Goethe
dizia, antes vender a alma para a corte de opereta de Weimar: Para mim não há jeito de acabar bem! (A
força separada do que pode, divide-se em duas, desagrega-se, volta-se contra si
mesma) Depois do pacto com o diabo, chegou aos oitenta e tantos anos e escreveu
o Fausto. Haveria o Fausto sem o pacto do próprio Goethe com
o poder? A obra guia o autor através daquilo que ele julga ser biografia, como
o pica-pau naquele desenho que é sugado pelo cheiro cheio de dedos da comida.
Goethe se vendeu, mas neste comércio
com a representação, salvou-se. Há um quê de cinismo em todos os que se salvam.
O que será que o ancião diria ao jovem escritor de Werther? Talvez, se o jovem Goethe pudesse prever o futuro, teria
cometido suicídio sem pensar duas vezes. Talvez não. O artista é um bicho estranho,
sacrifica qualquer coisa pela sua obra. Quem escreveu o Fausto merece nosso perdão. Quem escreveu Viagem ao Fim da Noite também. Seria preciso outro tipo de balança
para gente assim. Todo gênio é um filho da puta, mas também tem um bocado filho
da puta estúpido. Os primeiros não escapam do sofrimento, estão morrendo o tempo
todo; os segundos morrem uma única vez.
O que Goethe aprendeu, e por isto
acabou escapando do trágico, foi a conviver com a rachadura. Fixá-la com a cola
adequada. Ele nunca foi inteiro. Indivíduos? Só os estúpidos e os insensíveis.
Os homens sensíveis-do-pensamento, mais cedo ou mais tarde, são divididos ao
meio, rachados a golpes de navalha ou de machado.
Eu tenho uma tendência natural ao
negativo, mas não me entrego a ele numa orgia de depressão e The Cure. Não dou mole para a minha
pereba. Esforço-me pelo SIM, ainda que viva com o horror nos calcanhares. Ele,
o horror, não dá trégua. Mesmo nos momentos felizes, uma imagem sinistra me
acompanha. Eu não posso vê-la, é uma sensação, como num sonho ruim. Ela, a
imagem terrível, não está nos meus olhos ou fora de mim, não está nos meus pesadelos,
ou nas montanhas do Afeganistão. Está por todo lado, como o ar. Vivo com a
impressão de que, se tivesse olhos de ver, eu veria, e ela me destruiria
imediatamente. Se conhecêssemos a
verdade, a verdade nos destruiria. Algo espera do outro lado da ponte.
Mesmo quando mexo nos cabelos do meu filho adormecido, sinto que a felicidade é
pequena e que o terror não demora.
Hemingway escreveu em Adeus às armas: “Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo
precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os
quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no
ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata.
Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – Indiferentemente”.
Indiferentemente, todos aquele que esforçaram-se pelo sim, tiveram um final
terrível, como se o corvo nunca deixasse de amaldiçoar: Never more!. A sífilis espiritual de Nietzsche... O colapso de
Fitzgerald... O gatilho de Hemingway... O salto de Deleuze... Os óculos de
Lennon na calçada em frente ao edifício Dakota. Quem sonhou, só vale se já
sonhou demais. A rachadura não perdoa, amigos, por mais que fechemos os olhos e
tratemos de ter bons sonhos, a rachadura cobra a conta com juros e correção.
Os que me conhecem sabem que não sou
de ficar choramingando, lambendo minha própria ferida, mas, mesmo nos momentos
em que sinto minha energia vital pulsar com maior vigor... Mesmo quando a
vontade de potência provoca uma ereção... Mesmo quando me sinto capaz de
suportar o mundo, um corvo canta rasgado:
Never
more!
E as palavras de Goethe ecoam em
meu ouvido.
-
Para mim não há jeito de acabar bem.
O cinismo é a cola que remenda a
fissura, mas meu pote está vazio.
Só por hoje.