Quando o Boto e a Andorinha se apaixonaram, imaginaram que seu amor poderia ser maior que as regras inflexíveis da Natureza. Para começar, ela era um pássaro; ao passo que ele, um mamífero aquático😱. Ela gostava de estar em bando, e ele vivia só no fundo das águas turvas do Rio Negro.
- Não tem problema – disse o Boto. – Posso dar saltos como os golfinhos do mar. Aprenderei a andar em bando e vou ficar o maior tempo possível fora da água, sem respirar. Com a prática, quem sabe se também não aprendo a voar?
A Andorinha, por sua vez, respondeu:
- E eu posso me desgarrar do bando de vez em quando e dar pequenos mergulhos só pra te beijar.
De nada adiantaram os alertas dos outros bichos. O amor é cabeça dura e os dois tinham caído nele como quem entra em arapuca ou se enrosca em pesca de rede. “Nosso amor é maior que qualquer coisa!” diziam insolentes na cara da Natureza. Por muito tempo, aquele misto de relacionamento e heresia durou. Era bonito ver o Boto fazendo esforço para se manter na lâmina da água, enquanto a andorinha forçava o equilíbrio sobre o dorso rosado. Com o tempo, entretanto, as coisas foram mudando. Ninguém percebeu. Ela ouviu o chamado da revoada e sentiu saudade dos voos maniqueístas - como disse Leandro Mendes - que empreendia com os amigos alados. Ele, por seu turno, se sentiu atraído por sua solidão, pelo silêncio do fundo do rio. Ela, então, a cada dia, cedia mais à leveza do ar. Voava um pouco com os amigos e depois voltava para a beira da água. Ele, como era de se esperar, curtia seu peso e entregava-se à densidade do fundo. Nenhum dos dois queria admitir, só que a união já não era possível. Parecia tão grande, a princípio, aquele amor! E, contudo...
Procuraram, então, culpados. Acusando, como sói acontecer em casos assim, um ao outro. Não entendiam que não havia culpados; tudo eram circunstâncias. Porra, ele era um peixe e ela um pássaro!
O fim aconteceu num fim de tarde – domingo. A Andorinha partiu decidida, sem olhar para baixo. É com lágrimas nos olhos, até hoje, que os bichos da floresta contam que o Boto olhou para o céu e abençoou a Andorinha no último momento, antes de se entregar outra vez ao fundo mais fundo.
- Não tem problema – disse o Boto. – Posso dar saltos como os golfinhos do mar. Aprenderei a andar em bando e vou ficar o maior tempo possível fora da água, sem respirar. Com a prática, quem sabe se também não aprendo a voar?
A Andorinha, por sua vez, respondeu:
- E eu posso me desgarrar do bando de vez em quando e dar pequenos mergulhos só pra te beijar.
De nada adiantaram os alertas dos outros bichos. O amor é cabeça dura e os dois tinham caído nele como quem entra em arapuca ou se enrosca em pesca de rede. “Nosso amor é maior que qualquer coisa!” diziam insolentes na cara da Natureza. Por muito tempo, aquele misto de relacionamento e heresia durou. Era bonito ver o Boto fazendo esforço para se manter na lâmina da água, enquanto a andorinha forçava o equilíbrio sobre o dorso rosado. Com o tempo, entretanto, as coisas foram mudando. Ninguém percebeu. Ela ouviu o chamado da revoada e sentiu saudade dos voos maniqueístas - como disse Leandro Mendes - que empreendia com os amigos alados. Ele, por seu turno, se sentiu atraído por sua solidão, pelo silêncio do fundo do rio. Ela, então, a cada dia, cedia mais à leveza do ar. Voava um pouco com os amigos e depois voltava para a beira da água. Ele, como era de se esperar, curtia seu peso e entregava-se à densidade do fundo. Nenhum dos dois queria admitir, só que a união já não era possível. Parecia tão grande, a princípio, aquele amor! E, contudo...
Procuraram, então, culpados. Acusando, como sói acontecer em casos assim, um ao outro. Não entendiam que não havia culpados; tudo eram circunstâncias. Porra, ele era um peixe e ela um pássaro!
O fim aconteceu num fim de tarde – domingo. A Andorinha partiu decidida, sem olhar para baixo. É com lágrimas nos olhos, até hoje, que os bichos da floresta contam que o Boto olhou para o céu e abençoou a Andorinha no último momento, antes de se entregar outra vez ao fundo mais fundo.
