Para os gregos, havia três instâncias temporais:
aion, cronos e kairós. Esta última seria uma medida de tempo próxima à duração,
de Bergson. Por exemplo, o tempo que um torrão de açúcar dura pra derreter na
xícara de café, ou o tempo da nossa infância, ou a duração de um caso amoroso.
Aion seria o tempo longe dos relógios, o tempo amorfo, mole, virtual, vazio e
luminoso que age em silêncio, preparando o acontecimento e o atual. Cronos
seria o acontecimento, o fato em si, o tempo enquanto evento. Por exemplo;
desde que nascemos, começamos a morrer, esta morte lenta feito um rio viscoso
estaria ligada ao aion; o infarto, a bala perdida, o escorregão na casca de
banana, a cabeça fatalmente no meio fio, seria cronos. Para usar outro exemplo,
agora ligado à literatura, pensemos no título do livro de Malcolm Lowry: À
sombra do vulcão. A larva correndo sub-reptícia, vagando sob as placas
tectônicas é aion; a erupção, quando o tempo e a larva se aceleram, é cronos.
Basicamente, a tragédia grega; ou melhor, a
tragédia em geral, é estruturada entre aion e cronos. Há um acontecimento
inicial que desembocará no final, acontecimento, terrível. Em Édipo rei,
segundo Aristóteles o mais bem acabado exemplo da tragédia grega, há a profecia
inicial: cronos; a fuga de Corinto e as perambulações do “herói”: aion; o encontro com Laio e a consequente morte do
pai e daí por diante... Cronos. O mesmo se dá nas tragédias shakespearianas:
Hamlet seria o melhor exemplo. Há o assassinato do pai, a aparição do fantasma
e sua exigência: cronos; então Hamlet hesita, parte, viaja, estuda, parece que
nada acontece e o protagonista nada faz de fato: aion; e aí ocorre a volta, a
vingança: cronos outra vez. Nos acontecimentos finais de uma tragédia, o tempo
acelera; vidas e laços são destruídos como se arrastados por um tsunami: “o
tempo fora dos eixos” como diz o príncipe da Dinamarca. Cronos é furioso, o que
você esperaria de um cabra que capou o pai a mando da mãe?
Escrevi os parágrafos anteriores apenas para
afirmar que a estrutura temporal dO grande sertão é a mesma de uma tragédia. Há
o assassinato de Joca Ramiro, pai de
Diadorim, a busca por vingança, o pacto de Riobaldo, o rapto da mulher do
vilão; mas, quando a vingança parece próxima, o tempo para, estaciona, estagna.
Diadorim chega mesmo a acusar Riobaldo de estar enrolando para cercar
Hermógenes. E então, tudo se acelera outra vez, o confronto, Riobaldo na janela
vendo Diadorim matar e morrer pela lâmina, o corpo morto de mulher... Nas falas
do narrador, a caracterização do aion: “Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para
pensar – tem uma coisa!-: eu vejo é o tempo puro vindo de baixo, quieto, mole,
como a enchente duma água. Tempo é a vida da morte: imperfeição.”
No exato instante em que escrevo e você me lê, aion
está fazendo seu trabalho sem finalidade. Tecendo destinos, preparando fatos, imaginando
a quebra de sorrisos e lenços para lágrimas; portanto, amigos, não se iludam “tudo
agora mesmo pode estar por um segundo.” Édipo rei, tempo rei, ó tempo rei, ó
tempo rei.”
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