Quando nos encontramos pela primeira vez, eu não estava vivendo bons tempos. Tinha acabado de passar por um processo de separação dos mais difíceis e olha que eu só tinha dezenove anos. Não que eu seja muito mais velho agora, isso faz uns dois anos, mas naquela época eu era muito mais inconseqüente. Foi assim: eu estava embriagado, dor de corno se é que me entendem, dentro de um táxi e ela, num semáforo, sem mais nem menos abriu a porta do carro correndo e entrou. Não que ela fosse linda, não era, mas feia também não era, ela era diferente e tinha uns olhos que mudavam de cor. Dependendo de como a gente olhava pra eles, os olhos ficavam verdes, azuis, castanhos e até pretos. Como seu nariz estivesse sangrando, eu arranquei a camiseta e entreguei pra que ela estancasse o líquido que brotava em jorros.
- Filho da puta. – Era tudo o que ela dizia e redizia.
Do meu lado, foi amor à primeira vista. Sou um cara muito impressionável. Todo mundo diz. Tenho a mania de ver magia nos seres e nas coisas. Tenho a mania de ficar procurando poesia em pessoas que muitas vezes são ocas, ou que, como ela mesma repetia, naquela noite, são umas verdadeiras filhas da puta. Sei lá eu o que é isso. Vício de sofrer, ou parcialidade talvez. Sei que, mesmo amando daquele jeito, fiquei com o pé atrás comigo mesmo. Nunca fui veado nem nada, de qualquer forma, estava mesmo cansado de tomar no cu. Chega uma hora em que a gente tem de pôr os pingos nos is e parar de fantasiar. Mas ela me disse que ele batia nela o tempo todo e que era um cara muito rico e poderoso. Eu nunca quis bater em ninguém e nem nuca fui rico ou poderoso. Também nunca quis nada dessas coisas, o que eu procurava mesmo era a paz. Todo mundo se fode na vida, todo mundo se despedaça de vez em quando, contudo eu me dava mal o tempo todo. Uma vez, eu contei minha história a um carroceiro, desses que pegam lixo reciclável, e até o burro chorou. Sem brincadeira, pra vocês verem como a coisa andava feia pro meu lado. Não cheguei a perguntar por que ela não largava o tal poderoso, tava na cara. O dinheiro impressiona as pessoas e faz dos homens seres confiantes e fortes. A maioria das mulheres gosta disso. Vai entender as mulheres.
No fim, fomos parar no apartamento dela e fizemos amor, mesmo sem sexo ou qualquer coisa assim. Ficamos nus e nos masturbamos mutuamente. De masturbação eu sempre entendi bastante. Acho que ela gostou, porque, daquele dia em diante, passamos a nos ver com alguma freqüência e, depois, essa alguma freqüência tornou-se um sempre.
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- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Ela me diz, enquanto eu acaricio seu rosto inchado. Porra... algumas coisas são intoleráveis. Palavra.
- Por que porra você não manda de uma vez esse cara à merda? Você não precisa dele. A gente pode ter uma vida diferente juntos. Mesmo sem muita grana nem nada. A gente podia visitar uns museus. Assistir uma peça, ou ir ao cinema de vez em quando. Isso não te faria bem? Não te deixaria feliz?
- Talvez fizesse, mas é que eu amo esse cara. Queria sentir por você o que sinto por ele. Caralho... vocês não podem imaginar como dói ouvir uma coisa dessas assim... na lata. É mesmo coisa de fazer o camarada perder de vez as esperanças.
- Você o ama, mas ele te arrebenta as fuças o tempo todo!
- Sei que ele pode ser um pouco bruto, mas é a forma dele me dar amor. Ele teve muitos problemas na infância, é um cara confuso.
- E quem é que não teve problemas na infância. A minha mesmo foi uma merda. Nem por isso fico por aí arrebentando a cara dos outros. Ele é um filho da puta mesmo, isso sim.
- Talvez eu também seja culpada.
- Claro que é. Isso não se discute, mas você sabe que esse tipo de coisa não te faz bem. Que não vai te levar a lugar algum.
