Quando comecei a trabalhar, a primeira coisa que comprei foi um três em um Gradiente, com duplo deck para gravar de uma fita à outra. Foi uma época de som pesado (Sabbath, UFO); mas, em segredo, quando anoitecia, eu ouvia os discos do Jonnhy Rivers, ou o rádio. Para dormir, o rock n´ roll não era muito bom; preferia-o ao acordar. Durante a noite, sintonizava a rádio Alpha, a Antena 1, a Musical. Era com o rádio que eu dividia meus sentimentos mais íntimos. Nenhum parente ou amigo me conhecia tão bem quanto o meu Gradiente. Eu não precisava fingir, ele sabia quando eu estava alegre, triste, cansado, preguiçoso. Conversávamos a noite inteira. E, quando ele tocava uma música da qual eu já estava enjoado, era de um jeito diferente: Tears for fears, acontecia de...
Soon we will be older; when we gonna make it work?
Uma noite, eu não conseguia dormir. É que de vez em quando tenho uns pressentimentos, sabe? Uns medos absurdos de não sei o quê; só que, neste tempo, o rádio estava lá. E foi nessa mesma noite que ouvi pela primeira vez a voz de Milton Nascimento, E ERA TRAVESSIA: "meu caminho é de pedra, como posso sonhar?" O corpo inteiro tremeu, suei, a alma se descolou de mim, perdi o ar, o bar, o mar; parecia que eu estava com dengue e, ainda assim, tendo um orgasmo. Meu corpo era invólucro pequeno para aquela canção. Não havia céu para aquele som. E eu que, em segredo, estava acostumado a me emocionar com Build, dos Housemartins, flutuei para o que não tem fim. Meu coração palpitou forte, algo quente abriu caminho em meio às costelas. Assim que amanheceu, vi que, brotando do meu peito, pulsava um girassol violeta.
sábado, 25 de maio de 2019
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário