quarta-feira, 29 de maio de 2019

O BOTO E A ANDORINHA



Quando o Boto e a Andorinha se apaixonaram, imaginaram que seu amor poderia ser maior que as regras inflexíveis da Natureza. Para começar, ela era um pássaro; ao passo que ele, um mamífero aquático😱. Ela gostava de estar em bando, e ele vivia só no fundo das águas turvas do Rio Negro.
- Não tem problema – disse o Boto. – Posso dar saltos como os golfinhos do mar. Aprenderei a andar em bando e vou ficar o maior tempo possível fora da água, sem respirar. Com a prática, quem sabe se também não aprendo a voar?
A Andorinha, por sua vez, respondeu:
- E eu posso me desgarrar do bando de vez em quando e dar pequenos mergulhos só pra te beijar.
De nada adiantaram os alertas dos outros bichos. O amor é cabeça dura e os dois tinham caído nele como quem entra em arapuca ou se enrosca em pesca de rede. “Nosso amor é maior que qualquer coisa!” diziam insolentes na cara da Natureza. Por muito tempo, aquele misto de relacionamento e heresia durou. Era bonito ver o Boto fazendo esforço para se manter na lâmina da água, enquanto a andorinha forçava o equilíbrio sobre o dorso rosado. Com o tempo, entretanto, as coisas foram mudando. Ninguém percebeu. Ela ouviu o chamado da revoada e sentiu saudade dos voos maniqueístas - como disse Leandro Mendes - que empreendia com os amigos alados. Ele, por seu turno, se sentiu atraído por sua solidão, pelo silêncio do fundo do rio. Ela, então, a cada dia, cedia mais à leveza do ar. Voava um pouco com os amigos e depois voltava para a beira da água. Ele, como era de se esperar, curtia seu peso e entregava-se à densidade do fundo. Nenhum dos dois queria admitir, só que a união já não era possível. Parecia tão grande, a princípio, aquele amor! E, contudo... 
Procuraram, então, culpados. Acusando, como sói acontecer em casos assim, um ao outro. Não entendiam que não havia culpados; tudo eram circunstâncias. Porra, ele era um peixe e ela um pássaro! 
O fim aconteceu num fim de tarde – domingo. A Andorinha partiu decidida, sem olhar para baixo. É com lágrimas nos olhos, até hoje, que os bichos da floresta contam que o Boto olhou para o céu e abençoou a Andorinha no último momento, antes de se entregar outra vez ao fundo mais fundo.

BUSCA

Costuro um vestido
Sou alfaiate caprichoso
Quero o lado de dentro tão perfeito quanto o de fora
Manejo linha e agulha
Dou pontos invisíveis
Corto retalhos desnecessários
Arremato, fio por fio, tanto do lado certo quanto do avesso
Torno-me, então, um
Eu: ao mesmo tempo, vestido e costureiro.
Costuro um vestido sem lados
Com o qual se possa ficar em casa ou ir à festa
Com o qual se possa ir à missa ou ao trabalho
Pois o vestido que sou deve ser igual tanto frente a Deus
Quanto estendendo a mão ao meu irmão.
Costuro um vestido sem costura
No qual alma e corpo são indiscerníveis
E o rosto é a melhor máscara para sair à rua.

