quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SUPEREGO-CALIGARI

Eu engoli uma Alemanha

Há em mim uma coisa fria feito faca
Algo mórbido, sombrio, enrijecido
Ultraviolento e, ainda assim, delicado
Há toda uma Alemanha em mim
Florestas cheias de maus presságios
Onde feiticeiras trans emasculam homens dotados
E os lobos esperam vísceras em silêncio
Há em mim essa parcela gótica, romântica, visceral-gelada
Mora, mora em mim uma Alemanha
E nela cabem
A mulher barbada
O mago cornudo
A estrela vaudeville destinada ao suicídio
E eu sou também
Essa festa de carnaval em preto e branco
Essa compreensão intuitiva de Nietzsche, Heidegger, Schopenhauer
Caem sobre mim, quando anoiteço
Toda uma legião de anjos de Win Wenders
Bach, Beethoven, Pachelbel
Essa força que me castra como uma língua imposta, como um pai de Kafka
Todos os meus pesadelos são Auschwitz
Porque metade de mim é um general nazista,
Mas a outra metade, um menino judeu:
caramelo escondido no bolso para presentear a irmã mais nova

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