Adorno acreditava que a indústria cultural era o decreto do fim. O homem como conhecíamos, assim como seu Deus, estava morto. Tudo o que restava era o domínio técnico a serviço do capital. Neste ponto, quase concordava com seu antípoda: Martin Heidegger. Acontece que o Inconsciente não se rende. Apesar de toda colonização psicológica, exercida por um exército marqueteiros a serviço do sistema, o Inconsciente resiste; não apenas como teatro edípico, morada dos arquétipos, ou linguagem. Estas são apenas as camadas mais superficiais. Embora seja um pouco de tudo isso, o Inconsciente ultrapassa. É incontinente. É mesmo morada da Desmesura; ponte entre o homem e o sagrado. O Inconsciente é poético! E máquinas e autômatos não produzem poesia; é nele, portanto, que se refugia a humanidade do homem. Em tempos de crise, o Inconsciente se revela; no plano individual, por meio do sonho; no coletivo, por meio da cultura, ainda que de massa. E é interessante notar a ascensão dos zumbis. Diz muito sobre nosso tempo. Os zumbis caminham como autômatos, mortos vivos, são rígidos e frios, incapazes de sentimentos profundos; os zumbis vagam, erram sobre a Terra e, sintomático, alimentam-se de cérebros. Agora, saia à rua ou continue nesta rede social e responda sinceramente: estamos mais próximos de Buda, Platão, Vincent van Gogh, George Harrison ou da massa amorfa de zumbis que povoa nossas telas e livros? O Inconsciente alerta. Ouviremos o chamado?
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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