terça-feira, 28 de maio de 2019

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

Não conseguimos comer por oito horas seguidas, não conseguimos fazer amor por oito horas seguidas, não conseguimos ler por oito horas seguidas; na maioria das vezes, não dormimos todo este tempo e, no entanto, temos de trabalhar oito horas ou mais por dia. Por muito tempo, revoltei-me contra isso. Todo este papo de que o trabalho dignifica e blá, blá, blá... Por outro lado, venho de uma família humilde – pobre, mas muito limpinha sim, senhor – e não trabalhar nunca foi uma opção. Como dizia o monge taoista: “um dia sem trabalho é um dia sem comer”. Para mim, o trabalho nunca foi uma opção existencial, mas uma necessidade. Então, fiquei neste beco e não aceitava. O pior que pode acontecer a uma pessoa é não aceitar uma situação imutável. Enquanto pudermos lutar, lutemos. Quando a luta se mostrar vã, aceitemos. Com o luto, por exemplo, é assim; não podemos trazer a pessoa amada de volta. Mas, voltando à questão do trabalho, eu nunca estava no presente, porque só haveria vida quando saísse do trabalho; e, quando saía, ficava preocupado com as coisas que tinha deixado mal feitas. Todo esforço espiritual do Oriente é no sentido de nos trazer ao presente, porque nele está contida a Eternidade. Perdi muitos dias sonhando com a loteria, ou com algum milagre que me permitisse viver só da escrita – meu motivo de ser. Não aconteceu. Então, com as pessoas no trabalho, procurei compreender antes de ser compreendido. Não sou anjo e reconheço que, às vezes, é bem duro. Cada um cria a realidade de acordo com sua gaiola e é difícil viver no espaço compartilhado. O truque é manter a distância correta. E aí, outro dia, um analista amigo meu me disse que gostava de trabalhar nos jardins e eu pensei: por que não? Semeei e o jardim brotou. É bom ver como as plantas se desenvolvem no seu tempo. Mexer com a terra nos ensina paciência, resignação, fé, bonitezas... Agora, por exemplo, estou esperando uma leva de girassóis botarem suas flores: há girassóis vermelhos – por Murilo Rubião – normais – por Vincent - e plissados por mim mesmo. É incrível como a beleza das plantas e dos pássaros e borboletas pode deixar o ambiente mais calmo. Enfim, o fato é que estou conseguindo trabalhar sem me sentir como Sísifo. Ninguém pode viver em função do próximo feriado prolongado – ainda que eu goste deles. “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.” Disse John e eu concordo.

domingo, 26 de maio de 2019

ANGÚSTIA E ALEGRIA

Heidegger, na esteira de Kierkgaard, dizia que o Ser se desvela na Angústia. A própria Angústia já é visita do Ser, mas a Angústia não é a preocupação, nem o desespero. A Angústia é sem objeto. A outra face do Ser, o Nada; em termos taoístas: não há yang sem yin. Tanto é assim que, quando estamos desse jeito, meio doídos sem razão e alguém desavisado pergunta:
- O que é que você tem?
Respondemos de primeira:
- Nada.
Esse nada dolorido já é o anjo do Ser. É por isso que, quando a vida dói, eu deixo ela doer. Não procuro distrações. Não corro ao shopping. Não quero estar com o outro para jogar sobre ele as fagulhas da minha própria fissura. Um tempo atrás, não suportava esses hiatos; enchia-os de álcool, mas eles me cobravam seu lugar e a cada vez eu me entregava mais. É em solidão que o tédio se torna sorvete. Por outro lado, quando vem a alegria, transformo-me em sol, corro ao jardim, caminho nas praças, sinto a pele pouca para a felicidade e doo o meu abraço como se ofertasse minha própria boca e meu sorriso. Aperto a mão do meu irmão como se contasse uma piada suja.
Há filósofos que falam da alegria, mas não constroem morada no coração da gente porque não sofreram o suficiente. Então, a alegria deles é só uma palavra sem carne, espécie de fuga. O poeta diz amor, a criança diz amor, o carrasco diz amor: a taça é a mesma, só que o vinho é diferente.
Hoje é domingo. Está frio. Acordei cedo, porque meus bichos se acostumaram a comer às seis da manhã, antes de eu ir para o trabalho, e eles não sabem discernir os domingos dos dias de semana. Pois bem; alimentei-os. Lavei o quintal. Fiz um café bem quentinho e forte. Sentei com uma manta sobre os ombros e coloquei um Moody Blues pra tocar. Há sabedoria na Angústia: só quem sofreu fundo sabe o valor do riso e não se lamenta quando a consciência de que se morre faz visita.


