Quando, hoje, depois de trinta anos, encontrei Cesário, senti uma coisa estranha; algo parecido ao que sentimos ante um vaso quebrado, ou na presença de alguém com uma dor impenetrável, como aquela que intuímos, mas não alcançamos, no interior de alguém que perdeu os filhos adolescentes num acidente. A ferida aí ultrapassa qualquer expressão e a pessoa fica com um ar assim alheio, abobalhado; como se estivesse em outro lugar. Na juventude, fomos loucos um pelo outro. Ambos quase largamos família. Agora, Cesário vivia de favor num cômodo de cortiço. Estava grisalho, gordo, banguela. Depois de muitas tentativas, tinha desistido de tentar parar e, o pior, já não escrevia. Há pessoas que cometem suicídio, mas há outras que vão desistindo aos poucos. E se acostumam ao ato de deixarem-se morrer. Ele ficou feliz ao me ver; eu, entretanto, me sentia como as irmãs de Lázaro. Ao nos abraçarmos, senti cheiro de coisa morta. E chorei. Não por ele, nem por mim, mas por tudo o que perdemos pela beira do tempo, ao longo do caminho. "Se cuida, gatinha!" - disse quando a gente estava se despedindo e, então, sorriu. Em algum lugar no interior daquele morto-vivo, o menino resistia e agora sorria através de uma face deformada. No sorriso vazado de Cesário, vi ecos da menina que eu mesma enterrei há muito. Tal e qual prédio antigo caindo em câmera lenta na tela da tevê, algumas vidas são um lento processo de demolição
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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