Quando cheguei, pude ouvi-lo dizer à mãe: "se o menino não me tivesse puxado tanto, Maria, poderíamos ter sido mais próximos". Meu pai veio morrer em casa. Não há mais que fazer. O câncer, feito incêndio, espalhou-se pelo corpo, pela casa, o país, o mundo. Ele ainda consegue se sentar na poltrona e assistir ao Datena; mas já não pode tomar banho, ou caminhar de volta ao quarto. Por isso estou aqui. "Não precisava ter vindo, sou duro o suficiente para encarar mais essa sozinho". Madrugada passada, entretanto, ouvi-o chorando. Sei que está com medo, mas a couraça não o deixa admitir. Receia que eu cante vitória. Não voltei para isso. Nessa guerra não houve vencedores. Nenhum ser humano quer fazer sozinho essa viagem; nossa família, porém. Nunca conseguimos conversar. Eu também não admitiria. Somos iguais, mas antípodas. Eu me tornei meu pai pela negação e, embora esteja desarmado, não consigo fugir à discussão. Quando, contudo, no primeiro dia, instalei-me no meu antigo quarto, encontrei, perdido em uma das gaveta, o carro de boi de brinquedo que entalhamos juntos há mais de trinta. Aquele foi o primeiro objeto. De lá para cá, tenho confeccionado violões, contrabaixos e guitarras para alguns dos músicos mais importantes do mundo. Tinha me esquecido, foi o pai quem me deu o primeiro formão. Agora ele está morrendo; a cada segundo. E não conseguimos conversar
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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