quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UM ORGASMO EM FORMA DE CANÇÃO

Lembro que, nessa época, reformávamos a casa da frente e morávamos na edícula. Eu estava sentado no degrau da porta da cozinha, quando começou a canção. Entender o que era dito, não entendia; mas o meu cerne captava o jogo de vozes, de suspiros, de gemidos... Naquele tempo, tudo era sensação, comunhão mística: império dos sentidos. Hoje, passados muitos anos, diria que aquilo era um orgasmo em forma de canção.
A primeira vez que ouvi Je t'aime... moi non plus, com Serge Gainsborug e Jane Birkin foi assim... De algum modo, entrei também no jogo, a trois. Eu sei vocês não sabem do lixo ocidental... Andando de sobretudo, no frio de Paris, a Torre Eiffel e tudo o mais. E eu menino, aqui, também perdi o controle sobre mim, experimentei também uma experiência mística, uma pequena morte, essa ausência de eu que o momento do orgasmo nos proporciona. Por mais que o homem seja forte, duro; no momento do orgasmo, o eu se dissolve, desloca-se para os quadris, torna-se todo movimento. Os dionisíacos tinham razão: não há espaço para o sagrado para quem está cheio de si e, durante o orgasmo, quem é que não se esvazia? O gozo abre uma fissura, uma fenda na armadura.
Tempos depois, eu lia e queria ser um daqueles investigadores de pedra de Dashiell Hammett, quando vi o vídeo pela primeira vez, na casa de um amigo. Serge era a personificação dos homens de Hammett. Feio, duro, machucado de alguma forma pela vida. Alguém que sofre e não murmura, mas engole sua dor junto com doses generosas e muito tabaco. E Jane Birkin? Pura entrega, inocência que geme... Amando a ferida de seu homem. Um homem com uma dor é muito mais bonito... A Bela e a Fera... Eu vou e venho entre seus rins. Você vem e vai entre meus rins.
- Eu te amo.
- Eu não mais.
Ela, pura confiança; ele dor, medo de ficar vulnerável, insônia e olheiras. É mentira que não ama mais, mas tem medo de se tornar frágil. Diz que não precisa de ninguém, nem de nada, além de seus cigarros e seu álcool.
Os estetas diriam se tratar de uma canção brega. Mas do que é que os estetas sabem? Não é necessariamente uma canção, mas a tradução do sexo, do amor que se instala, em notas musicais. A dor e a ternura entrelaçadas. O homem das ruas e a menina angelical. E Paris como cenário. Que mais uma canção poderia almejar?

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