Pela boca de sua principal personagem conceitual, Shakespeare afirmou a precedência do Mistério ao mundo desencantado. E Freud, nascido num berço de tradição patriarcal, reconheceu o fantasma do pai no interior da neurose. O caso que vos narro lança, pois, âncora tanto sobre o mistério, quanto sobre a figura do pai. Assim como eu, meu pai foi músico, ainda que ele tenha sido muito mais famoso. Devo confessar que, apesar de gritar o tempo inteiro, o pai nunca me agrediu fisicamente. Por outro lado, aplicava castigos de extrema violência psicológica. O mais recorrente era me deixar sentado diante de um espelho, sem poder fechar os olhos, por dez, doze horas. Pouco antes de ele levar aqueles cinco tiros, tivemos uma conversa. Parecíamos prever. Ele disse que, caso algo acontecesse, indicar-me-ia, por meio de uma pena branca, que tudo estava bem do outro lado. Pois bem, o pai foi morto. Nos anos que se seguiram, enveredei por uma espiral de vício e ideação suicida. Nunca comentei o episódio da pena. E, então, mês passado, numa tentativa desesperada de parar, viajei rumo a uma tribo isolada no meio da floresta amazônica com o intuito de passar por um ritual de cura calcado nas medicinas da floresta. Na mais tensa das sessões, o xamã, que de modo algum tinha como saber da conversa entre mim e meu pai, entregou-me, num momento em que pude sentir a presença do outro, uma pena branca e, nesta mesma tarde, ao voltar para a oca, fiquei horas sentado ante o único objeto: um espelho. Desde então, meus amigos, a compulsão pareceu ceder
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