segunda-feira, 21 de outubro de 2019

MEU DOCE SENHOR

 Meu Deus é dócil
E com sotaque baiano
Me diz naquelas madrugadas de desespero:
- Se achegue, meu nego, deite sua cabeça boba em meu colim, deite.

CAMA DE TATAME PELA VIDA AFORA

 Saudade dos anos sessenta, mesmo sem ter vivido os anos sessenta. Saudade dos Beatles, dos Beach Boys, da nouvelle vague. Saudades da Paris dos anos vinte, de Zelda, Hemingway e Scott Fitzgerald. Saudades de Kerouac, Ginsberg e Neil Cassady. Saudades dos nossos bailes no Clube da Esquina, sem nunca ter morado em Beagá. Mesmo na minha vida, sempre fui o menino de rua que observava o restaurante do lado de fora do vidro, no frio. Saudades de Assis..., do Rogério, da moradia, da República Bom Jesus e do Deus de minha infância. Saudades da Bianca, de tantos bares, do Pelé, do dia em que conheci Márcia Benedita Barbieri e do jovem que eu era: Ceará e eu atravessando o pasto e as estrelas despencando do céu. Saudades das escolas onde estudei e lecionei; dos amigos que a vida levou pra longe e dos amigos que a morte levou pra nunca mais. Saudades dolorosas do Bom Retiro; da Fernanda, será que ela hoje é feliz? Saudades dos meus irmãos Marcos e Léo. Saudade que dói o dia todinho e traz inverno em pleno outubro. Saudade das excursões para o Playcenter no ensino fundamental. Saudade de certas canções que não são deste mundo. No centro de mim mora um buraco; uma dor gostosa e sem nome que me visita de madrugada; quando é cedo pra levantar, mas tarde demais pra voltar a dormir. Saudade do tempo em que eu ainda não tinha estragado tudo. Saudade do novo que já traz em si a semente dessa saudade; Lábios-labirintos: Ana. Saudade da primeira vez que assisti The Wall, o filme, aos treze anos; da época em que ninguém era viciado em crack. Findada a festa, copos virados, guimbas de cigarro, garrafas vazias; e eu queria continuar bebendo pra não ter de passar por isso. Saudade da minha fé na vida; daquela vontade avassaladora de ser escritor. Saudade do útero, do seio materno; do meu pai consertando o chuveiro; do dia em que meus filhos nasceram. Sinto – diariamente - a saudade que o moribundo sente na quina da morte; e, então, tomo calmantes pra funcionar. Saudade de nascer ao avesso e de ofertar àqueles que estão chegando essa minha alma cheia de bagagens, culpas, arrependimentos, alegrias selvagens, piadas, sorrisos, festas, letras de canção.
Saudade de partir.
Do que ainda não é.
Do mar.
Nesta manhã, amo, porque sou, a humanidade.
E daí?

sábado, 19 de outubro de 2019

PESADELO

Desde que Benedita o deixara, Gordão vinha atravessando uma longa noite. Uma hora, no entanto, o corpo pede descanso. E foi aí que. Mas não ainda. Aquilo que se move ao passado dentro da gente se chama alma. Vinte anos atrás, quando pesava trinta quilos a menos, consultara a sorte com uma cigana, numa cidade do interior, a qual, ao jogar o baralho, dissera-lhe:
- Perceba que a melhor parte do amor é a fatia mais fina. Alguns dias entre o primeiro e o segundo mês num relacionamento de quase vinte anos. Tudo passa. Até o fim de sua vida, contudo, não haverá um só minuto em que alguma mulher não estará apaixonada por você.
Como forma de agradecimento, comeu a cigana. E, agora, Benedita. Um corpo mais velho e cansado. Deitado na cama - boca amarga de álcool e alcaloide - resolveu olhar as fotos no Facebook. Tinham feito tanta coisa juntos e agora tudo aquilo parecia ter acontecido numa outra vida. Havia amigos e ele não queria que os amigos. Adormeceu e, mesmo antes de fechar os olhos, sonhou que tinha sido enterrado vivo; sem caixão. A boca cheia. Com as unhas, tentava cavar a terra que não. Despertou assustado.
Banheiro.
Azulejos brancos.
Espelho.
Urinou. E,
ao escarrar na privada,
notou que a saliva estava cheia de terra.🌻