sábado, 25 de maio de 2019

GAGÁ COMO UM RÁDIO

Quando comecei a trabalhar, a primeira coisa que comprei foi um três em um Gradiente, com duplo deck para gravar de uma fita à outra. Foi uma época de som pesado (Sabbath, UFO); mas, em segredo, quando anoitecia, eu ouvia os discos do Jonnhy Rivers, ou o rádio. Para dormir, o rock n´ roll não era muito bom; preferia-o ao acordar. Durante a noite, sintonizava a rádio Alpha, a Antena 1, a Musical. Era com o rádio que eu dividia meus sentimentos mais íntimos. Nenhum parente ou amigo me conhecia tão bem quanto o meu Gradiente. Eu não precisava fingir, ele sabia quando eu estava alegre, triste, cansado, preguiçoso. Conversávamos a noite inteira. E, quando ele tocava uma música da qual eu já estava enjoado, era de um jeito diferente: Tears for fears, acontecia de...
Soon we will be older; when we gonna make it work?
Uma noite, eu não conseguia dormir. É que de vez em quando tenho uns pressentimentos, sabe? Uns medos absurdos de não sei o quê; só que, neste tempo, o rádio estava lá. E foi nessa mesma noite que ouvi pela primeira vez a voz de Milton Nascimento, E ERA TRAVESSIA: "meu caminho é de pedra, como posso sonhar?" O corpo inteiro tremeu, suei, a alma se descolou de mim, perdi o ar, o bar, o mar; parecia que eu estava com dengue e, ainda assim, tendo um orgasmo. Meu corpo era invólucro pequeno para aquela canção. Não havia céu para aquele som. E eu que, em segredo, estava acostumado a me emocionar com Build, dos Housemartins, flutuei para o que não tem fim. Meu coração palpitou forte, algo quente abriu caminho em meio às costelas. Assim que amanheceu, vi que, brotando do meu peito, pulsava um girassol violeta.

É PRECISO ENCONTRAR O FORA



Se vocês me perguntassem se tenho um lado, responderia que sim, o de fora. É que, na maioria dos conflitos, não existe um lado certo e outro errado. Diferentemente do que acontece nos filmes, não há mocinhos e bandidos, mas circunstâncias. Os taxistas são contra os motoristas de Uber. Claro, os taxistas têm de pagar mais impostos, alvará, sindicato, etc; mas o que é um motorista de Uber? É um cara que não vê outra saída, aceita esse “bico” para levar o pão para casa. Não há um lado errado. A mesma situação se dá entre lojistas e camelôs, marido e mulher, pais e filhos. De suas posições, ambos sempre têm razão. É preciso estar de fora para compreender bem uma circunstância. Deve ser por isso que enxergamos tão bem as falhas alheias, mas temos dificuldade para ver as nossas. De fora, vemos o que o outro está fazendo de errado; não podemos, no entanto, a não ser pela meditação, ver o que nós próprios fazemos. Agimos cegos. Nietzsche sugeriu o perspectivismo; a meu ver, o perspectivismo ainda é pouco. Existe, em qualquer situação, um ponto que se situa além de ambos os lados. É lá que mora a verdade e o perdão. “As recordações, retratos do mal em si, melhor deixar pra trás”. A partir do fora, enxergamos a situação e não um lado dela. Creio que, neste momento histórico, todos temos de procurar o ponto de não-lugar. Entendo que boa parte do nosso povo votou no presidente que aí está por medo – a insegurança grassa - e o medo é um péssimo conselheiro. Não há que se tripudiar, porque este tipo de atitude gera ainda mais atrito. Quando alguém caçoa, o outro se enrijece em sua posição. Ninguém pode ser convencido sofrendo enxovalhos. Já não importa quem errou; um dos lados tem de estender a mão em vez de declarar superioridade. Quem caçoa nunca é superior. O medo gera raiva e a raiva gera violência, a qual nunca é boa. Todos somos vítimas de forças que souberam manipular os afetos em circulação. Há alguém atiçando a luta, feito o canalha que coloca a mão entre dois meninos em desavença e pede a ambos que cuspam na mão; tirando-a, porém, no último instante. Quem?

