quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TEMPO, TRAGÉDIA E O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMOINHO

Para os gregos, havia três instâncias temporais: aion, cronos e kairós. Esta última seria uma medida de tempo próxima à duração, de Bergson. Por exemplo, o tempo que um torrão de açúcar dura pra derreter na xícara de café, ou o tempo da nossa infância, ou a duração de um caso amoroso. Aion seria o tempo longe dos relógios, o tempo amorfo, mole, virtual, vazio e luminoso que age em silêncio, preparando o acontecimento e o atual. Cronos seria o acontecimento, o fato em si, o tempo enquanto evento. Por exemplo; desde que nascemos, começamos a morrer, esta morte lenta feito um rio viscoso estaria ligada ao aion; o infarto, a bala perdida, o escorregão na casca de banana, a cabeça fatalmente no meio fio, seria cronos. Para usar outro exemplo, agora ligado à literatura, pensemos no título do livro de Malcolm Lowry: À sombra do vulcão. A larva correndo sub-reptícia, vagando sob as placas tectônicas é aion; a erupção, quando o tempo e a larva se aceleram, é cronos.
Basicamente, a tragédia grega; ou melhor, a tragédia em geral, é estruturada entre aion e cronos. Há um acontecimento inicial que desembocará no final, acontecimento, terrível. Em Édipo rei, segundo Aristóteles o mais bem acabado exemplo da tragédia grega, há a profecia inicial: cronos; a fuga de Corinto e as perambulações do “herói”: aion;  o encontro com Laio e a consequente morte do pai e daí por diante... Cronos. O mesmo se dá nas tragédias shakespearianas: Hamlet seria o melhor exemplo. Há o assassinato do pai, a aparição do fantasma e sua exigência: cronos; então Hamlet hesita, parte, viaja, estuda, parece que nada acontece e o protagonista nada faz de fato: aion; e aí ocorre a volta, a vingança: cronos outra vez. Nos acontecimentos finais de uma tragédia, o tempo acelera; vidas e laços são destruídos como se arrastados por um tsunami: “o tempo fora dos eixos” como diz o príncipe da Dinamarca. Cronos é furioso, o que você esperaria de um cabra que capou o pai a mando da mãe?
Escrevi os parágrafos anteriores apenas para afirmar que a estrutura temporal dO grande sertão é a mesma de uma tragédia. Há o assassinato  de Joca Ramiro, pai de Diadorim, a busca por vingança, o pacto de Riobaldo, o rapto da mulher do vilão; mas, quando a vingança parece próxima, o tempo para, estaciona, estagna. Diadorim chega mesmo a acusar Riobaldo de estar enrolando para cercar Hermógenes. E então, tudo se acelera outra vez, o confronto, Riobaldo na janela vendo Diadorim matar e morrer pela lâmina, o corpo morto de mulher... Nas falas do narrador, a caracterização do aion: “Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar – tem uma coisa!-: eu vejo é o tempo puro vindo de baixo, quieto, mole, como a enchente duma água. Tempo é a vida da morte: imperfeição.”
No exato instante em que escrevo e você me lê, aion está fazendo seu trabalho sem finalidade. Tecendo destinos, preparando fatos, imaginando a quebra de sorrisos e lenços para lágrimas; portanto, amigos, não se iludam “tudo agora mesmo pode estar por um segundo.” Édipo rei, tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei.”


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