No cinema, isso seria a tela onde o filme é projetado. Pensemos em Bach, nos Beatles ou no peruano que toca flauta na praça da Sé. A música pode ser diferente, mas o silêncio do qual cada nota emerge é igual. Assim como a tela está para o filme e o silêncio para a música; o vazio está para o mundo. Há um vazio que dá origem, atravessa, sustenta e dissolve tudo aquilo que é. O mundo acontece dependurado numa ausência e essa ausência se manifesta no coração humano como saudade. Daí essa dorzinha boa no fundo de cada instante feliz; daí que, no meio do luto, num repente, a gente é atravessado por alegria criadora. Todos temos regiões ocas, pedaços inteiros de morte e não-ser. Tais buracos, ao mesmo tempo em que doem, são portais para o absolutamente outro. Assim como o silêncio une Bach, os Beatles e o flautista peruano; o vazio me faz o mesmo que Jesus, Sidarta, uma ameba, ou um beija-flor. Jesus não é o único Cristo; Sidarta não é o único Buda. Quando aceito que o que É não é meu corpo, pensamentos, memorias e emoções, mas o vazio eterno do qual tudo isso brota no tempo, posso olhar para mim mesmo como se fosse um outro e para meu inimigo como se fosse a mim mesmo: compreensão; amor; serenidade. O que é eterno em mim é aquele pedaço ao qual não posso chegar, porque nele me dissolvo. No fim das contas, o vazio é o mundo e o mundo é o vazio. No fim das contas, o vazio é o vazio e o mundo é o mundo
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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