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A LINGUAGEM ENCANTADA DAS CRIANÇAS

 É preciso – urgentemente – libertar a linguagem da sintaxe. Este esquema de sujeito/verbo/objeto já provou que não nos serve. Quando dizemos eu e ele, ou nós e eles, já é o início da guerra. (As crianças falam de si na 3º pessoa, pq ainda não sabem o que é um eu) E quando nos separamos das coisas, é o começo da destruição. No fim das contas, é tudo nós – bichos e plantas inclusive - e ser é verbo intransitivo, mas que também nos liga ao outr...o: ser é ser em rede. Isto posto, quero dizer que qualquer um que já prestou atenção ao que as crianças falam, percebeu que a linguagem delas é muito mais poética que lógica: “quando não conhecia o zen, as árvores eram árvores; quando comecei a estudar o zen, as árvores deixaram de ser árvores; quando me aprofundei mais no zen, as árvores voltaram a ser árvores.” As três metamorfoses do homem em Zaratustra: camelo, leão e criança. O círculo do poeta é para voltar a ser o que sempre foi: criança, mas com a sabedoria da travessia. No momento da passagem final, saberei toda a verdade, mas já não restará tempo de comunicar.
Mas por que foi que tagarelei tanto mesmo? Sim. A linguagem das crianças. Vou contar dois casos em que a verdade se fez sincronicidade e infância.
Lá estava eu no jardim da escola arrancando uns Dentes de leão que ameaçavam tomar conta de todo o jardim. A garotinha da primeira série sentada no banco se aproximou:
- Tio, por que o senhor tá arrancando as plantinhas?
- É que são ervas daninhas.
- Mas as ervas DANADINHAS também não são boas?
Fiquei pensando. Do ponto de vista da Natureza; a mesma vida que habita a orquídea azul, habita também a serralha. Pesquisei a respeito do Dente de leão e descobri se tratar de uma planta muito boa para os rins, o fígado, a depuração do sangue. E não é que a erva daninha é danadinha de boa?
Da outra vez foi na votação do impedimento da Dilma. Passei o dia com a televisão ligada naqueles discursos todos. Meu filho já estava de saco cheio:
- Ô pai, tira daí que eu não aguento mais esses caras. São tudo HIPÓTRICO!
Adorei o hipótrico. Achei que deu ênfase. Um hipótrico é ainda mais canalha que um hipócrita.
Enfim, fellas, é preciso um longo desaprendizado para aprender a ver e falar o mundo como criança. Quando conseguirmos, se conseguirmos, seremos outra vez dignos do Éden e o planeta não será um lixão, mas um jardim.

OS MINÚSCULOS DO JARDIM

 Uma vez, meu pai me falou uma coisa que até hoje não sei se foi um insulto ou um elogio:
- Meu filho – ele disse -, sei que você é diferente, especial de algum modo. Das duas uma, ou gênio, ou retardado.
Eu era mesmo um moleque estranho. Tinha uma imaginação dos diabos. Inventava, por exemplo, uma narrativa inteira sobre os Minúsculos do jardim. Na nossa casa, tinha um toco de árvore oco. Era lá que viviam os Minúsculos, uma tribo inteira. Havia a prin...cesa minúscula, o rei minúsculo, os guerreiros minúsculos, o ancião. Dentre tantos minúsculos, havia um que era meu alter ego. Já falei pra vocês que eu era um moleque feio que só a porra: vesgo, cabeçudo; magro, mas com uma pancinha. Tive muitos apelidos, cada um melhor que o outro: de Sapo a Astronauta de mármore, por causa do cover do Nenhum de Nós. Meu alter ego minúsculo, no entanto, era o contrario de mim. Ele era forte, ágil, guerreiro: um Conan polegar. Quando minha mãe me levava ao médico, no Servidor Público Municipal, ali na Vergueiro, eu imaginava que o outro eu-minúsculo me acompanhava, montado num passarinho que ele mesmo havia domado. Eles voavam numa velocidade imensa, desviando das pilastras, dando rasantes... Dentro da minha cabeça grande, havia um mundo inteiro: batalhas, rebeliões, conspirações, canalhices. Shakespeare, enfim. Eu não precisava muito da realidade. E aí, uma vez, os Maiúsculos Malignos invadiram o reino dos Minúsculos. Foi uma tremenda batalha: pisotearam os cogumelos, arrancaram as touceiras que serviam de esconderijo. No fim das contas, os Maiúsculos arrancaram o toco inútil do jardim e os Minúsculos tiveram de partir pra outros reinos. Me lembro da caravana indo embora... montada em pássaros e engenhocas voadoras. A princesa acenou-me um adeus porque eu era aliado. No fim das contas, eles se tornaram pontos brilhantes no céu, sob a lua cheia, feito vagalumes e, depois, a escuridão.
Por muito tempo, procurei os Minúsculos do jardim e sonhei encontrá-los. Passei pelo Bom Retiro, Assis, São João da Ponte, Aiuruoca... Nada. Foram anos que trouxeram rugas. Até que outro dia, quando estávamos reformando a casa, quebramos o piso do banheiro e havia uma quantidade enorme de túneis.
- O que é isso pai? – era meu filho Lennon perguntando.
- Acho que sei, filho. Isso é o túnel da cidade dos Minúsculos. Eles agora vivem nos subterrâneos.
Um ancião Minúsculo, de cabelos brancos e barba longa colocou a cabecinha pra fora e anunciou:
- A princesa foi sequestrada!