- Quando ele me bate, eu me sinto viva. – Ela diz e então acende um cigarro. Com essas últimas palavras, até eu fiquei com vontade de acabar de arrebentar a cara dela, pra ela deixar de ser idiota. Entretanto, tudo o que fiz foi dar um beijo no rosto dela e atravessar a rua sem dizer adeus. Sabia que tudo estava consumado. Meu coração era uma ferida rasgada por trás das costelas. O fim de um amor, quando ainda se ama, dói como uma morte. Não é fácil enterrar um filho, ou uma mãe, ou um parente próximo. Não é fácil enterrar um amor vivo. É como colocar um ente querido no caixão e joga-lo pra dentro da terra enquanto ele ainda respira. Talvez eu tenha olhado uma, ou duas vezes para trás. Ela estava olhando pra mim. Não sei se ela percebeu que eu não voltaria mais. Nunca mais. Ao todo ficamos juntos sete meses. Sei que pode parecer pouco, mas sinto que vou levá-la dentro de mim pra sempre. Caras sonhadores, como eu, apaixonam-se fácil, não há diferença entre nós e um cachorro vira-latas. Basta um elogio, uma carícia e já estamos conquistados pra sempre. É mesmo de dar nojo.
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Agora dirijo meu opala velho, para fugir dela, nessa estrada que leva sempre ao Norte. Não há nada além da poeira e do caminho. É estranho, mas não trafegam outros automóveis. Não existem postos de gasolina. Não há hotéis, ou coisa que o valha. A memória é um pântano e uma desgraça. Não consigo me esquecer dela. Tudo é motivo pra lembranças. Faz calor. O Sol frita meu cérebro, meu carro velho e meu corpo. A gasolina está quase no fim e eu faria qualquer coisa por um banho e uma cerveja bem gelada. E aquele filho da puta continuaria a espancá-la e ela continuaria a amá-lo. Se eu tivesse tendências, depois dessa, teria me tornado um serial killer. É sério. O inferno é que sou mesmo um covarde e que o suor escorre o tempo todo pelo meu rosto. Calor. Calor cremoso e sufocante, daqueles que deixa trêmula a estrada inteira. Até o asfalto parece que vai derreter. Nos filmes americanos chamam isso de deserto. Por aqui o calor tem o nome de Sertão e eu não passo de um cara triste do sul.
- Nem o inferno pode ser tão quente! – Digo e neste exato instante, como se fosse uma resposta divina, avisto a igrejinha velha quase que em ruínas. - Senhor tende piedade dos fracos, dos sensíveis e dos que perderam as esperanças. Obrigado Deus! Eu sou um deles.
Desço do carro, estico os músculos e entro na igreja. Por dentro, a coisa não tem muito que ver com uma igreja. Há luzes vermelhas que piscam anunciando: IRENE´S BOITE, um imenso balcão, bebidas, algumas mesas, moscas e um rádio que toca uma canção brega qualquer. Calipso, talvez, não sei ao certo. Atrás do balcão e ao lado das bebidas, existe uma porta enfeitada com uma cortina de pérolas vermelhas. Como não há ninguém, eu finjo tossir um pouco pra ver se surge alguém que me atenda, todavia não aparece viva alma. É então que eu reparo no pequeno sino, encostado num canto. Pego-o e chacoalho-o. Não demora muito e uma mulher morena, de cabelos lisos, na altura dos ombros, baixa, de nariz grande, lábios salientes e sorriso lindo surge por detrás da cortina.
- Boa tarde, senhor. O que deseja? - Ela me pergunta esticando ainda mais o sorriso.
- Eu gostaria de tomar um bom banho, beber alguma coisa gelada e depois comer algo bem leve.
- Acho que posso ajudá-lo. – Ela diz ainda sorrindo e colocando um cd da Ivete Sangalo pra tocar. – Pode me seguir. - Continua em seguida, enquanto abre uma portinha na lateral do balcão.
Eu a sigo feliz da vida até um banheiro onde há uma imensa banheira branca e antiga. Ela, delicadamente, retira minhas roupas, sem jamais deixar cair seu sorriso baiano do rosto. Passa a mão na minha própria face, enquanto a banheira enche, e fica me olhando como se me conhecesse há muito, quem sabe até desde outras encarnações.
- Eu te esperei tanto tempo! – Diz e em seguida me coloca dentro da banheira e sai pra logo depois voltar com um belo cálice de vinho nas mãos. Entrega-me o vinho. Eu noto que em seu braço moreno existem pequenas cicatrizes brancas.
- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Eu digo.
