sexta-feira, 17 de maio de 2019

A LINGUAGEM ENCANTADA DAS CRIANÇAS

 É preciso – urgentemente – libertar a linguagem da sintaxe. Este esquema de sujeito/verbo/objeto já provou que não nos serve. Quando dizemos eu e ele, ou nós e eles, já é o início da guerra. (As crianças falam de si na 3º pessoa, pq ainda não sabem o que é um eu) E quando nos separamos das coisas, é o começo da destruição. No fim das contas, é tudo nós – bichos e plantas inclusive - e ser é verbo intransitivo, mas que também nos liga ao outr...o: ser é ser em rede. Isto posto, quero dizer que qualquer um que já prestou atenção ao que as crianças falam, percebeu que a linguagem delas é muito mais poética que lógica: “quando não conhecia o zen, as árvores eram árvores; quando comecei a estudar o zen, as árvores deixaram de ser árvores; quando me aprofundei mais no zen, as árvores voltaram a ser árvores.” As três metamorfoses do homem em Zaratustra: camelo, leão e criança. O círculo do poeta é para voltar a ser o que sempre foi: criança, mas com a sabedoria da travessia. No momento da passagem final, saberei toda a verdade, mas já não restará tempo de comunicar.
Mas por que foi que tagarelei tanto mesmo? Sim. A linguagem das crianças. Vou contar dois casos em que a verdade se fez sincronicidade e infância.
Lá estava eu no jardim da escola arrancando uns Dentes de leão que ameaçavam tomar conta de todo o jardim. A garotinha da primeira série sentada no banco se aproximou:
- Tio, por que o senhor tá arrancando as plantinhas?
- É que são ervas daninhas.
- Mas as ervas DANADINHAS também não são boas?
Fiquei pensando. Do ponto de vista da Natureza; a mesma vida que habita a orquídea azul, habita também a serralha. Pesquisei a respeito do Dente de leão e descobri se tratar de uma planta muito boa para os rins, o fígado, a depuração do sangue. E não é que a erva daninha é danadinha de boa?
Da outra vez foi na votação do impedimento da Dilma. Passei o dia com a televisão ligada naqueles discursos todos. Meu filho já estava de saco cheio:
- Ô pai, tira daí que eu não aguento mais esses caras. São tudo HIPÓTRICO!
Adorei o hipótrico. Achei que deu ênfase. Um hipótrico é ainda mais canalha que um hipócrita.
Enfim, fellas, é preciso um longo desaprendizado para aprender a ver e falar o mundo como criança. Quando conseguirmos, se conseguirmos, seremos outra vez dignos do Éden e o planeta não será um lixão, mas um jardim.

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