“Vidas pequenas na esquina.”
“E o grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é. Ser esse destino de pessoa que sonhou.” Você pode chamá-lo de comerciante, uma vez que vendia livros. Você pode chamá-lo de monge, uma vez que acendia incensos e cuidava dos livros como se fossem a materialização das almas dos sábios ancestrais. Você pode chamá-lo de velho; quando eu o conheci, ele já tinha mais de setenta. Lembro que sempre havia um perfume no ar. Às vezes era incenso de flor de laranjeira, às vezes era o odor do cachimbo. Onde há fumaça, há fumaça. Para que especular? Coração tranquilo... O sebo era perto de casa, mas não muito. Dava uns vinte minutos a pé. Comecei a frequentá-lo com 14... 15 anos. Quando tinha algum dinheiro, comprava livros. Quando não tinha, trocava. Quando não podia comprar nem trocar, ele me emprestava. Foi assim que conheci Machado de Assis, Clarice Lispector, Sylvester Stallone e o clássico Hell´s Kitchen, Kerouac, Proust. O velho tinha sido bibliotecário e agora, depois da aposentadoria, abrira um sebo na periferia porque não conseguia ficar longe dos livros. Se tive algum mentor, devo dizer que foi ele, pois foi, dentre outras coisas importantes, quem primeiro me apresentou os beats. Eu sempre aparecia com uma camiseta de banda de rock. Então, um dia, ele me deu o On the road, na edição da brasiliense: “acho que você vai gostar desse.” Na mosca. De outra feita, falou-me do autor que influenciara os beats: Proust. “Todos esses volumes são um único livro?” “Sim, e que livro!” Comecei a ler No Caminho de Swann, mas não passei da página 84, ficava nervoso com o protagonista mimado querendo um beijo da mamãe, pulei logo para Sodoma e Gomorra
😯! Até hoje não li Em busca do tempo perdido na íntegra, como também não li a Bíblia. Uma vez, cheguei lá e ele estava meditando... O incenso... O silêncio... Depois abriu os olhos: “Não basta ler os livros dos outros. Livros são olhares sobre o mundo, almas presas ao papel. É preciso também ler o livro que se é e o livro do mundo. Voltar às coisas mesmas.”
Passou tempo. Fui pra Assis estudar. Quando voltei pra casa, fui ao Sebo. Ele não estava mais lá. Uma velhinha, esposa, tomava conta do lugar. “Ele morreu dormindo.” O incenso de laranjeira ainda queimava. Como o perfume do incenso, o guardião de almas agora se espalhava no ar e, ao mesmo tempo, se reunia às almas irmãs.
Ontem, entrei numa loja de produtos naturais pra comprar mel, ando meio gripado, e senti o cheiro de incenso de laranjeira. Automaticamente, todo um mundo se reconstruiu em mim... Mortos voltaram à vida, eu rejuvenesci, livros contemplavam silenciosos o adolescente... Odor de cachimbo e flor. O passado não foi, o passado é. Quando me movimento, o passado se movimenta comigo. Se sento, o passado também se senta e espera pra engendrar o futuro.