- Eu sinto a dor o tempo todo. – Ela responde e sai outra vez. Eu, por meu lado, vou bebericando o vinho e curtindo a água quente, sentindo meu corpo, aos poucos, ficar completamente relaxado, como se não me pertencesse mais. Tudo me agrada e eu quase sorrio. O sono vem leve e pesado feito um som do Led Zeppelin. A última coisa que percebo é a luz vermelha piscando no teto e ainda repito por umas três ou quatro vezes a palavra: AMOR. Pelos meus ouvidos ecoa a voz de Luciano Pavaroti. Ela deve ter posto alguma coisa no vinho.
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- Filho da puta. – Era tudo o que ela dizia e redizia.
Do meu lado, foi amor à primeira vista. Sou um cara muito impressionável. Todo mundo diz. Tenho a mania de ver magia nos seres e nas coisas. Tenho a mania de ficar procurando poesia em pessoas que muitas vezes são ocas, ou que, como ela mesma repetia, naquela noite, são umas verdadeiras filhas da puta. Sei lá eu o que é isso. Vício de sofrer, ou parcialidade talvez. Sei que, mesmo amando daquele jeito, fiquei com o pé atrás comigo mesmo. Nunca fui veado nem nada, de qualquer forma, estava mesmo cansado de tomar no cu. Chega uma hora em que a gente tem de pôr os pingos nos is e parar de fantasiar. Mas ela me disse que ele batia nela o tempo todo e que era um cara muito rico e poderoso. Eu nunca quis bater em ninguém e nem nuca fui rico ou poderoso. Também nunca quis nada dessas coisas, o que eu procurava mesmo era a paz. Todo mundo se fode na vida, todo mundo se despedaça de vez em quando, contudo eu me dava mal o tempo todo. Uma vez, eu contei minha história a um carroceiro, desses que pegam lixo reciclável, e até o burro chorou. Sem brincadeira, pra vocês verem como a coisa andava feia pro meu lado. Não cheguei a perguntar por que ela não largava o tal poderoso, tava na cara. O dinheiro impressiona as pessoas e faz dos homens seres confiantes e fortes. A maioria das mulheres gosta disso. Vai entender as mulheres.
No fim, fomos parar no apartamento dela e fizemos amor, mesmo sem sexo ou qualquer coisa assim. Ficamos nus e nos masturbamos mutuamente. De masturbação eu sempre entendi bastante. Acho que ela gostou, porque, daquele dia em diante, passamos a nos ver com alguma freqüência e, depois, essa alguma freqüência tornou-se um sempre.
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- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Ela me diz, enquanto eu acaricio seu rosto inchado. Porra... algumas coisas são intoleráveis. Palavra.
- Por que porra você não manda de uma vez esse cara à merda? Você não precisa dele. A gente pode ter uma vida diferente juntos. Mesmo sem muita grana nem nada. A gente podia visitar uns museus. Assistir uma peça, ou ir ao cinema de vez em quando. Isso não te faria bem? Não te deixaria feliz?
- Talvez fizesse, mas é que eu amo esse cara. Queria sentir por você o que sinto por ele. Caralho... vocês não podem imaginar como dói ouvir uma coisa dessas assim... na lata. É mesmo coisa de fazer o camarada perder de vez as esperanças.
- Você o ama, mas ele te arrebenta as fuças o tempo todo!
- Sei que ele pode ser um pouco bruto, mas é a forma dele me dar amor. Ele teve muitos problemas na infância, é um cara confuso.
- E quem é que não teve problemas na infância. A minha mesmo foi uma merda. Nem por isso fico por aí arrebentando a cara dos outros. Ele é um filho da puta mesmo, isso sim.
- Talvez eu também seja culpada.
- Claro que é. Isso não se discute, mas você sabe que esse tipo de coisa não te faz bem. Que não vai te levar a lugar algum.
