Já não leio tanto. É mais difícil encontrar livros que me tocam. Durante muito tempo, no entanto, o que eu mais fazia da vida era ler. Era meu maior vício; a fuga de mim mesmo e o encontro, através do texto, com aspectos de minha alma que eu não conseguia nomear. Li de tudo; de Cozinha do inferno, do Silvester Stallone, ao Idiota, de Dostoiévski; passando pelo Zaratustra e o Viagem ao fim da noite. Como disse; hoje, já não encontro tantos livros que me surpreendem de fato. Ainda leio e encontro algumas coisas, mas não tanto. Prefiro – agora - meditar e mexer com a terra. Quando quero ler alguma coisa sem arriscar, volto aos livros dos quais gostei um dia. Alguns, releio inteiros. Outros, leio apenas partes e trechos que deixei sublinhados. Muitos destes livros confirmam sua beleza, tornam-se ainda maiores, revelam aspectos que anos antes eu não estava pronto para incorporar à minha própria alma. Outros, perdem-se, ficam pequenos. Na vida, com as pessoas, também é assim. A gente pode ter sido doido de paixão por uma pessoa, mas encontrá-la, uns anos depois, e pensar: “mas o que foi que eu vi neste ser humano?🤔”
Falei tudo isso para contar que andei relendo A insustentável leveza do ser. Quando o li, há uns quinze anos, adorei, principalmente a mistura de narrativa e ensaio filosófico. Incorporei isso ao meu modo de escrever romances. Nesta releitura, no entanto, já com uma bagagem maior, percebo que o livro tem algumas qualidades; mas, de um modo geral, é um grande equívoco e o maior deles é, sem dúvida, confundir o eu-egóico-atômico com o Ser. Questão gramatical: de um lado o sujeito, do outro o objeto. O que não se sustenta diante dos revezes políticos e das relações sentimentais é o eu; essa carcaça que, a bem da verdade, não existe e ainda se imagina o centro. Este eu é uma criação ocidental, germinada já na estrutura das línguas não pictóricas e ganhou ainda mais força na modernidade, com a res cogitans cartesiano (Este é também o grande mal entendido na leitura que Sartre fez de Heidegger e que aparece na polêmica entre os livros O existencialismo é um humanismo e Carta sobre o humanismo). No Oriente e, por aqui desde Nietzsche, e Rimbaud, e Pessoa, sabemos que o eu é muitos. Há outras formas de subjetivação. Não há um sujeito que engendra coisas. Há acontecimentos nos quais o ser emerge.
Talvez, os romances que abordam de modo muito mais profundo a questão da leveza e densidade do ser sejam O Grande Sertão, do Rosa, ou Zorba, do Kazantzakis. Não sei. Boa quarta-feira!
quarta-feira, 15 de maio de 2019
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