Domingo foi dia dos pais. Claro, a gente sabe do comércio, da publicidade, das crianças que não conheceram os pais... Eu, entretanto, escolhi ver o lado bom das coisas; não ignoro o lado ruim, se posso agir de algum modo, ajo; se não, aceito, não penso nisso: preocupação, indignação, pena, não resolvem problema algum. Então, no domingo, fui lá dar um abraço no meu velho e ver meus irmãos, nós três somos pais, e fiquei pensando nesse troço estranho que é a paternidade. Lembrei de quando a enfermeira me mostrou a Sofia do outro lado do vidro, grandona, nasceu com mais de quatro quilos. Lembrei do João, que vi nascer, estava ali ao lado quando ele chegou ao mundo e já chegou fazendo coco na mãe, na enfermeira, em todo mundo, porque funkeiro é zica do pântano mesmo.
E, depois do almoço, que tava bom demais da conta, lembrei daquele meu amigo, todo bruto, bravo, durão, que teve uma filha. Aí, um dia, nós íamos sair pra jogar sinuca e a menina, então com dois anos, não desgrudava dele e meu amigo me mostrou, orgulhoso até, que ela já sabia as cores todas e, quando fomos sair, a menina ficou dizendo manhosa: “Quero o papai! Quero o papai!” A mãe dela ajudou, tentou despistar; mas, eu e meu amigo, chegamos até o portão e então ele fez uma careta, respirou fundo e disse: “ Vai lá, velho, hoje não vou!” E voltou mais leve, sorrindo, pra ficar com a filha. O povo fica discutindo a respeito de quem é mais importante se o pai ou a mãe: nem tudo neste mundo é uma disputa, uma corrida...
E, de tarde, no domingo mesmo, li um pouco do livro do Sr. Salomão Borges, pai do Lô, Marcim, Telo, Nico, Marilton, Solange e mais uma porrada. O livro se chama Tobogã. Simples, como tudo o que é sábio. Na noite em que o sexto filho, o Lô, nasceu, foi uma confusão danada, bateram o carro, choveu pra caramba, um rolo... Salomão contando do esforço pra criar onze filhos... As coisas simples da vida são tão profundas! Nunca senti verdade assim lendo Heidegger, Deleuze, Foucault....
E o Lemmy, do Motörhead, que teve filho com uma groupie? Anos mais tarde, a moça apareceu com essa novidade, ele assumiu o menino e tocou a vida. Bravo, bruto e roqueiro. O menino se tornou músico. Viam-se pouco por causa da vida louca do pai. Num dia em que estavam juntos, o filho pegou um baixo, o pai o outro e, com umas dicas e o olhar atento do pai, os dois reataram laços ancestrais. No documentário sobre o Lemmy, o filho conta esse episódio emocionado e diz que está preocupado com a saúde do pai – tempos depois o vocal e baixo do Motörhead faleceria. Lemmy nunca se derreteu, não fez qualquer carinho, aqueles toques a respeito do instrumento eram sua forma de demonstrar amor. E o filho entendeu e sentiu-se amado.
Então, gente, não sei muito bem o que quero dizer. O tal dia dos pais já passou, se você não gosta do dia dos pais por causa do capitalismo, dê hoje um abraço no seu velho; se você está brigado com seu coroa, deixe o passado para trás; se seu pai morreu, lembre-se dele, do que gostava de fazer, da canção preferida, do time para o qual torcia; se você nunca conheceu seu pai, abrace seu tio, seu irmão mais velho, seu avô, sua mãe. Amanhã pode ser tarde para dizer o que sentimos.
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