- Quando ele me bate, eu me sinto viva. – Ela diz e então acende um cigarro. Com essas últimas palavras, até eu fiquei com vontade de acabar de arrebentar a cara dela, pra ela deixar de ser idiota. Entretanto, tudo o que fiz foi dar um beijo no rosto dela e atravessar a rua sem dizer adeus. Sabia que tudo estava consumado. Meu coração era uma ferida rasgada por trás das costelas. O fim de um amor, quando ainda se ama, dói como uma morte. Não é fácil enterrar um filho, ou uma mãe, ou um parente próximo. Não é fácil enterrar um amor vivo. É como colocar um ente querido no caixão e joga-lo pra dentro da terra enquanto ele ainda respira. Talvez eu tenha olhado uma, ou duas vezes para trás. Ela estava olhando pra mim. Não sei se ela percebeu que eu não voltaria mais. Nunca mais. Ao todo ficamos juntos sete meses. Sei que pode parecer pouco, mas sinto que vou levá-la dentro de mim pra sempre. Caras sonhadores, como eu, apaixonam-se fácil, não há diferença entre nós e um cachorro vira-latas. Basta um elogio, uma carícia e já estamos conquistados pra sempre. É mesmo de dar nojo.
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Agora dirijo meu opala velho, para fugir dela, nessa estrada que leva sempre ao Norte. Não há nada além da poeira e do caminho. É estranho, mas não trafegam outros automóveis. Não existem postos de gasolina. Não há hotéis, ou coisa que o valha. A memória é um pântano e uma desgraça. Não consigo me esquecer dela. Tudo é motivo pra lembranças. Faz calor. O Sol frita meu cérebro, meu carro velho e meu corpo. A gasolina está quase no fim e eu faria qualquer coisa por um banho e uma cerveja bem gelada. E aquele filho da puta continuaria a espancá-la e ela continuaria a amá-lo. Se eu tivesse tendências, depois dessa, teria me tornado um serial killer. É sério. O inferno é que sou mesmo um covarde e que o suor escorre o tempo todo pelo meu rosto. Calor. Calor cremoso e sufocante, daqueles que deixa trêmula a estrada inteira. Até o asfalto parece que vai derreter. Nos filmes americanos chamam isso de deserto. Por aqui o calor tem o nome de Sertão e eu não passo de um cara triste do sul.
- Nem o inferno pode ser tão quente! – Digo e neste exato instante, como se fosse uma resposta divina, avisto a igrejinha velha quase que em ruínas. - Senhor tende piedade dos fracos, dos sensíveis e dos que perderam as esperanças. Obrigado Deus! Eu sou um deles.
Desço do carro, estico os músculos e entro na igreja. Por dentro, a coisa não tem muito que ver com uma igreja. Há luzes vermelhas que piscam anunciando: IRENE´S BOITE, um imenso balcão, bebidas, algumas mesas, moscas e um rádio que toca uma canção brega qualquer. Calipso, talvez, não sei ao certo. Atrás do balcão e ao lado das bebidas, existe uma porta enfeitada com uma cortina de pérolas vermelhas. Como não há ninguém, eu finjo tossir um pouco pra ver se surge alguém que me atenda, todavia não aparece viva alma. É então que eu reparo no pequeno sino, encostado num canto. Pego-o e chacoalho-o. Não demora muito e uma mulher morena, de cabelos lisos, na altura dos ombros, baixa, de nariz grande, lábios salientes e sorriso lindo surge por detrás da cortina.
- Boa tarde, senhor. O que deseja? - Ela me pergunta esticando ainda mais o sorriso.
- Eu gostaria de tomar um bom banho, beber alguma coisa gelada e depois comer algo bem leve.
- Acho que posso ajudá-lo. – Ela diz ainda sorrindo e colocando um cd da Ivete Sangalo pra tocar. – Pode me seguir. - Continua em seguida, enquanto abre uma portinha na lateral do balcão.
Eu a sigo feliz da vida até um banheiro onde há uma imensa banheira branca e antiga. Ela, delicadamente, retira minhas roupas, sem jamais deixar cair seu sorriso baiano do rosto. Passa a mão na minha própria face, enquanto a banheira enche, e fica me olhando como se me conhecesse há muito, quem sabe até desde outras encarnações.
- Eu te esperei tanto tempo! – Diz e em seguida me coloca dentro da banheira e sai pra logo depois voltar com um belo cálice de vinho nas mãos. Entrega-me o vinho. Eu noto que em seu braço moreno existem pequenas cicatrizes brancas.
- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Eu digo.
- Eu sinto a dor o tempo todo. – Ela responde e sai outra vez. Eu, por meu lado, vou bebericando o vinho e curtindo a água quente, sentindo meu corpo, aos poucos, ficar completamente relaxado, como se não me pertencesse mais. Tudo me agrada e eu quase sorrio. O sono vem leve e pesado feito um som do Led Zeppelin. A última coisa que percebo é a luz vermelha piscando no teto e ainda repito por umas três ou quatro vezes a palavra: AMOR. Pelos meus ouvidos ecoa a voz de Luciano Pavaroti. Ela deve ter posto alguma coisa no vinho.