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

RETRATO DE UM TEMPO PERIGOSO - NOTA SOBRE CORINGA



Coringa é um bom filme; mas mais que uma obra de arte é um trabalho que capta o zeitgeist, o espírito de um tempo. A direita, burra como sempre, não entendeu o filme. A esquerda, burra como sempre, também não. Sobre seu A banalidade do mal, Hannah Arendt escreveu que a falha do livro é que o mal é sempre radical, nunca banal. A burrice também é sempre radical. Os conservadores viram o filme como um manifesto de esquerda e a esquerda também. Ambos se esqueceram de olhar para o protagonista. O mal é sempre radical. O Coringa é alguém para quem pouco importa a justiça social. É o “tanto-faz”. Ele pode cometer suicídio ou assassinato. E aquilo com que goza nas revoltas de Gotham é com a destruição e não com a possibilidade de um mundo mais humano. Ele não acredita nisso. Tanto que, no final, aparece espalhando pegadas de um sangue inocente. O filme estaria mais perto daqueles dois adolescentes que entraram atirando numa escola em Suzano do que de uma revolução qualquer. Claro, a película mostra como uma sociedade injusta cria violência e monstros. Acontece que ninguém pode controlar esse tipo de energia. Não há utopia no horizonte, só a ânsia de destruição. Esse mesmo tipo de revolta pode criar um Hitler, um Napoleão; com muito menos, no Brasil, fez-se um Bolsonaro. A Gotham City do filme é um pouco o mundo, o Brasil mesmo, hoje, mas também é um pouco da República de Weimar: o ovo da serpente. O livro de cabeceira de Stalin era o Viagem ao fim da noite, de Céline, que, ao ser publicado, foi saudado pela esquerda como um livro revolucionário, uma vez que era uma denúncia contundente do absurdo da sociedade burguesa. Anos mais tarde, Céline exigia o enforcamento de judeus num tribunal. De certo modo, creio que vivemos numa época limítrofe em que o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu. O que pode nascer daí, não se sabe. Há as lutas ecológicas, a representatividade cada vez maior das minorias; mas há também o aumento da truculência, das mortes pueris.Temos de trabalhar muito para o Bem. Pode ser que nasça alguém (uma sociedade) como o protagonista de Kundun, ou o próprio bebê de Rosemary. O erro de toda intelligentsia é se achar capaz de utilizar para seus fins supostamente humanitários essa energia louca. A fé na razão tanto de esquerda quanto de direita é ingênua.
Ah, Joaquin Phoenix escreveu de vez seu nome entre os maiores. Embora eu ainda ache que seu melhor trabalho está em Amantes.

QUANDO O AMOR FLORESCE NA LAMA FEITO LÓTUS

- Essa é uma canção deliciosa pra fazer amor e dormir agarradinho, pelado, depois, né não?
- Pode crer, Profe.
Cada um de nós lavava um panelão. Passávamos o dia na laborterapia. Era melhor que ficar lá fora, trancado no refeitório, com mais de cem cabras perturbados. Na cozinha, não parávamos nem por um minuto, mas tínhamos direito a ouvir o rádio e, no final da tarde, tomávamos um cafezinho, sentados na grama, nos fundos da clínica, olhando a serra do mar. Todos carregávamos culpas e agonias impensáveis; em silêncio, duros e doloridos. De vez em quando, contudo, tocava uma canção e a gente virava menino outra vez, cantando junto: sharing the night together, uôô! A magia nos levava pra um lugar longe de nós mesmos: alívio.
- Será que ela vem na visita, Profe?
- Vai saber. Tomara que venha, uai. Não sei nem se vem alguém na minha.
O menino que conversava comigo era o Flavinho. Vinte e dois.
- Sabe, Profe. Na noite em que eu a conheci, nem acreditei, porque não dá pra crer que alguém tão bonita pode carregar tanto sofrimento. Eu tava doidão, pra variar, né? E, nem sei como, fui parar na zona. Como é que uma menina daquelas? Era uma história pra lá de triste: estupros, abusos, violência, aquelas coisas todas, sabe? Então, eu tinha feito fita boa e nem sabia o que fazer com o dinheiro. Nunca soube. Enfim, assim que vi a moça, paguei o pernoite. Falei: você vai ser minha essa noite inteira. Depois vai ser depois. E ela ficou como, Profe? Sorrindo, uiuiui. E eu nem sei outro nome pra isso, é encontro mesmo, né? E ficamos, ali, os dois. Dia seguinte, chamei ela pra ir pra praia e ela topou. E ficamos uma semana na praia, de boas, sem fazer nada, só se amando... fumando um, andando na orla de noite. “Vou fazer um filho em você!” – Falei e sabe o que ela respondeu? “Eu quero”. Mas depois que voltei, tive uns problemas com a lei; descaralhei de vez da cabeça e acabei aqui. Que acha? Será que ela vem, Profe?
- Se disse isso aí tudo vem. Mulher é bem diferente da gente. Nos momentos difíceis é que elas se apegam mais. O contrário não rola. Sabia que setenta por cento das mulheres são abandonadas quando descobrem um câncer ou algo assim?
- Sabia não.
Voltamos às panelas. Eu não sabia se ainda teria uma família ao sair. Nos primeiros noventa dias, ficávamos incomunicáveis. Quanto ao Flavinho, recebeu seu amor em todas as visitas. Ela não faltou uma vez sequer. E sempre levava doces, frutas, trufas, ou.
Da última vez que soube dos dois, o Flavinho tinha comprado um barco – era garoto ligeiro - e trabalhava com pesca no Arraial do Cabo; mandou foto de umas praias lindas. Tinham agora uma menininha de dois anos e o pai dela continuava limpo. Toda vez que me lembro deles, meu coração transborda de ternura e, quase sempre chorando, murmuro um oração por eles, e por mim, e por todos os desajustados desse mundo.
Que o amor floresça sobre a lama feito o lótus: sempre.
🌻