quarta-feira, 15 de maio de 2019

LIVROS E LEMBRANÇAS

Já não leio tanto. É mais difícil encontrar livros que me tocam. Durante muito tempo, no entanto, o que eu mais fazia da vida era ler. Era meu maior vício; a fuga de mim mesmo e o encontro, através do texto, com aspectos de minha alma que eu não conseguia nomear. Li de tudo; de Cozinha do inferno, do Silvester Stallone, ao Idiota, de Dostoiévski; passando pelo Zaratustra e o Viagem ao fim da noite. Como disse; hoje, já não encontro tantos livros que me surpreendem de fato. Ainda leio e encontro algumas coisas, mas não tanto. Prefiro – agora - meditar e mexer com a terra. Quando quero ler alguma coisa sem arriscar, volto aos livros dos quais gostei um dia. Alguns, releio inteiros. Outros, leio apenas partes e trechos que deixei sublinhados. Muitos destes livros confirmam sua beleza, tornam-se ainda maiores, revelam aspectos que anos antes eu não estava pronto para incorporar à minha própria alma. Outros, perdem-se, ficam pequenos. Na vida, com as pessoas, também é assim. A gente pode ter sido doido de paixão por uma pessoa, mas encontrá-la, uns anos depois, e pensar: “mas o que foi que eu vi neste ser humano?🤔
Falei tudo isso para contar que andei relendo A insustentável leveza do ser. Quando o li, há uns quinze anos, adorei, principalmente a mistura de narrativa e ensaio filosófico. Incorporei isso ao meu modo de escrever romances. Nesta releitura, no entanto, já com uma bagagem maior, percebo que o livro tem algumas qualidades; mas, de um modo geral, é um grande equívoco e o maior deles é, sem dúvida, confundir o eu-egóico-atômico com o Ser. Questão gramatical: de um lado o sujeito, do outro o objeto. O que não se sustenta diante dos revezes políticos e das relações sentimentais é o eu; essa carcaça que, a bem da verdade, não existe e ainda se imagina o centro. Este eu é uma criação ocidental, germinada já na estrutura das línguas não pictóricas e ganhou ainda mais força na modernidade, com a res cogitans cartesiano (Este é também o grande mal entendido na leitura que Sartre fez de Heidegger e que aparece na polêmica entre os livros O existencialismo é um humanismo e Carta sobre o humanismo). No Oriente e, por aqui desde Nietzsche, e Rimbaud, e Pessoa, sabemos que o eu é muitos. Há outras formas de subjetivação. Não há um sujeito que engendra coisas. Há acontecimentos nos quais o ser emerge.
Talvez, os romances que abordam de modo muito mais profundo a questão da leveza e densidade do ser sejam O Grande Sertão, do Rosa, ou Zorba, do Kazantzakis. Não sei. Boa quarta-feira!

