Se Beth Carvalho tivesse sido contemporânea de Van Gogh, provavelmente o destino do pintor holandês teria sido outro. É que, em maior ou menor medida, o artista se alimenta de reconhecimento. A rosa não floresce em virtude do olho que a contempla; mas eu, que compartilho do coração das plantas, sei que a rosa fica feliz quando se faz veículo para que um casal apaixonado demonstre seu amor.
Então, o artista nasce do seio do povo; de suas praças, suas festas, suas alegrias, dores e ansiedades – a incerteza na luta pelo pão, o transporte lotado de manhã; e sofre muito, o artista, em tempos como estes em que o povo se volta contra seus cantores. Mas, e Beth? Que dizer de Beth? Da menina que começou cantando bossa nova nos apartamentos requintados da zona sul; mas foi ser feliz mesmo lá em Madureira, no Cacique de Ramos, embaixo da Tamarineira? Além de seu próprio talento, de sua contribuição incomensurável para cultura brasileira, a madrinha deve ser louvada também pela grandeza de seu coração, pela força de sua generosidade e pela inteligência de seus sentidos que percebiam a grandeza do novo lá onde o novo acontecia. Não é para qualquer um. Na música popular brasileira, só Elis Regina tinha um ouvido atento e generoso o suficiente para compartilhar com o mundo tanta gente boa. Sem Beth Carvalho, o país poderia nunca ter conhecido Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, todo o pessoal do Fundo de Quintal, Zeca, entre tantos outros. O Rio seria menos Rio e o Brasil menos Brasil.
Lembro Andança; que ela agora deve estar cantando junto com o compositor, Paulinho Tapajós, num plano mais sutil: “Vagando em verso eu vim”. Isso é muito fundo em mim, sabe. Vou pela vida vagando em verso. Revolta a gente ver um canalha como o Wilson Witzel, governador que agora manda meter bala no mesmo povo preto com quem Beth ia dividir prato e copo, partilhar a voz e o coração, usar seu santo nome em vão; como se um coração podre pudesse reconhecer um ser de luz.
Enfim, Beth viveu, chegou aos 73. Cumpriu seu destino e ainda vive em seu som. A gente não morre, entra em estado de canção; en-canta-se. Hoje, vou passar o dia ouvindo.
Por onde for quero ser seu par, madrinha.
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