A ESCRITA, A DOENÇA E A GRANDE SAÚDE

E me lembro daquela entrevista da Clarice Lispector na qual ela parece um bichinho acuado; sentindo-se, em meio aos entrevistadores, como a farpa que o pus e a infecção querem expulsar do dedo. E ela diz: “Quando não estou escrevendo, estou morta!” Em Tigresa, Caetano Veloso canta um de seus versos mais simples e sinceros: “como é bom poder tocar um instrumento”. A possibilidade de escrever, de tocar, de criar, é uma pausa na doença; enquanto a gente escreve, afasta o precipício. Quando nada se forma em nosso útero, é a doença que grassa tal qual mioma, ferida, tumor, ausência de buraco; ou melhor, buraco sem borda. Hemingway deu um tiro com uma espingarda de matar elefante na própria boca porque perdeu essa possibilidade de criar, de honrar a Deus imitando seu gesto, e, ao mesmo tempo, colocar ordem em seu coração escangalhado. Um dia no qual não escrevo é como um dia sem medicação. Tudo fica estranho, sem conexão com a alma; é como se surgisse um fosso entre mim e o lá-fora, tal e qual aqueles fossos que cercavam os castelos na Idade Média. As coisas esvaziam-se de seu mistério e a pedra torna-se só pedra; o pássaro: um bípede com penas e até o amianto, um nome sem porquê. Então, a mão que escreve é verde-violeta e conecta-se ao coração sem passar pela cabeça; enquanto a mão que revisa é racional e teima em segurar a outra para que ela não escreva. Uma é a mão social; a outra, a mão selvagem. Há dias nos quais elas não se entendem e. Outro dia, li um poema da Adélia Prado que termina assim: “A uns Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo”. Enquanto houver a palavra, sei que estou a salvo. Ela, a palavra, não é a corda com a qual me enforco, mas a reta tensionada sobre a qual me equilibro acima do abismo. É impossível um romancista se matar sem terminar o romance que está escrevendo. Mas e se um dia eu sentir que já nomeei o que tinha de ser por mim nomeado e, como van Gogh, achar que nada mais tenho a pintar-escrever? E, se a cartola do mago, de um instante para o outro, ficar vazia?
Ainda assim, aposto no amor.
Hei de sobreviver ao meu sonho.
Sou fé.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

RECAÍDA

E, quando o filho chegou sujo, com o rosto quebrado, já na segunda-feira, o pai - lágrimas nos olhos - perguntou:
- Que aconteceu, meu filho, você estava tão bem?
E o filho:
- Eu não sei, pai.
E não sabia mesmo. E nem conseguiu chorar quando se trancou no quarto.