LUTO III – no morro

Tempos atrás escrevi dois textos tratando do luto, disponibilizo nos comentários, caso alguém tenha curiosidade. Hoje volto ao tema para observar outra forma de encarar a morte de alguém querido: o luto no morro. Quem já foi a um velório na periferia, quando a família não é inteira evangélica, sabe que se bebe bastante. Dia seguinte, você procura uma garrafa de água no boteco e não encontra, os enlutados beberam tudo, correram a vila fechando os bares, padarias, açougues e mercados. Como em todo velório, a cerimônia começa triste. É já a saudade, a tristeza de saber que nunca mais veremos aquela pessoa. Não é fácil! Por não suportar o ambiente, os mais tristes correm para o boteco mais próximo em busca de alívio. Quando retornam, já enxergam a questão por outro prisma🧐. Lembram casos engraçados do defunto. Um tio solta uma piada suja. As tias olham com olhos de repreensão. O jeito é voltar pro boteco, mas dessa vez o grupo é maior. Todo mundo tem alguma passagem interessante pra falar a respeito do morto. A turma retorna novamente ao velório, dá mais um tempo e arregimenta novos soldados. Já no bote, alguém saca de um cavaco, um violão, quem não tem pandeiro bate na palma da mão. Celebra-se a morte como conclusão natural da vida; assim como a formatura é a celebração dos anos de estudo. O pessoal chega à conclusão de que, entre altos e baixos, o defunto viveu uma vida plena. Realizou muita coisa. “Vá em paz, compadre, que agora é com a gente!” Por mais pobre que seja uma travessia, ninguém passa por este planeta em vão. Se Heidegger tivesse andado por uma quebrada, teria chegado antes à conclusão de que somos para a morte e que é a morte de alguém que dá a forma definitiva para sua vida. Até a morte, o dasein é sempre uma abertura. Com o último suspiro, a escultura está terminada. Mas deixemos o Heidegger de lado porque ele entendia pouco de samba. Lembro agora é das minhas primas pretinhas. As duas deixaram de trabalhar, namorar e estudar para cuidar da avó que precisava fazer hemodiálise duas vezes por semana. Eram meninas bem jovens, mas abriram mão por amor. Durante anos, zelaram a velhinha. No dia em que a avó morreu, tomaram todas as cervejas do mundo e terminaram o dia jogando bola na rua, debaixo de chuva. Era a celebração da avó, a maior demonstração de amor: “A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”. Claro, há sempre juízes em qualquer parte do mundo; mas, como diz meu amigo Robson: “É pau no cu dos paus no cu!” 
E eu, quando a doer vier, quero ter a grandeza dessas duas primas. Beijo procês!

sábado, 11 de maio de 2019

SORRISO

Quando acordei ainda há pouco, estava frio. Acho que vivo o tempo todo no coração, sem proteções, feito caramujo sem casa, lesma exposta ao sal; ou vivo o imenso, ou me dissolvo. Coração na epiderme. Sim, mas quando está frio assim isso ainda aumenta. Há alguns dias voltei a este Disintegration e descobri porque há uns vinte anos ele fez minha cabeça. O menino que ouviu o vinil pela primeira vez tinha razão. É como rever um amigo do peito: nunca perdemos a intimidade.
Mas o que eu queria falar mesmo era sobre o sorriso. Nessa faixa que abre o disco: Plainsong, o ambiente é frio como a morte, o cara se sente como se estivesse vivendo no limite do mundo, tudo tão pesado, e grave, e triste, e então... ELA SORRI! O som faz o resto, a palavra não chega lá: a vida se reconstrói, a esperança é, uma chuva de lantejoulas, algo cristalino escorrendo nas veias, ácido lisérgico talvez, ou o momento em que Edward Mãos de Tesoura faz nevar na vila colorida no filme de Tim Burton. Às vezes, me sinto como o personagem interpretado por Johnny Deep: tenho as melhores intenções, cultivo a pureza, mas não sei lidar com os outros; tenho lâminas nas mãos, estou sempre me ferindo – a face cheia de cicatrizes - e ferindo aos que amo porque são os que estão mais perto.
Voltando ao sorriso, que é do que eu queria falar mesmo desde o começo, lembro o sorriso do Kerouac, inchadão, na entrevista da tevê. Ele ainda sorria como menino que acabara de fazer um touchdown, mesmo deformado de tanto álcool. E o sorriso do Elvis denuncia toda sua pureza. Mais que o rebolado, aquele sorriso venderia milhões de discos. E o sorriso do menino Michael nos Jackson Five? O sorriso dos Beatles no começo. Clarice Lispector não ria em público. Dizia a Lygia que as mulheres não eram levadas a sério quando sorriam. O mundo patriarcal esmaga, mas uma mulher como ela também podia ter levantado mais essa bandeira - a do sorriso - no meio do ambiente artificial das rodas literárias e intelectuais. O artista se alimenta também de reconhecimento, mas deveria poder se alimentar só de sua arte.
Lembro o sorriso da Márcia, no tempo em que ela ainda ria das minhas palhaçadas.
Do riso mineiro, quase baiano, da minha mãe.
Do riso tímido do meu pai, quando conto alguma piada suja.
Quando faz frio assim, fico dolorido, meio tristão sem Isolda, às vezes tento sorrir frente ao espelho e não consigo. O rosto se desfaz feito máscara de cera derretida e acabo chorando, que diabo! “Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”. No entanto, não me abato, sei que, em algum canto, meu sorriso está lá, disfarçado de João, de Sofia, dos meus bichos, de jardim em estado-semente, esperando para florescer. Meu riso é minha esperança-sempre-viva😉.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O RASTA

