sábado, 25 de maio de 2019

É PRECISO ENCONTRAR O FORA



Se vocês me perguntassem se tenho um lado, responderia que sim, o de fora. É que, na maioria dos conflitos, não existe um lado certo e outro errado. Diferentemente do que acontece nos filmes, não há mocinhos e bandidos, mas circunstâncias. Os taxistas são contra os motoristas de Uber. Claro, os taxistas têm de pagar mais impostos, alvará, sindicato, etc; mas o que é um motorista de Uber? É um cara que não vê outra saída, aceita esse “bico” para levar o pão para casa. Não há um lado errado. A mesma situação se dá entre lojistas e camelôs, marido e mulher, pais e filhos. De suas posições, ambos sempre têm razão. É preciso estar de fora para compreender bem uma circunstância. Deve ser por isso que enxergamos tão bem as falhas alheias, mas temos dificuldade para ver as nossas. De fora, vemos o que o outro está fazendo de errado; não podemos, no entanto, a não ser pela meditação, ver o que nós próprios fazemos. Agimos cegos. Nietzsche sugeriu o perspectivismo; a meu ver, o perspectivismo ainda é pouco. Existe, em qualquer situação, um ponto que se situa além de ambos os lados. É lá que mora a verdade e o perdão. “As recordações, retratos do mal em si, melhor deixar pra trás”. A partir do fora, enxergamos a situação e não um lado dela. Creio que, neste momento histórico, todos temos de procurar o ponto de não-lugar. Entendo que boa parte do nosso povo votou no presidente que aí está por medo – a insegurança grassa - e o medo é um péssimo conselheiro. Não há que se tripudiar, porque este tipo de atitude gera ainda mais atrito. Quando alguém caçoa, o outro se enrijece em sua posição. Ninguém pode ser convencido sofrendo enxovalhos. Já não importa quem errou; um dos lados tem de estender a mão em vez de declarar superioridade. Quem caçoa nunca é superior. O medo gera raiva e a raiva gera violência, a qual nunca é boa. Todos somos vítimas de forças que souberam manipular os afetos em circulação. Há alguém atiçando a luta, feito o canalha que coloca a mão entre dois meninos em desavença e pede a ambos que cuspam na mão; tirando-a, porém, no último instante. Quem?

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