Você tinha um namorado gordo em alguma outra cidade do interior
& nós éramos jovens
Você tinha uma pasta com poemas
A alma colorida
& nós éramos jovens
Você me pagou dezesseis latas de brahma
Quando eu só bebia conti
& nós éramos jovens
Ainda há pouco éramos jovens
Parece que foi antes das três
Agora, depois de termos sorvido as nozes
& cuspido a casca de tantos anos
Procuro a pérola que ainda brilha
Em algum baú antigo
Sob a mágoa
Sob o tédio
Sob a carne podre
Sob o rancor
Não estamos velhos
Mas ela, a velhice, vem a galope no sentido contrário
As tetas murchas de fora
Tatuagens enrugadas
A resignação é uma lição que nos custa os cabelos
& a face lisa
O amor é mil & a cada dia veste uma face nova
Aproxima-se o tempo do companheirismo
Mas eu prefiro, ó como prefiro, os anos da fome
& do osso que me atravessava a pica rosada
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
domingo, 9 de agosto de 2015
As trincheiras de uma poeta
Lendo
Arame Farpado, de Lisa Alves, a
primeira impressão que tive foi que a escrita de Lisa engendra uma literatura
menor, no sentido em que Deleuze e Guattari constroem este conceito. O termo
menor, no caso, não tem qualquer conotação depreciativa, mas, antes, conecta-se
ao devir e todo devir é minoritário. Menor tampouco tem a ver com o status de
determinado idioma. Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes
a que uma minoria faz em uma língua maior, como no caso dos judeus de Praga, ou
dos negros e dos povos hispânicos nos Estados Unidos. Estas minorias, de certo
modo, violentam a língua, fazem dela um uso menor, levam o idioma para longe
dos dogmas sintáticos, semânticos e prosódicos instituídos. A primeira
característica de uma literatura menor é que nela a língua é afetada por um
enorme índice de desterritorialização. Os poemas de Lisa, no livro, são
agrupados em seis capítulos intitulados: Do
eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia.
No segundo capítulo do livro intitulado “Dos
territórios” encontramos poemas como Poésie
da Mula, cuja última estrofe mistura a língua portuguesa abrasileirada,
falada nas ruas, ao francês:
Se hoje sou
assim tão “gente”
Tão longe, “nas
bagaça do estrangeiro”,
Pagando de diplomatique
Heroína,
Cocaína: nomes de poésie.
A segunda característica de uma
literatura menor é que nelas - ao contrário do que ocorre nas grandes
literaturas, onde o individual tende a juntar-se com outros casos também
individuais – tudo é coletivo. Nas grandes literaturas o problema geralmente é
edipiano; ao passo que nas literaturas menores, o problema não é exclusivamente
de um indivíduo, de uma família, de um sujeito separado do mundo, aqui o problema
é sempre de um povo, de uma minoria. Não é que o escritor, ou melhor, ou
eu-lírico, não possua uma singularidade,
o caso é que nas literaturas menores, o individual é exagerado, conecta-se com
outras esferas, não existe isolado. Na literatura menor, em vez do individual
têm-se sempre o coletivo. Ao abrir seu livro, Lisa trata justamente da questão
do eu, mas este eu, assim como em Rimbaud, é um outro, ou melhor, é vários outros.
Mario de Andrade diria aí: “sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um
dia, afinal, toparei comigo mesmo.” É que o eu, para a poeta, não é um umbigo,
mas um agenciamento:
ECOS
O Eu original
foi desconectado
e tudo o que
restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),
no escuro de uma
tabela periódica,
crédulos das ciências e dos teísmos,
cultivadores de
rótulos, diplomas e de imóveis habitações.
Segundo
Deleuze e Guattari, um agenciamento é uma mistura, uma abertura à alteridade.
Para os autores, o agenciamento é que é a unidade real mínima e não a palavra,
a ideia ou o conceito, muito menos o significante. O enunciado, deste modo, é
produto de um agenciamento e não de um sujeito, ou de um eu, e sempre põe em
jogo dentro de nós e fora de nós populações inteiras, multiplicidades, devires,
territórios e acontecimentos. Lisa escreve em Cartas para o Mundo:
Eu era todos: a
menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.
Nós todos éramos
ultravidas – ninguém conhecia a direção
do outro ou qual a cor predileta.
Eu ouvia seus
zumbidos enquanto travavam suas missões.
Eu reconhecia
seus pensamentos, seus sistemas digestivos e os seus tutanos.
Eu era todos:
varão e fêmea, domínio e servilismo, guerra e silêncio.
Nós todos
compúnhamos uma orquestra de músicas mestiças
e marchávamos em
fios ou nos estreitos paredões.
Eu era todos:
guarda-chuva, estepe e carrinho de mão.
Éramos os substitutos,
os do final da fila, os stand-by. Sem mais.
Eu era todos:
rins, tesoura e pedra.
Filtros, cortes
e lapidações – editados pelos comerciais de um dia feliz.
Eu era todos: o
carbono, o silício e a saliva
fluída da boca
esfomeada ou
gananciosa.
Eu era a fila
para lugar nenhum e o orifício certeiro.
Eu era a banda
larga.
A
poesia de Lisa é um modo de questionar nossa identidade. Que é ser brasileiro?
Como se forma uma individualidade num país pobre e preconceituoso? Como podemos
ser com o outro? Não com os donos do poder e do capital, mas com “os do final
da fila”? Devir é sempre minoritário e optar pelo menor é uma opção política,
não partidária, mas política. Isto nos leva à terceira característica de uma
literatura menor.
A terceira
característica da literatura menor é que nela, ao lado da esfera coletiva, tudo
toma um valor político. Enquanto nas grandes literaturas abundam aqueles que
têm intimidade com o idioma e, por isto mesmo, facilidade para escrever; nas
literaturas menores, aquilo que se manifesta é sempre coletivo e político,
mesmo porque em uma literatura menor as condições de uma enunciação individuada
não são dadas. Tudo é então agenciamento. Em Arame Farpado, a esfera política atravessa cada poema, cada
estrofe, cada verso, cada palavra, a começar pelo título: Arame Farpado! Não, meus amigos, isto já não é um livro de poemas,
é uma declaração de guerra, de guerrilha, ao instituído, ao poder, aos
poderosos... É a formação de barricadas, de trincheiras. Cá estamos, do outro
lado, não protegidos, mas expostos a
versos cortantes como estes, do poema Renascença:
Quando as
fronteiras da Terra forem abertas
e exterminarem
essa falsa cultura made in,
confraternizaremos
como uma irmandade terráquea.
A América que
conheço não tem nenhum tio chamado Sam.
A América que
cresci foi desertificada
por um sonho que
não é meu,
que não é seu e
nunca foi nosso.
O
livro de Lisa Alves já não se configura como aquilo que chamamos texto, ele é
corpo. Parece feito de carne e sangue. Não baixa a cabeça, mas encara. Não fala
a meio tom, mas grita. Como certa vez escreveu Ralph Waldo Emerson: “Se
cortássemos essas palavras, elas sangrariam.” Leitura obrigatória, mas sugiro
luvas grossas ao manusear o livro, para que os cortes nas mãos não precisem de
pontos.
Arame Farpado. Lançamento Coletivo Púcaro. Vendas com a autora: lisaallves@gmail.com e www.facebook.com/lisaallves.
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