AMITIÉ

GEORGE HARRISON disse:
- Agora sei porque elas são tão grandes!
Referia-se às próprias orelhas que sustentavam a máscara de oxigênio no rosto. O ano era 2001 e George morria de câncer. Ao seu lado, segurando sua mão, estava Paul McCartney. Naquele momento, eram os Beatles que se conheciam havia mais tempo - foi Paul quem apresentou George a John – e eram também os Beatles que mais desavenças haviam enfrentado ao longo dos anos. Nos instantes derradeiros, segurando a mão do amigo, Paul pensou: “Puxa vida, sou amigo desse cabra há mais de quarenta anos e não me lembro quando foi a última vez que estivemos juntos.” Havia já mais de duas horas, agora, que segurava a mão do amigo. O clima não era triste, George era um homem religioso, estava pronto para a travessia. De qualquer modo, é diante da morte que percebemos quais são as coisas importantes de fato na vida. Agora, todas as brigas e intriguinhas por dinheiro, ego ou vaidade estavam diluídas, ambos voltavam aos adolescentes roqueiros. O que me pergunto é: por quê? Por que temos de esperar o raio nos partir ao meio para expressar o que sentimos? Por qual motivo não jogamos a máscara fora agora, sem um motivo trágico qualquer? Do que, afinal, temos medo? Seria orgulho? Arrogância? Covardia? Teimosia? Não sei. Fico, entretanto, feliz que eles tenham tido a chance de se entender no final. George e John, por exemplo, não tiveram; all those years ago é um pedido póstumo de desculpa. E aí, aqui na vila do Chaves, outro dia, fui fazer uma caminhada e vi dois velhos amigos que frequentavam o bar do meu pai pra jogar truco nas antigas: Mané e Tonhão. Ambos já têm mais de 65. O Tonhão está aposentado, mas o Mané é mecânico e continua atendendo seus clientes. Vira e mexe, o Tonhão vai visitar o Mané na mecânica. Às vezes, eles nem ficam perto um do outro; o Mané fica trabalhando e o Tonhão fica sentado ao sol, na calçada, do outro lado da rua. Não precisam conversar, mas gostam de ficar perto: AMIZADE. O som da jovem guarda rolando alto no rádio da oficina. Mais de cinquenta anos de parceria! Eu olho e aprendo, uai.
Bom dia, meus amigos. Estou aqui para aqueles que precisarem.
É outubro outra vez🌻. Bora!

O OPALA

O rapaz tinha dezenove anos e era orgulhoso. Estava sentado ao pé da porta, segurando uma caneca de café, curtindo o sol; amanhecia. De pé, ao lado, a irmã mais nova: quinze. Ambos olhavam o Opala de seis canecos com o capô aberto:
- E ficou bom dessa vez? – a menina perguntou.
- Agora está tinindo.
- E o pai?
- Quebrou o pau, como sempre. Você não ouviu?
- Ouvi sim, mas você é filho, ué! Não é sua obrigação sustentar a casa. É dever dele. Se ao menos não bebesse tanto...
Dentro da casa, outros três meninos, o mais velho deles com dez anos recém-completados, assistiam televisão. No quarto, a mãe gemia: câncer. O pai ainda não tinha acordado. Roncava na lavanderia ao ritmo da bebedeira da noite anterior. Era um homem forte, o pai, um metro e noventa e mais de cem quilos; violento, na maior parte das vezes.
- Eu queria me divertir, Ana.
- Eu também.
- A gente tá condenado; o tempo, passando. Não há futuro. Logo seremos dois velhinhos. A mãe morrendo... Essas crianças fodidas também... Dívidas, contas, carnês... O sítio hipotecado! Meu trabalho naquele mercado... sete dias por semana! Ele que nunca se controla! As brigas! Não aguento mais... Nada de melhor nos espera, Aninha. Às vezes, tenho vontade de acabar com tudo. Mais de uma, tive de me esforçar pra não jogar esse carro de frente com uma carreta quando voltava do trabalho.
Os olhos da menina brilharam. Ela tomou o resto do café. Pensou entrar e começar a lavar a louça, mas se decidiu. Sentou-se ao lado do irmão, segurou-o pelo braço:
- Vamos.
- O quê?
- O carro. A carreta. Só nós dois. Juntos. Pra sempre.
- Você não tem coragem.
- Tenho.
Enxergaram-se então. O tempo desacelerou. As mãos dela fervendo no antebraço dele. Os corpos diziam sim. Ele jogou a caneca longe, na terra; segurou a mão da irmã e os dois correram para o carro. O rapaz bateu o capô com força, depois a porta, fez um meio círculo levantando poeira, os pneus cantando, rasgando a terra como se fossem.
E partiram. Rumo à via Dutra.
Dia seguinte, seus retratos estampavam as manchetes dos jornais.🌻