Quando eu cursava Matemática e, para desestressar, atravessava os finais de semana calculando integrais; tinha, como companheiro de quarto, o Rasta. Acho que nunca conheci ser humano melhor. O Rasta cursava Ciências Sociais e estudava pouco, ocupava seu tempo ajudando os outros. Cuidava do jardim da moradia estudantil, ajudava uma ONG que acolhia e encaminhava para adoção animais abandonados; três vezes por semana, era voluntário no asilo público da cidade. Fazia tudo isso e, naturalmente, fumava e ouvia reggae. Em discussões políticas no campus, ele era criticado por não se posicionar:
- Mas eu tenho um lado – respondia. – O de fora.
Era um cara assim, o Rasta, se eu via a vida como um saco de cimento, ele a via como bolha de sabão.
- Meu irrrmão, negócio é focar nas vibrações positivas. Não existem problemas, só soluções.
Nos últimos anos, comecei a me preocupar com o Rasta. Ele andava perdendo a memória. Uma manhã, chamou-me:
- Irmão, tu tens esse jeitão de CDF, podia ir comigo contar pro meu pai que eu fumo maconha. Tô preocupadão com a reação do Coroa, saca?
Atendi ao pedido do meu amigo. Fui com ele à casa dos pais na cidade vizinha e me sentei à mesa em tom solene.
- Pai, preciso dizer uma coisa.
- Fale, meu filho.
- É que eu fumo maconha.
O velho balançou a cabeça, pegou mais salada. Ficou quieto, mastigando. Estranhei.
Depois do almoço, o pai me chamou de canto:
- Você que fica lá com o Didico, dá uma olhada no meu menino. Desconfio que anda fumando demais. Todo mês ele me conta que fuma maconha, esquece, e, no mês seguinte, volta com a mesma história😱🙃👽!
Tive vontade de rir; segurei.
Quando me formei, o Rasta continuou estudando. Ainda tinha umas matérias para cumprir. Dizia que estudaria mais se a faculdade não fosse um poço de tirania; se os assuntos não se chamassem disciplinas e não constassem em uma grade.
- Parece coisa de prisão, Bro... Grade, disciplina! Sai fora!
Da última vez que soube do Rasta, ele tinha se formado e estava na Amazônia, morando com uma tribo lá no meio da floresta. Torço para que esteja bem. É um ser humano raro.
Se estas linhas chegarem por aí algum dia, fica meu abraço de admiração, compadre. A paz de Jah!

domingo, 5 de maio de 2019

DE ONDE VEM O FADO

cuando meu homem se foi a buscar ouro naqueles garimpos no meio da floresta amazónica, tive d’aprender a danzar sólo y, para comer, fui danzar naquelle cabaré callede sertão. não era zona d’elegáncias, mas também não sou mulher de finesses. 
u'a cigana, antes, dissera-me que o diabo era ainda adolescente y circulava, nas noites d’ lua, em meio às alimárias. 
- Portuguesa - ela completou –; na Venezuela, os homens passam fome y o demónio tem de disputar, palmo a palmo, a ração com a porcalhada.
primeiros dias, só no novo mundo, há que se dizer, fiquei maníaca por limpeza. limpava y relimpava a casa - dia y noite, noite y dia. as porcelanas brilhavam quietas, brancas, no armarinho. depois, a cigana tornou:
- a vida é curta, Manuela, desencana, ora pois.
era uma cigana gorda, imunda y mundana.
deixei a casa cuidar de si mesma y, como deus não entra em casa suja, él veio. naquela manhã, cortei a mão num copo quebrado; não sangrei. tinha uns olhinhos assim puxados, él, o menino, como os olhos d’aquele povo d’oriente. enquanto eu danzava, él sacou d’seu saxofone e empurrou em mim, tudo-tudo, até o fundo. em minhas entranhas, tocou seu sólo violento, rústico, dilicado. alongou cada nota al limite y sustentou até. gemi d’amor e chorei.
foi o diabo,señor, quem m’encheu o ventre de música. nessa mesma noite, o demónio foi-se embora, com seus pezinhos de bode a deixar pegadas pela lama. nove meses depois, señor, pari esta cançãozinha que tu agora vês a correr pela casa.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CANTIGA DE AMIGO XXI

