ESCREVER PARA DECEPCIONAR. Para ir tanto contra os bons costumes, quanto contra o politicamente correto. Escrever para arrancar dos meus ombros as mãos daqueles que me dão tapinhas e dizem: "ele é um dos nossos!" Não sou um de vocês, tampouco sou um dos outros. Não tenho intenção de ofender, mas se ser quem sou ofende, então ofendam-se. É uma ofensa querer ser livre? Manifestar o que sente no fundo do coração? Todos têm a receita para os problemas do mundo. Todos nos querem parte da tribo, da igreja, do bando, da empresa, do partido. Posso até caminhar um pouco com a galera ao longo da jornada, mas não me esperem dizendo amém. Não me esperem seguindo ordens ou, pior ainda, dando-as. Nem no que chamam de amor vocês conseguem escapar desse jogo sujo entre dominador e dominado. Esses lados opostos engendram-se mutuamente, o que não quer dizer que sejam iguais. Fora de mim a hipocrisia, essa gente que posta sobre responsabilidade afetiva, mas engana o parceiro com o melhor amigo; que não come carne, mas sacaneia o colega de trabalho; que diz preservar a natureza, só que joga o entulho na rua. Eles são muito bons pra fiscalizar e apontar o dedo. Odeio juízes! Tampouco esperem que meu coração acompanhe os que visam o lucro, os que tratam a Terra sem o menor respeito, os canalhas que se acham superiores. Escrevo para decepcioná-los a todos: aos que me querem só dócil ou só revoltado. A vida não cabe nos seus esquemas. Os dias derrubam-se uns aos outros. Na vida, há a fúria do pai que teve a filha de cinco anos abusada; mas também a ternura entre os velhos jogando xadrez e partilhando a dor das enfermidades. Na vida, acontece a violência gratuita, mas também o amor sem porquê. Escrevo para decepcionar, porque as ideias são enrijecidas e a vida não acontece sem paradoxos. Escrevo para agredir, porque vocês me agridem diariamente, a cada instante, não dão folga, porra, repetindo sempre essa ladainha que não brotou aí, que ouviram em outra parte. Nos dias em que acordo de mau humor, tenho vontade de cortar-lhes os dedos e a língua. Escrever para sobreviver; porque o que fizemos do mundo me mata e, na palavra, encontro tanto vingança, quanto perdão.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
O MAIS PROFUNDO É A PELE
A FLOR DE LÓTUS
EPISTEME
DOM
E A VIDA É BONITONA!
ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA
O ESPELHO E A BESTA
PSICANÁLISE, PSICOLOGIA E LITERATURA
RELIGARE
I - O LIVRO INFINITO
A ETERNIDADE NUM MOMENTO DE CARINHO
Tire-se do caminho. Deixe que algo maior se expresse através de você. Dê-lhe o nome que quiser; ou melhor, não nomeie. Há uma passagem no Evangelho de Mateus, na qual Jesus diz que, se tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda e ordenássemos a uma montanha que se jogasse no mar, ela obedeceria. A questão central é: o que é a fé? Fé é abandono, renúncia, ausência de eu. Nenhum poder aí seria meu. Eu estaria encolhido num cantinho de mim para que a Desmesura pudesse se pronunciar. Não haveria, nesta ordem, qualquer traço de um desejo meu; apenas meu coração vazio, feito flauta, para soar a ordem. Tal comando não dependeria de minha vontade. Se fosse eu mesmo a dá-la, nenhum grão de poeira se moveria. Ter fé não é pedir facilidade, almejar ter os desejos mais mesquinhos satisfeitos; pelo contrário, ao Cristo destinaram a paixão. Nossa fé é ínfima porque temos medo. Por medo, duvidamos - os filhos tarde da noite na rua. Por medo, mentimos. Por medo, refugiamo-nos na fé e, por medo, ainda não temos fé o bastante. Se nossa fé fosse do tamanho de um grão de areia, não haveria necessidade de ordenar que a montanha se atirasse ao mar. Pelo contrário, gozaríamos em aprender com o obstáculo. Toda montanha é uma dificuldade; mas, do alto dela, nossa vista se torna mais ampla. Ter fé é, por fim, querer a montanha aí onde ela está e ser grato por possuir, apesar do esgotamento, forças para escalá-la. Ter fé é aceitar o caminho e adaptar-se a ele tal qual olho d'água que desce esta mesma montanha.
SILENCIOSAMENTE, VOCÊ TOCA MINHA FACE
INDIGNAÇÃO
ORIN
ORIN
O INCONSCIENTE E OS ZUMBIS
ONIPOTÊNCIA