quinta-feira, 22 de outubro de 2020

MULHER DEPENDURADA NA MANHÃ


O outro já não saía de casa, tornara-se eremita; mas, disso, ela não sabia. Observava os corpos nus pelo espelho no teto. Embora houvesse tatuagens e intervenções estéticas, nada disso trazia de volta a rigidez. Vivia os últimos e o ponteiro de segundos soava o Inexorável. Agora, depois do orgasmo, sentia-se um pouco. Por outro lado, a imagem no teto daria uma boa pintura. Em outra encarnação, quiçá. O garoto roncava. A juventude só precisa ser jovem. Já a maturidade pode nos trazer prêmios, reconhecimento, dinheiro e a sensação de que. O que procurávamos mesmo com tanto afinco? O Sol, a Terra; arquetipologia e solidão; nada em particular. Zapeou os canais; parou por instantes em um no qual uma péssima atriz gemia. Desligou. Banheiro. Água-rosto-retorno. Sentou-se na cadeira, pegou uma fruta e, aí, o garoto acordou. Feito neto, levantou fazendo barulho, coçando-se, abrindo janelas. Atirou-se ao chão e executou sequência de flexões... E, Deus, como falava! Logo de manhã! Blá, blá, blabíceps e tríceps... Para que se calasse, ofereceu uma maçã:
- Estão murchas, gatona!
Só aí percebeu que a vida em suas mãos tinha um gosto de plástico; ou de morte; ou de terra.
Apesar do som de estacas, a manhã seguiu lenta e resiliente como a fila do mercado pra terceira idade. Em algum momento do passado, o monge havia dito: "Deve ter algo mais, vou me sentar até descobrir o segredo".
Que inveja ela sentiu, enquanto apanhava as chaves do quarto e do carro.
A imagem pode conter: comida
Lívia Regina, Bianca Nóbrega e outras 15 pessoas
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