de tudo isso, o Inconsciente ultrapassa. É incontinente. É mesmo morada da Desmesura; ponte entre o homem e o sagrado. O Inconsciente é poético! E máquinas e autômatos não produzem poesia; é nele, portanto, que se refugia a humanidade do homem. Em tempos de crise, o Inconsciente se revela; no plano individual, por meio do sonho; no coletivo, por meio da cultura, ainda que de massa. E é interessante notar a ascensão dos zumbis. Diz muito sobre nosso tempo. Os zumbis caminham como autômatos, mortos vivos, são rígidos e frios, incapazes de sentimentos profundos; os zumbis vagam, erram sobre a Terra e, sintomático, alimentam-se de cérebros. Agora, saia à rua ou continue nesta rede social e responda sinceramente: estamos mais próximos de Buda, Platão, Vincent van Gogh, George Harrison ou da massa amorfa de zumbis que povoa nossas telas e livros? O Inconsciente alerta. Ouviremos o chamado?

ONIPOTÊNCIA

O ser humano confia nos seus sentidos; mas o amor de uma mãe por seu filho não é palpável, não tem sabor ou cheiro, não se pode ver ou ouvir e, no entanto, existe e é. Quem crê unicamente nos sentidos e no científico é mais pobre que uma flor morta. Pior, é desumilde. Toma a si mesmo - o ser humano - como medida do universo. A ferida narcísica é só um convite à humildade. A raiz do sofrimento é a arrogância. O problema humano não é político, mas ontológico. A todos nós falta a coragem para encarar o mistério e reconhecer nossa insignificância. Enquanto não nos voltarmos à origem oculta, todas as reformas e revoluções, versões materialistas do mesmo erro, desembocarão na tragédia. Isto, todavia, não nos impede de lutar para que todos tenham pão e casa. Vivemos dependurados no milagre. Todos os fogos dissolvem-se no sol: o ser que sou só é por dádiva do Ser. Não tenho qualquer controle sobre o movimento de meus pulmões, assim como não controlo o oxigênio que circula ao redor. Meus pulmões, no entanto, continuam me mantendo vivo e o amor, revestido de ar, a cada inspiração, inunda meu organismo de vida. Eu posso ver inclusive as cores de tal balé; tudo é translúcido! Se o homem prestasse atenção deveras a uma única respiração, tornar-se-ia espiritual, pois não teria como ignorar o milagre. Nasce novo dia para povoarmos de eternidade. Menos é mais; por hoje, afetividade, simplicidade, economia🌻

JAH


Não importa o quanto os tempos sejam duros e quanta solidão, incompreensão e isolamento se tenha de enfrentar, um homem deve se manter fiel a si mesmo. Quanto maior a provação, mais força interior ele ganha e mais goza em ser o que é. Basta-se a si um ser assim. Ao avistar tal homem, aqueles que negociam seu coração tremem. Por mais que se finjam de fortes, o homem fiel ao seu coração os lê como se fossem transparentes, sabe que não passam de cobardes e que tremem tanto diante do fracasso, quanto da morte. O homem que segue a lei de sua alma, por seu turno, não se importa com sucesso ou fracasso; críticas e elogios não o abalam; não o desviam de seu caminho. Ele tem como que uma coluna de fogo no centro de si e é fiel ao seu dom e ao trabalho que veio realizar. Todo o resto é frivolidade; aborrecimento; desvio. A questão é ser e não parecer. E saber sempre que nada fica oculto debaixo do céu. Ainda que esteja só, um homem ainda tem sua alma e sua vocação por testemunha. Quem está diante de uma presença assim, sabe-se diante da verdade.

A TERRA PLANA E O MAL RADICAL


Não gosto dos termos sujeito e objeto. De todo modo, creio que a questão da Terra plana refere-se muito mais ao sujeito que ao objeto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. O que é plano é o olhar e não a Terra. A Terra é múltipla. Não se trata de uma questão científica. O perigo que se nos avizinha é o do Mal, sempre radical, de que falava Hannah Arendt. O Mal radical é a aniquilação de toda diferença. Ou melhor, é a aniquilação. Como Canetti observou, um tirano tal qual Hitler começa por perseguir o diferente, mas se volta também para o igual. Quando a derrota se tornou iminente, Hitler continuou ordenando a morte, desta vez aos soldados alemães. Terminou por destruir-se a si mesmo. Quanto mais mortes, menos diversidade. No fundo, o tirano quer ser o único a sobreviver. Almeja ser o rei sobre uma pilha de cadáveres, porque é inseguro, fraco, não confia em ninguém e, enquanto existe o outro, ele se sente ameaçado. O olho plano aí tornou-se escravo de Tânatos; sujeito real por trás das marionetes. Quando não há mais o outro para matar, mata-se a si mesmo. É perigoso. É doentio. É triste. É real.

O BEBÊ ODEIA E AMA


Há um tipo de Amor que é verbo intransitivo; doação; estado de ser: eu amo. Há, no interior, um vazio pelo qual é possível ser manifestação deste Amor no mundo. A maioria dos mortais, no entanto, ama, mas precisa de um objeto no qual depositar o que há de mais belo, benigno e delicado em seu coração. Acontece que, quando a luz encontra um objeto, a sombra se projeta. Tudo que se afirma, afirma também seu oposto, ou seu complemento, ou sua diferença. O preto pode ser o oposto do branco, seu complemento, como no diagrama do Tai Chi, ou uma das muitas variações do cinza. De qualquer modo, o que quero dizer é que quem ama também odeia e que, quem muito ama, muito odeia. Esta é a ambivalência do ser humano. Lembro quando o João era pequeno - bebê guloso - se a mãe demorasse a dar o peito, ele mordia; com força, com raiva, com vontade de ferir. Por outro lado, quando ela o amamentava, olhando nos olhos, entregando amor junto ao leite, ele colocava o dedinho na boca dela, sereno, na ânsia de retribuir. É da condição humana amar e odiar. Tal paradoxo, nos mais sensíveis, pode causar, todavia, uma fissura no centro do ser. Esta fissura, por um lado é fonte de agonias impensáveis; por outro, é o vazio de que falei: o portal no qual se pode mergulhar em Deus, tornar-se mais que humano e ser presença daquele Amor sem objeto, pura emanação divina a iluminar a Terra.