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É com dificuldade que consigo abrir os olhos e ver a luz forte e branca brilhando sobre o meu rosto. Tento me levantar, mas percebo que estou fortemente amarrado sobre a cama que não é uma cama, mas uma mesa de operações. Passeio a vista pelo cômodo branco e percebo nas paredes cabeças de homens empalhadas como se fossem cabeças de alces. Há homens de todas as idades. Diante de meus pés o corpo inteiro de um jovem negro e forte permanece em pose de ataque. Seus olhos são desesperadores. Ao meu lado, é um senhor moreno e barrigudo que está empalhado da cintura pra cima, na base que sustenta esse corpo está escrito em letras douradas: Vincent. Tento outra vez escapar, mas não há maneira. Estou fortemente amarrado.
A mulher volta cantarolando uma antiga canção do grupo só pra contrariar. Mesmo na minha situação consigo distinguir a música. Além de tudo, ela tem um péssimo gosto musical. Traz nas mãos facas, adagas e punhais. “Tomei no cu direitinho dessa vez!”. Eu penso e sorrio, não há mais o que fazer.
- Por que isso, hein? – Eu pergunto.
- É pelo filho que não tivemos e pela vida que não levamos. – Ela responde.
- Mas, você nem me conhece. – Retruco.
- Conheço sim. Você é Daniel, ou não é?
Já não pergunto mais nada. Eu me chamo efetivamente Daniel.
- Não se preocupe. Não vai doer nada. Logo a anestesia fará efeito e você irá dormir profundamente. – Ela diz.
Eu ainda tento balbuciar alguma palavra, mas minha língua não obedece mais ao meu cérebro. Sinto apenas cócegas na barriga, depois a ouço gritar alto.
- Belinha! Belinha!
Surge uma cachorrinha latindo e minhas tripas são jogadas ao chão para servir de alimento. Um belo jantar. Não sinto mais nada direito, mas minha mente continua funcionando. O sono está a caminho, posso sentir, o sono derradeiro. Antes de fechar de vez os olhos, ainda vejo-a se aproximar, beijar minha boca e dizer baixinho, como se fosse uma forma de consolo.
- Eu te amo.
A mulher volta cantarolando uma antiga canção do grupo só pra contrariar. Mesmo na minha situação consigo distinguir a música. Além de tudo, ela tem um péssimo gosto musical. Traz nas mãos facas, adagas e punhais. “Tomei no cu direitinho dessa vez!”. Eu penso e sorrio, não há mais o que fazer.
- Por que isso, hein? – Eu pergunto.
- É pelo filho que não tivemos e pela vida que não levamos. – Ela responde.
- Mas, você nem me conhece. – Retruco.
- Conheço sim. Você é Daniel, ou não é?
Já não pergunto mais nada. Eu me chamo efetivamente Daniel.
- Não se preocupe. Não vai doer nada. Logo a anestesia fará efeito e você irá dormir profundamente. – Ela diz.
Eu ainda tento balbuciar alguma palavra, mas minha língua não obedece mais ao meu cérebro. Sinto apenas cócegas na barriga, depois a ouço gritar alto.
- Belinha! Belinha!
Surge uma cachorrinha latindo e minhas tripas são jogadas ao chão para servir de alimento. Um belo jantar. Não sinto mais nada direito, mas minha mente continua funcionando. O sono está a caminho, posso sentir, o sono derradeiro. Antes de fechar de vez os olhos, ainda vejo-a se aproximar, beijar minha boca e dizer baixinho, como se fosse uma forma de consolo.
- Eu te amo.
Sei que é verdade, mas também sei que serei só mais uma peça, uma de suas obras de arte entre tantas outras. Por mais estranho que possa parecer, estou feliz em morrer assim e em me tornar isso. Do meu corpo dilacerado vejo decolarem entrelaçados anjos e demônios. Não tenho mais forças, mas mantenho meu sorriso. Ela também mantém o seu.
E eu que pensei que o alcoolismo fosse um problema.
E eu que pensei que o alcoolismo fosse um problema.