Quando você partiu,
amigo,
para viver o novo e a aventura em terras distantes
Fiquei aqui, na areia da praia onde brincávamos na infância.
Aqui,
Construí cabana e, durante todas as tardes, espreitei o mar;
mas, o Tempo.
Pois bem,
neste exato instante desisto.
Quando voltar,
você não vai encontrar quem ouça suas aventuras
e lhe faça um café forte e sente contigo
- olhos de benção e admiração -
O que te espera de hoje em diante, irmão
é só areia e o fantasma enorme de um amor defunto:
carcaça de monstro marinho que encalhou.
Será que você vai ter a pachorra de dizer que não fui uma boa irmã?

BOYS

Quando as coisas acabam
os meninos querem novos brinquedos
trocam de carro
namoram outra bicicleta
compram jogo e videogame
e passam os fins de semana inteiros jogando bola
e contando mentiras e vantagens aos amigos.
Quando voltam pra casa no fim do domingo
no entanto
estão sempre sozinhos.
Procuram o leite e não há peito por perto.

BETH CARVALHO E A ORELHA DE VAN GOGH

Se Beth Carvalho tivesse sido contemporânea de Van Gogh, provavelmente o destino do pintor holandês teria sido outro. É que, em maior ou menor medida, o artista se alimenta de reconhecimento. A rosa não floresce em virtude do olho que a contempla; mas eu, que compartilho do coração das plantas, sei que a rosa fica feliz quando se faz veículo para que um casal apaixonado demonstre seu amor.
Então, o artista nasce do seio do povo; de suas praças, suas festas, suas alegrias, dores e ansiedades – a incerteza na luta pelo pão, o transporte lotado de manhã; e sofre muito, o artista, em tempos como estes em que o povo se volta contra seus cantores. Mas, e Beth? Que dizer de Beth? Da menina que começou cantando bossa nova nos apartamentos requintados da zona sul; mas foi ser feliz mesmo lá em Madureira, no Cacique de Ramos, embaixo da Tamarineira? Além de seu próprio talento, de sua contribuição incomensurável para cultura brasileira, a madrinha deve ser louvada também pela grandeza de seu coração, pela força de sua generosidade e pela inteligência de seus sentidos que percebiam a grandeza do novo lá onde o novo acontecia. Não é para qualquer um. Na música popular brasileira, só Elis Regina tinha um ouvido atento e generoso o suficiente para compartilhar com o mundo tanta gente boa. Sem Beth Carvalho, o país poderia nunca ter conhecido Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, todo o pessoal do Fundo de Quintal, Zeca, entre tantos outros. O Rio seria menos Rio e o Brasil menos Brasil.
Lembro Andança; que ela agora deve estar cantando junto com o compositor, Paulinho Tapajós, num plano mais sutil: “Vagando em verso eu vim”. Isso é muito fundo em mim, sabe. Vou pela vida vagando em verso. Revolta a gente ver um canalha como o Wilson Witzel, governador que agora manda meter bala no mesmo povo preto com quem Beth ia dividir prato e copo, partilhar a voz e o coração, usar seu santo nome em vão; como se um coração podre pudesse reconhecer um ser de luz.
Enfim, Beth viveu, chegou aos 73. Cumpriu seu destino e ainda vive em seu som. A gente não morre, entra em estado de canção; en-canta-se. Hoje, vou passar o dia ouvindo.
Por onde for quero ser seu par, madrinha.