MORTE, DEUS E CRIAÇÃO



BLANCHOT dizia que o lugar da literatura é à roda da morte. A literatura não é a expressão de um eu-armadura, mas a passagem do impessoal; e não há lugar melhor para se livrar do entulho do eu que à vizinhança da morte. Com câncer terminal, ninguém se preocupa em fazer sucesso ou pôr em prática suas opiniões muito acertadas sobre todas as coisas. Concordo, mas modifico. Creio que o lugar de TODA atividade criadora é a beira do abismo. O canto mais bonito do cisne é pouco antes da foice. Nos anos anteriores à catatonia, Nietzsche produziu, como locomotiva, suas obras mais importantes. Em dois anos, van Gogh pintou mais de duzentos quadros. Kurt Cobain concebeu Nevermind e, logo depois, dissolveu-se. Pouco mais de um mês antes de enfiar a cabeça naquele forno, Sylvia Plath escreveu todos os poemas de Ariel. O inspirado é aquele que foi tocado pela sua própria dissolução. Há algo, no fundo do ser; que, sendo nosso, já é de toda a humanidade. É como cavar um poço e encontrar o lençol freático. Alguns místicos chamam de centelha divina. Há pessoas que conseguem efetuar toda a travessia sustentando o punho erguido ao perambular por este espaço evanescente de tremor. Outros mergulham no abismo sem morrer e descobrem que o abismo tem braços macios abertos: o próprio abismo é Deus. Podemos tomar um chá ou um chocolate sentados na beira com os pés balançando antes de. Eu estive com um pé no alto sobre o abismo e o outro na casca de banana e então, a China. Aprendi que o vazio não é o negativo e tem pouco a ver com niilismo. O vazio não é negativo nem positivo, ele É. O vazio É é o Ser e, no ente humano, se manifesta como paz, gratidão, serenidade, amor, beleza, verdade, cantoria. Do outro lado do desespero, há um colo. Ao lado de Bruce Lee, driblei o fim como um toureiro dribla o touro, mas o mérito não é meu; mesmo porque, hoje, preferia encontrar outro modo de Dizer sem precisar usar os pronomes eu, meu, mim etc. Sou água. Quando não estou em mim, quando me tiro do caminho, é que me sou profundamente. Às vezes, o frio volta a doer feito lâmina de encontro à pele. Com determinação, baixo a cabeça e sigo. É natural gemer um pouco. Sei do que se trata. Tornei-me um agrimensor da ferida, um explorador do abismo. Que seja de sol.

SEGUNDA-FEIRA

Tudo bem que dois blocos fizessem as vezes da perna quebrada da cama, eles acordaram felizes. Enquanto ela foi pro banheiro tomar banho e se aprontar, ele colocou água no fogo para o café. Caminhou até o quintal e ligou realizado o caminhãozinho com a intenção de já ir aquecendo o motor. Era seu próprio caminhão! Sim, senhor! Seria a primeira viagem no que era seu e Pedro estava feliz. A travessia seguia. Durante toda a vida, o pai tinha vendido a força de trabalho nas lavouras: nunca tivera nada de seu; e ele, agora, antes dos trinta, já tinha sua própria casa, seu caminhão e conseguira construir até uma edícula nos fundos pro pai morar mais a mãe; cortinas brancas na cozinha da velhinha! A esposa saiu do banheiro. Ele entrou. A barriga ainda não aparecia, uma vez que a gravidez sequer alcançara o quarto mês. Ângela ainda cabia no mesmo uniforme dos Correios. Enquanto ele se aprontava, ela coou o café que os dois tomaram juntos, depois, com as mãos dadas sobre a mesa. Desfrutavam a simplicidade de ser. A luz do sol entrava pelas janelas e iluminava os rostos de ambos como se fosse um modo de a Divindade dizer: “Ei gente, estou aqui abençoando vocês”. Quando se levantaram para colocar a louça na pia, ele a abraçou por trás, beijou a nuca e ela se virou. Aconteceu então um beijo carregado de. Deste mesmo modo, os querubins se beijavam nas festas no céu. Ele ensaiou uns passos, ela acompanhou: o amor é uma dança; bem como o sexo é o dançar dentro do outro. Antes de entrarem no auto, que se traduzia em termos materiais num carnê de oitenta e quatro páginas, ele colocou ração, água, afagou e brincou com o cachorro:
- Cuida de tudo pra nós, Bruxão! – e o cão, não contendo a excitação, deu uma volta no quintal correndo feito louco. Como não sorrir?
Antes de rumar para a firma, ele a deixou na porta do trabalho. Beijaram-se.
- Eu te amo – ela disse sem véus e sem complicações.
- Eu vejo você – ele respondeu.
Na casa de frente àquela onde moravam, um monge-poeta observava tudo sem inveja; com bênçãos nos olhos. Era um atormentado pela fome de Deus, o monge. Tinha recebido visita uma vez e todo o mundo pintara-se de luz; mas, depois que Deus se foi, sua alma tornara-se sertão. Não conseguia encontrar a porta de entrada de volta. E a alma sequer sabia o que tinha feito de errado; feito noiva abandonada no altar, ainda esperava a visita do Cristo, olhando sem jeito para os convidados. E o Cristo não vinha, não aparecia na porta da capela.