Jude
Dois
meninos. Dez, no máximo doze anos. O moreno claro, de cabelo liso, é Jude. Tem
esse nome por causa da música dos Beatles mesmo. Não gosta muito do nome. Na
escola, nos primeiros dias de aula, alguém sempre diz: A Jude está? E isso aí é motivo de piada. De cara, ninguém acha que
Jude é um menino. Natural. O outro é Evilásio Santos Neto, mas toda a molecada
o chama de Caroço. Só quem é da sala dele na escola sabe que o nome é Evilásio.
Estavam, ainda há pouco, jogando bola nos campinhos do cemitério. Quem é que,
nessa idade, na periferia, não sonha ser jogador hein? É a única maneira de ser
herói. E quem é que nesse mundo não sonha em ser herói, hein? A gente ganha, do
nada, um nome, um par de pernas e um rosto que ninguém mais tem. É preciso
defender isso de algum jeito. Quem joga, tem de ter gana. Não aceitar ser só
mais um.
- Aí Caroço...
Se ligou no rolinho que eu dei no Pelé? Vup. Foi só um, ligeiro até umas hora,
veio que nem uma vaca louca, vap, só encostei, passou.
- E
aquele golaço que eu fiz hein? Pou... Uma bomba, no ângulo, ainda triscou na
trave.
- Golaço
mesmo.
- Aí,
vamos dar a volta lá pelo riozinho?
- Que
nada, mó rolê, tio. Bora cortá por dentro do cemitério mesmo.
-
Firmeza então.
Atravessaram
o portão principal do cemitério. Quarta-feira. Poucos enterros.
- Compra
uma pipoca aí, Jude?
Há um
velho com uma carroça de doces ao lado do portão principal.
- Duas
pipocas aí, tio, e o troco de bala.
Cada um
pega um saquinho de pipoca. Enchem os bolsos de bala. Jude passa a mão na bunda
do outro.
- Ô
veado, deixa de putaria.
- Só
queria ver como é que tá o meu gadinho.
- Por que não pega aqui? – diz o Caroço
apalpando a parte da frente.
Sentam-se
sobre um dos túmulos para chupar umas balas.
- Bala
da hora, essa de leite, nénão?
- Que
nada, essa de coco aqui é a melhor.
E
descasca mais uma balinha. E outra de coco e leite, mistura com a de hortelã,
um pouco de pipoca por cima de tudo. Mistura que mistura e nhac... nhac...
- Ei,
Caroço.
- Falaí.
- Alguma
vez você já parou pra pensar que um dia a gente vai trocar de lado?
- Como
assim?
- Um dia
a gente vai tá do lado de baixo, truta, tudo escuro e silêncio. Olha esse
maluquinho aqui. – Aponta para a foto preta e branca de um garoto em uma das
lápides. – Um dia ele foi que nem a gente. Comeu, bebeu, jogou bola... Agora
não deve ter mais nem o osso.
- Que
conversa mais besta, Jude. Eu é que não penso essas bobage. Se a gente morrê,
ainda vai demora pra caramba.
- Vou te
falar um barato, Caroço, sabe que tu é meu camarada. Tem noite que eu nem durmo
pensando nessas coisa, perco o sono. Soco uma, soco duas e nada de sono. Aí
fico me sentindo mal porque, afinal de contas, Deus pode tá lá no alto vendo
minhas sacanage, será que existe mesmo Deus? E se não tivé Deus nenhum?
- Tu só
pensa bobage hein truta. Claro que Deus existe, se não o que é tudo as coisa
que tem no Mundo? De onde é que vem as árvore? A terra? Os rio? Nóis respira só
porque Deus deixa.
- Sei
não. Sei não mesmo. Tu não entende.
- Ainda tem bala de chocolate com leite?
- Deixa
eu vê – revira o saco de papel com as balas – tem sim, segura aí.
Joga a
bala para o outro.
– Será
que um dia a gente vai consegui? - pergunta.
-
Consegui o quê, Jude?
- Jogá
bola de verdade. Num time grande e tudo.
- Claro
que vai. Não conheço ninguém que joga bola melhor que tu e eu.
- É, mas
não sei não.
- Tu só
sabe pensá que vai dar tudo errado. Pensa que vai dá certo de vez em quando.
-
Verdade, vai dar tudo certo sim. - responde Jude, como se pudesse se enganar e
continua: - Vamboraí. As bala já era.
- Vamo
aí.
Saem
caminhando em direção ao portão dos fundos do cemitério.
- Ei
Jude, quando é que tua mãe vem te ver?
- Só na
outra segunda.
- E
aquele negócio lá de te mudá de escola, ela desistiu?
- Bati o
pé, falei que não ia praquela escola de veado não. Só tem emo e colorido lá. Tô
fora.
Na rua, encontram
uma garrafa pet de refrigerante vazia. Um chuta pro outro que devolve pro um.
- Ei, Jude,
sua tia pediu pra você levar uma couve-flor. Já separei aqui. - diz o dono da
quitanda enquanto coloca uma couve-flor na sacola.
- Só
isso mesmo que é pra levar, seu Manuel?
- Quando
ligou, ela só pediu isso.
O menino
apanha a sacola e chuta mais uma vez a garrafa para o outro.
- Vai
jogá bola mais tarde?
- Sei
não, cola aí depois, ou liga.
-
Beleza, falou.
- Falou.
Jude
entra em casa. Mora
com a tia-avó. Só os dois. A mãe aparece uma ou duas vezes por mês. Sabe que
ela, a mãe, gosta dele, mas esperava mais. Ele cuida da tia e a tia cuida dele.
Ah!, se um dia conseguisse jogar num time grande...
- Bença,
tia Fátima. - diz ao mesmo tempo em que coloca a couve-flor sobre a mesa e
oferece a mão à tia, que vira, calculando, centímetro por centímetro o
perímetro de sua cozinha, dá alguns passos à frente, apalpando com a mão
esquerda a borda da mesa, enquanto com a mão direita segura a mão do menino e
responde:
- Deus
te abençoe.